quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A dor do não vivido.

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.

(Carlos Drummond de Andrade)

O que realmente conta

Olhar é uma coisa...
Ver o que se olha é outra coisa.
Compreender o que se vê é uma terceira.
Aprender com o que se compreende é ainda outra.
Mas agir segundo o que se aprendeu é tudo o que realmente interessa!


Desconheço a autoria

REFORMA ORTOGRÁFICA - TREMA

Antes do Acordo, o trema (¨) só era empregado na ortografia em vigor no Brasil, já tendo sido eliminado de Portugal. E mesmo por aqui o sinal caíra em desuso por grande parte da população e até por alguns periódicos. Por esse motivo, resolveu-se extingui-lo de vez (Base XIV do Acordo).

Portanto, o trema (¨), sinal diacrítico colocado sobre a letra "u" para indicar sua pronúncia nas sílabas gue, gui, que e qui, deixa de ser adotado nas palavras em língua portuguesa ou aportuguesadas.

Teremos que nos acostumar a escrever aguentar, frequente, linguiça, cinquenta, tranquilo, sequência e sequestro todas sem o trema.

Mas atenção: O trema permanece nas palavras estrangeiras e seus derivados, como Führer, Müller, Krüger, Hübner e hübneriano.

Ita est.

Prof. Zanon

Fonte: Reforma ortográfica da língua portuguesa. São Paulo: Escala, 2009.

O cabo é dos nossos!

Um conto do professor Sandro Zanon

A notícia explodiu como uma granada, repentina e devastadora. Nenhuma árvore da floresta esperava por ela.

Embora seja bastante comum árvores serem derrubadas todos os dias por motivos diversos e para os mais variados fins, há algum tempo reinava uma calmaria na floresta EIGHT OAK. As temidas motoserras não apareciam em EIGHT OAK há pelo menos uns sete anos.

As árvores já não lembravam mais de seus barulhos ensurdecedores, de suas lâminas implacáveis e do forte odor de óleo que anunciavam sua presença de longe.

Não havia diálogo entre as motoserras e as árvores, pois as motoserras não falam a língua das árvores. Quando elas chegavam, as árvores se submetiam quietamente ao inevitável. Eram derrubadas sem dó nem piedade. As motoserras não sentiam remorso também. Faziam o serviço rapidamente e iam embora. Não se importavam se ao derrubar um carvalho centenário causassem efeitos colaterais à floresta, o que geralmente acontecia na maioria dos casos, pois o velho carvalho levava para o chão, junto consigo, inúmeros cipós, trepadeiras, musgos, árvores menores e frágeis; sem falar nos pássaros e outros animaizinhos que ele sustentava em seus fortes galhos.

Depois que as motoserras faziam o seu trabalho, passavam-se décadas até que a floresta voltasse ao seu normal, e no lugar dos grandes carvalhos, arvorezinhas mirradas e sem viço tentavam brotar, mas por mais que se empenhassem, não alcançavam a majestade das que foram derrubadas.

Logo após o impacto da notícia surgiu um lampejo de esperança. No lugar das motoserras, um machado iria entrar em EIGHT OAK para fazer o serviço. Quando o machado entrou na floresta, as árvores se consolaram mutuamente dizendo: "O cabo é dos nossos! Não é possível que se esqueça de onde veio e do que é feito!"

Ledo engano! O pequeno machado, investido de uma força que até então não possuia, deixou-se manejar ferozmente. Orgulhosamente sentia-se como o MJOLNIR nas mãos do Deus do Trovão. O alvo de sua lâmina afiada era um carvalho considerado ainda jovem, com apenas catorze anos de vida, mas com a altura e a circunferência dos majestosos carvalhos americanos. O pequeno machado investiu furiosamente uma, duas, três, dez e muitas vezes dez, mas o jovem carvalho resistiu.

Todos os pássaros que se sentiam seguros em seus galhos voaram de lá, todos os animaizinhos que buscavam proteção nele desapareceram. Até as formigas que sugavam sua seiva e os carunchos que se escondiam em suas cascas grossas foram embora.

Diante da resignação do jovem carvalho as forças que impulsionavam o pequeno machado desistiram, e ele, como não tinha autonomia, afastou-se de sua gênese.

O jovem carvalho ficou terrivelmente mutilado, mas permaneceu de pé. A seiva escorria abundantemente de seu tronco machucado. As outras árvores ficaram inconformadas pela traição do cabo do machado. Como ele pode deixar-se manipular assim, e ser levado a cometer tamanha traição?

Mas o jovem carvalho, depois que suas feridas cicatrizaram, perdoou o pequeno machado. Ele entendeu a sua heteronomia e aprendeu a lição: "Timeo hominem unius libri".

Felix qui potuit rerum cognocere causas!



terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Cabelereiro ou Cabeleireiro?

O certo é CABELEIREIRO.
A dúvida surge por causa do sufixo "ei" duplo. Há quem estranhe o uso do sufixo "ei" duas vezes, alegando que o termo primitivo (cabelo) não possui tal sufixo.
Acontece que a palavra primitiva, nesse caso, não é o termo "cabelo".

"Cabeleireiro" vem de "cabeleira".

- cabeleir(a) + eiro = cabeleireiro.


Ita est.

Prof. Zanon

Fonte: OLIVEIRA, Edson de. Todo mundo tem dúvida, inclusive você. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 5° edição, 1998.

Como abreviar símbolos científicos.

Convencionou-se que os símbolos científicos não podem terminar por ponto. E, se não levam ponto, também não recebem indicação de plural mediante a letra "s".

Exemplos:

- minuto ou minutos = min
- quilograma ou quilogramas = kg
- quilômetro ou quilômetros = km
- hora ou horas = h
- 8 horas e 15 minutos = 8h15min

A abreviatura 8:15 que geralmente encontramos por aí está totalmente errada, pelo menos sob o enfoque gramatical.

Ita est.

Prof. Zanon

Fonte: OLIVEIRA, Edson de. Todo mundo tem dúvida, inclusive você. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 5º edição, 1998.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A poesia de Emily Dickinson

Até o momento, não há consenso entre os especialistas em situar Emily Dickinson dentro desta ou daquela tendência literária. Alguns dizem que sua poesia pertence ao movimento dos poetas transcendentalistas, outros afirmam que que sua poesia é metafísica e surrealista, há ainda aqueles que comparam sua produção aos textos criados por pessoas portadoras de distúrbios mentais.
O fato é que Emily Dickinson, juntamente a Walt Whitman, é um dos grandes nomes da lírica norte-americana do século XIX. Seus poemas são de uma indizível leveza, ora sobre pequenas coisas do dia-a-dia e a fluidez do tempo, ora composições mais pesadas, que tratam da morte e de tensões psicológicas.

Sobre seu trabalho poético, disse Harold Bloom: "À exceção de Kafka, não lembro de nenhum escritor que tenha expressado o desespero com tanta força e constância quanto Emily Dickinson."

Para ler Emily Dickinson sugiro a edição bilíngue com excelente tradução de Ivo Bender, publicado pela L&PM POCKET.



"Morning is due to all -
To some - the Night -
To an imperial few -
The Auroral light."


"A manhã se dá a todos,
A noite, para alguns poucos;
A raros afortunados,
A luz da madrugada."


Fonte: DICKINSON, Emily, 1830-1886. Poemas escolhidos. Tradução de Ivo Bender. Porto Alegre: L&PM, 2007.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

REFORMA ORTOGRÁFICA - LETRAS MAIÚSCULAS

De acordo com a reforma ortográfica (Base XIX do Acordo) a letra maiúscula inicial é sempre usada nos seguintes casos:

- Nomes próprios, sejam eles reais (Sandro Zanon) ou fictícios (Branca de Neve).

- Nomes de lugares, sejam eles reais (Brasil) ou fictícios (Atlântida).

- Nomes de seres antropomorfizados (semelhantes ao homem) ou mitológicos: Adamastor (gigante mítico referido por Camões em "Os Lusíadas"), Zeus (deus da mitologia greco-romana).

- Nomes que designam instituições: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

- Nomes de festas e festividades: Páscoa, Natal etc.

- Títulos de jornais e revistas, que devem ser sempre grafados em itálico: Conhecimento Prático Língua Portuguesa.

- Siglas, abreviaturas ou símbolos usados internacional ou nacionalmente com maiúsculas (nesse caso, não necessariamente apenas na letra inicial): IBGE, H2O etc.


A letra maiúscula inicial é facultativa em termos de reverência, formas de tratamento cortês (áulicos) ou de hierarquia, inícios de versos e em termos que classificam locais públicos (rua, alameda, avenida), assim como templos e edifícios: Avenida ou avenida Paulista, Igreja ou igreja Senhor do Bonfim, Palácio ou palácio da Cultura.

Ita est.

Prof. Zanon

Fonte: Reforma ortográfica da língua portuguesa. São Paulo: Escala, 2009.

REFORMA ORTOGRÁFICA - LETRAS MINÚSCULAS

A reforma ortográfica (Base XIX do Acordo) definiu os seguintes usos das letras minúsculas:

1) As letras minúsculas serão usadas para designar nomes de meses, estações do ano e dias da semana: abril, agosto, inverno, verão, quinta-feira, sábado etc. Atenção: Na língua inglesa, nomes de meses e dias de semana são grafados com letra maiúscula e, devido à difusão do idioma no Brasil (e ao fato de que em Portugal os meses eram escritos em maiúscula antes do Acordo), muita gente passou a adotar a prática. Por isso, fique atento: meses e dias de semana são grafados com minúscula.

2) Os pontos cardeais também são escritos com letra minúscula: norte, leste, sudeste etc. Suas abreviaturas, no entanto, são escritas em maiúscula: N (norte), NE (nordeste), O (oeste) etc. Detalhe: Quando os pontos cardeais ou equivalentes são usados de forma absoluta, isso é, para indicar toda uma região, eles são escritos com letra maiúscula. Por exemplo: "Um dos principais pontos turísticos do Brasil é o Nordeste;" (ou seja, a região nordeste brasileira).

3) O uso da letra minúscula é facultativo nos seguintes casos:

- Citações biográficas (com exceção da primeira palavra e dos termos obrigatoriamente grafados com maiúscula, como nomes próprios). Assim, pode-se escrever tanto "Memórias Póstumas de Brás Cubas" quanto "Memórias póstumas de Brás Cubas".

- Formas de tratamento e reverência (axiônimos) e nomes sagrados que designam crenças religiosas (hagiônimos): Santa Isabel ou santa Isabel e Senhor Doutor João da Silva ou senhor doutor João da Silva.

- Nomes que designam domínios do saber, cursos e disciplinas: Português ou português, Matemática ou matemática, Filosofia ou filosofia.

Ita est.

Prof. Zanon

Fonte: Reforma ortográfica da língua portuguesa. São Paulo: Escala, 2009.

REFORMA ORTOGRÁFICA - NOSSO "NOVO" ALFABETO

O alfabeto da língua portuguesa passa a incorporar as letras K, Y e W e a contar ao todo com 26 letras: A-B-C-D-E-F-G-H-I-J-K-L-M-N-O-P-Q-R-S-T-U-V-W-X-Y-Z.

Essas três letras agora se tornaram parte do português oficialmente. Porém, não estamos autorizados a usá-las irrestritamente. Seu uso se aplica nos seguintes casos:

- Nomes próprios de pessoas (antropônimos) em outras línguas e seus derivados (como William, Kafka e Taylor ou kafkiano e taylorista).

- Nomes geográficos (topônimos), como de regiões, países e cidades (como Kuwait, kuwaitiano).

- Siglas, símbolos e unidades de medida universais (como K para designar potássio em química ou o uso de "Kg" para quilograma). Cuidado aqui! "Kg" é apenas na sigla, quilo e quilograma continuam sendo grafados com "Q".

Nomes de países e cidades em outras línguas devem ser grafados em sua forma correspondente em português: Nova Iorque (e não New York), Zurique (e não Zürich), Quebeque (e não Quebec). Os termos que não possuem versão em português, como Washington e Los Angeles devem manter a grafia original.

Ita est.

Prof. Zanon


Referência bibliográfica: Reforma ortográfica da língua portuguesa. São Paulo: Editora Escala, 2009.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

"ELES NÃO ASSISTIRAM O FILME?"; OU, "ELES NÃO ASSISTIRAM AO FILME?"

Uma dúvida que muita gente tem:

Qual é o modo correto: Eles não assistiram o filme; ou, eles não assistiram ao filme?

O certo é “Eles não assistiram ao filme”, “Eu assisti à apresentação”, “O filme a que eu assisti era muito bom”...

Por quê?

Porque o verbo assistir, significando “ver”, “presenciar”, sempre pede objeto indireto, antecedido pela preposição “a”. Sem a preposição, porém, esse mesmo verbo muda de sentido, ou seja, passa a significar “dar assistência”.

Exemplos:

“O governo deve assistir o menor abandonado”.

“O médico assistiu o enfermo e, depois, foi assistir ao futebol.


Ita est.


Prof. Zanon

Fonte: OLIVEIRA, Edson de. Português: todo o mundo tem dúvida, inclusive você. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 5º edição, 1998. p. 12.

ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO, INCULTA E BELA

"Última flor do Lácio, inculta e bela" é o primeiro verso de um famoso poema de Olavo Bilac. A “última flor” é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim. “Lácio” era uma região da Itália antiga onde se falava o latim. Dessa árvore muitas flores brotaram (o francês, o espanhol etc.) e a última foi a língua que falamos e escrevemos. O termo “inculta” fica por conta de todos aqueles que a maltratam, falando e escrevendo errado. Mas apesar disso ela continua a ser bela.

E como é bela a nossa língua portuguesa!

Como falantes da língua portuguesa, devemos apropriar-nos dela. Queremos contribuir para isso postando neste site regularmente pequenas dicas de como escrever e pronunciar corretamente nossa língua. Assim, em pequenas doses, será mais fácil apreendermos essa riqueza linguística que nos foi legada.

Ita est.

Prof. Zanon

Matérias mais antigas:

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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.