domingo, 28 de junho de 2009

Uma pérola de John Milton

[...] dentro da alma hei de por-lhes a consciência, guia infalível, árbitro divino".


MILTON, John. Paraíso perdido. São Paulo: Martin Claret, 2006. p. 118


Uma triste verdade!

[...] da cultura do próprio tempo e da própria classe não se sai a não ser para entrar no delírio e na ausência de comunicação".


GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes. São Paulo: Cia. das Letras, 1987. p. 27.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

ENEM - EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO


No dia 15 de junho iniciou-se o período de inscrições para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Os estudantes de todo o Brasil estão na expectativa para fazer a prova, principalmente depois que o MEC anunciou uma série de mudanças que serão adotadas.

Na edição Enem 2009 serão propostas 180 questões (objetivas e dissertativas) que vão testar diversas habilidades de interpretação dos candidatos. O exame acontece em duas fases (serão dois dias de prova) e promete ser muito mais complexo que as versões anteriores. Por isso muitas instituições de ensino superior concordaram em usar as notas do Enem em seus vestibulares.

Todas as pessoas que concluíram o Ensino Médio, em qualquer época, podem se inscrever para o Enem, mas a prioridade é mesmo voltada para os alunos que estão cursando o último ano em escolas públicas. Eles não pagam a taxa de inscrição e contam com o apoio da instituição para fazer o envio do formulário pelo Correio. Já os alunos concluintes do Ensino Médio em escolas particulares deverão pagar a taxa de inscrição de R$ 35,00 para participar.

O Enem acontecerá nos dias 3 (sábado) e 4 (domingo) de outubro de 2009. As inscrições poderão ser feitas no endereço oficial do Enem:

http://www.enem.inep.gov.br/

Há bastante tempo para fazer a inscrição e para se preparar.

Ita est!
Prof. Zanon

segunda-feira, 15 de junho de 2009

"Enferrugem" ou "enferrujem"?


"Tire as cadeiras da chuva, para que elas não enferru...". E agora? É com "G" ou com "J"?

O substantivo é "FERRUGEM" e se escreve com "G", garante o
iDicionário Aulete:

(fer.ru.gem) sf. (1). Quím. Óxido que se forma na superfície do ferro ou de outros metais, por ação do oxigênio e da umidade; OXIDAÇÃO

Então o certo é "ENFERRUGEM", com "G", certo? ERRADO.

O verbo é "enferrujar", com "J". Não poderia ter "G" no infinitivo, senão teríamos "enferrugar". Então fica assim:

[en + ferru(gem) + j + ar]

Se o verbo tem "J" no infinitivo, esse "J" permanece em todas as suas formas.

Assim:


"A maresia enferrujara a geladeira".
" O serrote enferrujou (-se)".
"A inatividade enferruja a musculatura".

"Se não trabalho todo dia, logo (me) enferrujo".
" O tempo enferruja a memória".
"Por falta de prática, seu latim enferrujou (-se)".

"Encostei a camisa no portão de ferro e
enferrujei a manga".

Ita est!
Prof. Zanon


Referências:
iDicionário Aulete. Disponível em: http://www.aulete.portaldapalavra.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=loadVerbete&pesquisa=1&palavra=engano. Acessado em 15 de Junho de 2009 às 19h37
CIPRO NETO, Pasquale. Nossa língua curiosa. São Paulo: Publifolha, 2003

Ledo engano!

A palavra "ledo" vem do latim e significa "risonho, contente, alegre". Então a expressão "ledo engano" significa "engano alegre"?
O iDicionário Aulete define-a assim:

Ledo engano
Engano que se cometeu ou em que se incorreu de boa-fé, sem intenção.

"Ledo engano" portanto significa que a pessoa não tem consciência do engano. Pensa estar acertando e sente-se feliz, apesar de enganada.

Ita est!
Prof. Zanon


Referências:
iDicionário Aulete. Disponível em: http://www.aulete.portaldapalavra.com.br/site.php?mdl=aulete_digital&op=loadVerbete&pesquisa=1&palavra=engano. Acessado em 15 de Junho de 2009 às 19h37
CIPRO NETO, Pasquale. Nossa língua curiosa. São Paulo: Publifolha, 2003

terça-feira, 9 de junho de 2009

Conhecendo o emprego de "este", "esse" e "aquele"

Os pronomes demonstrativos são "este" (esta, estes, estas ou isto), "esse" (essa, esses, essas ou isso), "aquele" (aquela, aqueles, aquelas ou aquilo).


Os pronomes este, esta, no singular ou plural, referem-se à primeira pessoa verbal. Assim, se o falante refere-se a um objeto próximo de si, ele emprega este.

Por exemplo: Este material já está pronto. (O ouvinte entende que o material a que ele se refere está próximo de quem falou)

Os pronomes esse, essa, no singular ou plural, referem-se à segunda pessoa verbal. Assim, se o falante refere-se a um objeto próximo da pessoa com quem ele fala, ele emprega esse.

Por exemplo: Esse material já está pronto. (O ouvinte, ao ouvir tal frase, sabe que o material ao qual se refere o falante está próximo dele [ouvinte])

Os pronomes aquele, aquela, no singular ou plural, referem-se à terceira pessoa verbal. Assim, se o falante refere-se a um objeto distante dele (falante) e também distante do ouvinte, ele emprega aquele.

Por exemplo: Aquele material já está pronto. O ouvinte, ao ouvir tal frase, sabe que o material ao qual se refere o falante está distante.

Esses mesmos pronomes demonstrativos têm outros empregos. Eles podem referir-se a assuntos já apresentados ou a assuntos ainda não apresentados.

Quando se escreve para tratar de um assunto já apresentado, empregam-se esse, esses, essa, essas.

Exemplo: A nave de que trata o texto é o planeta Terra. Essa nave tem como tripulantes os seres vivos do planeta. (Nesse caso, como a nave já tinha sido assunto, a referência a ela é feita por meio do pronome esse)

Quando se escreve para tratar de um assunto que ainda vai ser apresentado, empregam-se este, estes, estas ou estas.

Exemplo: Esta é a nave cuja tripulação são os seres vivos da Terra. (Nesse caso, como a nave não tinha sido citada anteriormente, emprega-se esta)

Há ainda um uso especial com relação aos pronomes demonstrativos. Quando eles se referem a dois termos no texto, ambos passados, emprega-se "este" para o termo mais próximo e "aquele" para o mais distante.

Exemplo:

Os passageiros da primeira classe não se importam com o meio ambiente; já os passageiros da segunda classe estão mais preocupados com a saúde do planeta. Enquanto estes pouco podem fazer por não terem recursos, aqueles, que poderiam fazer muito, quase nada fazem.


Ita est!
Prof. Zanon

Referências:
MARCONDES, Beatriz; BUSCATO, Lenira; PARISI, Paula. Dialogando com textos: português, 9º ano, 8ª série. 3ª edição. Curitiba: Ed. Positivo, 2007.

Sentou-se à mesa ou sentou-se na mesa?

Na locução, à dá ideia de proximidade, equivalendo a junto à: Sentou-se à mesa/Tomou lugar à mesa.


Na mesa seria sobre a: Subiu na mesa para trocar a lâmpada.

Da mesma forma, ao volante, à máquina (e não na máquina), ao piano, à janela etc.

Ita est!
Prof. Zanon

Referência:
MARTINS, Eduardo. O estado de São Paulo. Manual de redação e estilo. São Paulo: O Estado de São Paulo, 1990.

HAJA e AJA - Qual a diferença?

Não se pode confundir "haja" (do verbo "haver", significa "exista") com "aja" (do verbo "agir"). Confundir seus usos numa redação causa péssima impressão quanto aos conhecimentos ortográficos da pessoa que redigiu.

A diferenciação baseada no sentido não exige mais do que o simples ato de conscientizar-se da acepção em que o termo foi empregado.

Exemplo:

"É preciso que ele aja (verbo "agir") com atenção, a fim de que não haja (verbo "haver", significa exista) outro descuido".

Ita est!

Prof. Zanon

Referência:
OLIVEIRA, Édison de. Português: Todo o mundo tem dúvida, inclusive você. Porto Alegre: Sagra Luzzatto, 5ª edição, 1998.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O Corvo

Edgar Allan Poe
Tradução: Oscar Mendes


Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar.
“É alguém” — fiquei a murmurar — “que bate à porta, devagar;
sim, é só isso e nada mais.”

Ah! claramente eu o relembro! Era o gélido dezembro
e o fogo, agônico, animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
Algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora
— essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora
e nome aqui já não tem mais.

A seda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,
arrepiando-me e evocando ignotos medos sepulcrais.
De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia
e a sossegá-lo eu repetia: “É um visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a bater e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais.”

Ergui-me após e m, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
“Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;
mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,
que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
assim de leve, em hora morta.” Escancarei então a porta:
— escuridão, e nada mais.

Sondei a noite erma e tranquila, olhei-a fundo, a perquiri-la,
sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e medo, ante o negro imoto e quedo
só um nome ouvi (quase em segredo eu o dizia) e foi: “Lenora!”
E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: “Lenora!”
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
“É na janela” — penso então, “— Por que agitar-me a aflição?
Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,
o vento sopra. É só do vento esse rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais.

Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
— é um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa augusto e, sem notar sequer meu susto,
adeja e pousa sobre o busto — uma escultura de Minerva,
bem sobre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,
empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,
desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
“Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular” — então lhe digo —
“não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro torvo,
qual é teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno torvo!”
E o Corvo disse: — “Nunca mais”.

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais;
pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente
que igual surpresa experimente: a de encontrar em sua porta,
uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
e que se chama: “Nunca mais”.

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,
enquanto a mágoa me envenena: “Amigos... sempre vão-se embora.
Como a esperança, ao vir a aurora, ELE também há de ir-se embora”.
e disse o Corvo: “Nunca mais”.

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que , perplexo,
julgo: “É só isso o que ele diz; duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
e a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritomelo
de seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: - o ritomelo
de “Nunca, nunca, nunca mais”.

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,
girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais
e, mergulhando no coxim, pus-me a inquirir (pois para mim,
visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,
com que intenções, horrendo, torvo, esse ominoso antigo corvo
grasnava sempre: “Nunca mais”.

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.
Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sobre a almofada
dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
dessa poltrona em que ELA, ausente, à luz que cia suavemente,
já não repousa, ah! nunca mais...

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
ali descessem a esparzir turibulários celestiais.
“Mísero!” — exclamo — “Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus
esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora.
Sorve o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!
E o Corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta!” — brado — “Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
de algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita
mansão de horror, que o horror habita, — imploro, dize-mo, em verdade:
EXISTE um bálsamo em Galaad? Imploro! dize-mo, em verdade!”
E o Corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta!” — exclamo — “Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por esse Deus que adoram todos os mortais.
fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
_ essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

“Seja isso a nossa despedida!” — ergo-me e grito, alma incendiada —
“volta de novo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixa-me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!”
E o Corvo disse: “Nunca mais!”

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
sobre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos dorme,
e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondulara sobre a alfombra, está minha alma; e, presa à sombra,
não há de erguer-se, ai! nunca mais!


Disponível em: http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&uf=1&local=1&template=3948.dwt&section=Blogs&post=143536&blog=31&coldir=1&topo=4254.dwt

Acessado em: 08 de junho de 2009 às 14h26m

Uma pérola do mestre Umberto Eco

"As ilusões caem uma após outra, como as cascas de uma fruta, e a fruta é a experiência".

ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Cia. das Letras, 1994. p. 20.

Pense nisso quando for produzir uma redação.

"Declarações, apreciações, julgamentos e pronunciamentos expressam opinião pessoal, indicam aprovação ou desaprovação. Mas sua validade deve ser demonstrada ou provada. Ora, só os fatos provam, sem eles, que constituem a essência dos argumentos convincentes, toda declaração é gratuita, porque infundada, e, por isso, facilmente contestável".

GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. Fundação Getúlio Vargas, 1967. s/ local. p. 274

Matérias mais antigas:

Minha foto
Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.