sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Quincas Borba

Acabei de ler pela segunda vez o livro Quincas Borba, de Machado de Assis. Desta vez li-o com mais vagar (como diria o velho Machado), sem a pressa acadêmica, e por isso consegui perceber certos detalhes entre as linhas que fazem jus a fama de Machado de "o mestre da psicologia literária".


Quincas Borba é o romance de Machado de Assis que mais se aproxima da tradição realista europeia do século XIX. Narrado em terceira pessoa, a narrativa acompanha a trajetória ascensional de um modesto professor que se torna “capitalista”, resultado de um mero golpe do acaso, a herança que Quincas Borba (o mesmo Quincas que apareceu no "Memórias Póstumas de Brás Cubas") lhe deixou, sob a condição de cuidar do cachorro também chamado Quincas Borba.

De posse da herança milionária, parte para o Rio de Janeiro em busca das luzes da capital, e cai vítima de duas terríveis tentações: a do amor, personificado em Sofia e a do poder, representado por Camacho, um jornalista inescrupuloso. Rubião não está preparado para a riqueza inesperada. Não tem percepção dos complexos mecanismos que regem os negócios na vida urbana e tampouco entende as sutilezas psicológicas que delimitam as relações pessoais na cidade. A sua progressiva loucura parece traduzir a estreiteza de sua consciência diante de um mundo que não compreende. É um protagonista passivo, incapaz de delimitar o seu próprio destino.

Sofia (a perdição de Rubião) é uma das grandes personagens femininas de Machado de Assis. Belíssima, charmosa, narcisista, exibida publicamente pelo marido que se compraz em vê-la encantar os homens, ela usa todas as técnicas possíveis de sedução, sem jamais chegar ao adultério. Esta dubiedade leva Rubião literalmente à loucura.

Os capítulos CXII, CXVII, CXXXVIII, CXLI, e CXLII são especialmente deliciosos devido aos diálogos que Machado mantém com seus leitores, fazendo citações de si mesmo e aplicações muito interessantes de parêmias atualíssimas.

Vale a pena lê-lo muitas vezes.

Para aqueles que já se adaptaram aos e-books e não gostam de gastar dinheiro com livros, há downloads gratuitos do livro disponíveis em:

http://superdownloads.uol.com.br/download/144/livro-quincas-borba/

Ita est!

Prof. Zanon



Paremiologia

Você já se deparou com esta palavra: paremiologia?

Paremiologia (do grego PAROIMÍA, provérbio; LOGOS, tratado; sufixo, -IA) significa "obra, estudo a respeito de parêmias (provérbios ou alegorias breves)".

A palavra PROVÉRBIO já foi definida por alguém como "sabedoria em gotas", pois são alegorias breves que encerram saberes provados pelo tempo e pela experiência.

Veja alguns exemplos de provérbios populares:

"Pouco fel azeda muito mel". --) Um passo errado pode inutilizar uma longa série de esforços.

"Besta sem cevada, nunca boa cavalgada". --) Para se obter bons serviços, é preciso premiar condignamente.

"A quem hás de rogar, não deves enojar". --) Quem quer ser atendido deve procurar agradar.

"Quando Deus não quer, santos não rogam". --) É escusado trabalharem os inferiores contra os desejos dos superiores.

"Gato bradador, nunca bom murador (de murar, espreitar o gato ao rato junto do buraco para o apanhar)". --) Quem é muito espalhafatoso não realiza grande coisa.

"De longas vias longas mentiras". --) Quem conta de coisas distantes não receia verificações e pode impunemente alterar a verdade.

"Mais são as vozes que as nozes". --) O número dos pretendentes é maior do que os quinhões a serem repartidos.

"A pão duro, dente agudo". --) É preciso rechaçar com modos à altura os importunos e mal educados.

"O abade donde canta, daí janta". --) Quem faz um serviço tem direito ao salário.

Ita est!
Prof. Zanon

Importuna Razão, não me persigas

Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas;

Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas.

É teu fim, teu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo.

Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.

Bocage

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Viemos e vimos

Viemos e vimos são formas do verbo vir.

Viemos refere-se ao tempo passado e vimos, ao presente. Por exemplo:

- Ontem viemos aqui e não fomos atendidos.
- Acabada a festa, viemos todos para casa.
- Vimos (agora) aqui para o felicitar.
- Vimos, por meio desta, solicitar a Vossa Senhoria a gentileza de...

Somos levados a usar viemos em vez de vimos porque essa última forma se confunde com a do verbo ver, no pretérito perfeito (vimos o filme).

Foi provavelmente devido a isso que o escritor Fernando Sabino colocou esta frase na boca dos astrólogos que visitaram o menino Jesus: "Vimos uma estrela nos indicando o caminho e viemos adorá-lo." (Sabino, Fernando. Com a graça de Deus, p. 31)

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sábado, 16 de janeiro de 2010

Diálogo de Todo Dia

- Alô, quem fala?
- Ninguém. Quem fala é você que está perguntando quem fala.
- Mas eu preciso saber com quem estou falando.
- E eu preciso saber antes a quem estou respondendo.
- Assim não dá. Me faz o obséquio de dizer quem fala?
- Todo mundo fala, meu amigo, desde que não seja mudo.
- Isso eu sei, não precisava me dizer como novidade. Eu queria saber é quem está no aparelho.
- Ah, sim. No aparelho não está ninguém.
- Como não está, se você está me respondendo?
- Eu estou fora do aparelho. Dentro do aparelho não cabe ninguém.
- Engraçadinho. Então, quem está ao aparelho?
- Agora melhorou. Estou eu, para servi-lo.
- Não parece. Se fosse para me servir já teria dito quem está falando.
- Bem, nós dois estamos falando. Eu de cá, você de lá. E um não conhece o outro.
- Se eu conhecesse não estava perguntando.
- Você é muito perguntador. Note que eu não lhe perguntei nada.
- Nem tinha que perguntar. Pois se fui eu que telefonei.
- Não perguntei nem vou perguntar. Não estou interessado em conhecer outras pessoas.
- Mas podia estar interessado pelo menos em responder a quem telefonou.
- Estou respondendo.
- Pela última vez, cavalheiro, e em nome de Deus: quem fala?
- Pela última vez, e em nome da segurança, por que eu sou obrigado a dar esta informação a um desconhecido?
- Bolas!
- Bolas digo eu. Bolas e carambolas. Por acaso você não pode dizer com quem deseja falar, para eu lhe responder se essa pessoa está ou não aqui, mora ou não mora neste endereço? Vamos, diga de uma vez por todas: com quem deseja falar?

Silêncio.

- Vamos, diga: com quem deseja falar?
- Desculpe, a confusão é tanta que eu nem sei mais. Esqueci. Chau.

(sic)


Andrade, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. 5.º edição. Rio de Janeiro, Aguilar, 1988.



Sentido incompleto

Os verbos transitivos (diretos e indiretos) pedem sempre complemento. O mesmo ocorre com certas palavras e expressões que, sozinhas, tornam incompleto o sentido da frase.

Eis alguns exemplos de orações com sentido incompleto:

- Parlamentaristas desistem de impugnar. (o quê?)
- Secretário assina (o quê?) pelo governador e indica (quem?) para autarquia.
- O atacante não treinou ontem e disse que dificilmente deve renovar (o quê?).
- Brasil mobiliza (o quê?, quem?) para apresentar emendas.

É claro que pelo contexto social ou circunstancial essas frases são entendidas. Mas a escrita perdura enquanto a memória esvai-se. Por isso a frase escrita precisa ser completa, para que, mesmo leitores que não compartilham da informação contextual possam captar todo o seu sentido.

Uma boa dica é verificar sempre se o texto que você escreveu não deixa no ar uma destas perguntas: o quê? quem? de quê? do quê?

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Poesia hebraica

Ao contrário da maior parte da poesia ocidental, a poesia hebraica não se baseia em rima ou métrica, mas no ritmo e no paralelismo. O ritmo não é obtido pela disposição exata das sílabas tônicas e átonas, mas pela ênfase de tonalidade e pelo destaque dado às palavras importantes.

No paralelismo, o poeta declara uma ideia na primeira linha e depois a reforça de várias maneiras nas linhas subsequentes. O tipo mais comum é o paralelismo sinônimo, em que a segunda linha repete essencialmente a ideia da primeira:

"SENHOR, como tem crescido o número dos meus adversários!
São numerosos os que se levantam contra mim."

Bíblia Sagrada, Tradução ARA, Salmo 3,1

No paralelismo antitético, a segunda linha contém uma ideia oposta à da primeira:

"Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos,
mas o caminho dos ímpios perecerá."

idem, Salmo 1,6

No paralelismo sintético, a segunda linha ou as linhas subsequentes acrescentam algo ou desenvolvem a ideia da primeira:

"Bem-aventurado o homem
que não anda no conselho dos ímpios,
não se detém no caminho dos pecadores,
nem se assenta na roda
dos escarnecedores.
Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR,
e na sua lei medita de dia e de noite."

ibidem, Salmo 1,1-2

No paralelismo emblemático, a segunda linha eleva o pensamento da primeira, frequentemente pelo uso de uma símile:

"Como suspira a corça
pelas correntes das águas,
assim, por ti, ó Deus,
suspira a minha alma."

ibidem, Salmo 42,1

Podemos usar o paralelismo também para aprimorar nossa escrita. Quando escrevemos num diário, por exemplo, sobre nossos sentimentos, podemos usar esse recurso para deixar nossa escrita mais bela, mais poética.

Ita est!
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Amplificação

Para aqueles que querem ampliar o seu vocabulário, nada melhor do que praticar a amplificação. A amplificação consiste no desenvolvimento de uma ideia por meio de palavras diferentes e diferentes torneios da mesma frase. O processo mais comum consiste em definições e metáforas sinonímicas, em antíteses e comparações.
A amplificação é um recurso muito usado na poesia:

A vida é o dia de hoje,
A vida é o ai que mal soa,
A vida é nuvem que voa.
A vida é sonho tão leve,
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai.
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida, leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave.
Nuvem que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa de ave ferida -
De vale em vale impelida,
A vida, o vento a levou.

João de Deus, "A vida", Campos de Flores

Nesse exemplo, João de Deus faz uso da amplificação através de uma série de metáforas de "vida" e mais duas ou três comparações.

Camões também usou a amplificação em vários sonetos, como na primeira estrofe deste que começa assim:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudanças,
Tomando sempre novas qualidades.

Os exemplos mais legítimos de amplificações encontram-se na poesia bíblica, por influência do estilo hebraico, através de definições sinonímicas ou antitéticas, com o propósito de remover interpretações equivocadas, de frisar o sentido exato, de provar a veracidade de uma declaração. Muitas amplificações são, por isso, expressões redundantes da mesma ideia:

"Ouve, SENHOR, a minha súplica,
e cheguem a ti os meus clamores.
Não me ocultes o rosto
no dia da minha angústia;
inclina-me os ouvidos;
no dia em que eu clamar,
dá-te pressa em acudir-me."

Bíblia Sagrada, (João Ferreira de Almeida), Salmo 102, 1-2

Experimenta a amplificação em suas redações. Coloque uma ideia na primeira linha e depois desenvolva-a, torneando a mesma frase, remodelando-a.

Como exercício, imagine que você dissesse a um amigo seu, que não entende muito bem o português: "Hoje eu estou muito triste"; e ele, por não entender bem o idioma, não entendesse a frase. Você teria que repeti-la de outras maneiras, com outras palavras, sinônimos, talvez até usando algumas metáforas. Por exemplo:

"Hoje eu estou muito triste,
meu coração está sangrando,
a alegria fugiu de mim,
Hoje estou muito consciente de meus pecados,
de minhas falhas,
etc, etc, etc."

Experimenta esse exercício e verá sua escrita melhorar bastante.

Ita est!
Prof. Zanon

domingo, 10 de janeiro de 2010

NOW WE ARE FREE

Lisa Gerrard

Anol Shalom
Anol sheh lay komud de ne um (Shaddai)
Flavum
Nom
de leesh
Ham de nam um das
La um de
Flavne...
We de ze zu
bu
We de sooo a ru
Un va-a pesh a lay
Un vi-i bee
Un da la
pesh ni sa (Aaahh)
Un di-i lay na day
Un ma la pech a nay
mee di nu ku
(Fast tempo, 4 times)
La la da pa da le na da na
Ve va da pa da le na da dumda
Anol Shalom
Anol Sheh ley
Kon-nud de ne um
Flavum
Flavum
M-ai shondol-lee
Flavu... (live on)
Lof flesh lay
Nof de lis
Ham de num um dass
La um de Flavne...
Flay
Shom de nomm
Ma-lum des
Dwondi
Dwwoondi
Alas Sharum du koos
Koot-tum

Tradução

AGORA SOMOS LIVRES

Toda Poderosa Liberdade
Libertadora toda
poderosa da alma
Seja livre,
Ande comigo
Através dos campos dourados
Tão adoráveis
Adoráveis.
Nós lamentamos nossos
pecados, mas -
Nós tecemos nosso próprio
destino e -
Sob meu rosto eu permaneço
Frágil.

Sob meu rosto, eu sorrio,
Mesmo sozinho/amedrontado
Sob meu rosto eu estarei
Esperando.

Corra comigo agora
Soldado de Roma
corra e
brinque no campo com os pôneis


Descanse agora.
E imagine,
Descansando em paz no
final
É adorável, esse lugar
É adorável
Ninguém pode
acreditar ou entender
Como vim de tão longe
somente pela
Família
Minha Família.
Eu deveria estar lá com eles quando o mundo desabou.
Mas agora eles
descansam comigo.

Eu nunca esquecerei
Como senti aquele momento
Eu me libertei

http://www.youtube.com/watch?v=oYLseVbOHjk&feature=related

Ita est
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Erros de tradução

Que tal sentar-se com os amigos num bar, erguer o copo de cerveja e propor uma torrada? Estranho? Pois esse é um dos erros mais comuns dos tradutores distraídos. Let’s make a toast significa “vamos fazer um brinde”, mas, em muitas legendas está como “vamos fazer uma torrada”. Toast é uma das muitas palavras inglesas com dois significados. Outras tragédias de tradução, reunidas pela revista Superinteressante foram:


- O livro The Physician (O médico), foi traduzido como O físico. Na verdade, “físico” é physicist em inglês.

- “Motorista de disco” entrou no lugar de “unidade de disco” na tradução de disk drive, em um dos primeiros livros de informática do Brasil. Motorista, em inglês, é driver.

- Red herring é uma expressão com o sentido de “pista falsa”, mas muitos dos que se aventuram na tradução não sabem disso. Ela é quase sempre traduzida literalmente como “arenque vermelho”. Na tradução virtual do livro Fit for Life, Heads & Tails, Diet for a New America, a frase “...o cálcio do leite é, de fato, uma pista falsa”; foi traduzida “...o cálcio do leite é, de fato, um arenque vermelho”.

- O pior de todos os “desacertos” já cometidos em uma tradução para o português brasileiro é tido como mito para a maioria dos tradutores. Mas a prova está disponível no livro A Teoria Política do Individualismo Possessivo: de Hobbes até Locke, para quem quiser conferir. A expressão inglesa the general will, em vez de significar “a vontade geral”, virou o “general Will”. Em resultado disso, quem decidia as coisas em algumas passagens do livro não era a “vontade geral”, mas o autoritário “general Will”. Coincidentemente, o livro foi editado em 1979, tempo de ditadura militar no Brasil.

O tradutor Ivo Barroso diz que confusões como essas são cada vez mais comuns em filmes, livros e seriados. “A TV a cabo gerou uma enorme demanda por tradutores, que nem sempre são bem qualificados”, disse ele. (BARROSO, apud NARLOCH, 2002, p. 26).

Mas não são só os tradutores pouco qualificados que se enganam na hora de traduzir. Um erro clássico de tradução que ficou na história foi cometido pelo famoso e muito bem qualificado tradutor Jerônimo. Ao verter do idioma hebraico para o latim o trecho bíblico de Êxodo capítulo 34 e versículos 29, 30 e 35, ele traduziu que a face do profeta Moisés, depois da palestra com Deus no monte Sinai, “tinha chifres”. A Vulgata Latina, como ficou conhecida essa tradução da Bíblia, gozava de muita popularidade, Muitos artistas se basearam nessa tradução para esculpirem e pintarem o profeta Moisés. Nesses trabalhos Moisés sempre foi retratado “com chifres”. A mais famosa dessas obras é a estátua de Moisés, sentado, esculpida por Miguel Ângelo, que atualmente se encontra na Igreja de São Pedro em Cadeias, em Roma. Quando os visitantes observam essa escultura do século 16, ficam curiosos quanto aos chifres que se projetam da cabeça do profeta hebreu.


Moisés, de Michelangelo


Infelizmente, Miguel Ângelo baseou-se numa tradução equivocada do texto bíblico. A expressão hebraica que Jerônimo verteu por “tinha chifres” tem também o significado de “emitir raios ou “resplandecer. De acordo com o Theological Worldbook of the Old Testament, a palavra denota o “formato de chifres” em vez de a “substância”. (apud Revista A Sentinela, 15.03.90, p. 7). Encarados pictoricamente, raios de luz realmente se assemelham a chifres. O fato é que Moisés não teria chifres se Miguel Ângelo tivesse se baseado numa outra tradução da Bíblia que não A Vulgata Latina.


Ita est!

Prof. Zanon



Avós, bisavós, trisavós, tetravós e nossas memórias fracas!

Aposto que você também pensa que o pai do seu bisavô é o seu tataravô, não é? Quase todos pensam assim. Mas na verdade, tataravô e tataravó são formas vulgares de tetravô e tetravó (do grego: tetra, quatro), que na verdade são os pais de nossos trisavós.

Na ordem ascendente, temos então:

AVÔ/AVÓ = Pai/mãe dos nossos pais
BISAVÔ/BISAVÓ = Pai/mãe dos nossos avós
TRISAVÔ/TRISAVÓ = Pai/mãe dos nossos bisavós
TETRAVÔ/TETRAVÓ = Pai/mãe dos nossos trisavós (Também chamados de tataravós)

Eu tive a felicidade de conhecer a minha bisavó paterna, que me mostrou uma foto do meu trisavô (pai dela). Já os meus tetravós (ou tataravós, se preferir) nunca soube nem os nomes. Como nossa memória é falha, não?! Justamente por isso é que confundimos.

Nossa memória alcança no máximo nossos trisavós, mas dificilmente nossos tetravós. Por isso puxamos o carinhoso tataravô ("tatá" ou "papá" é uma das primeiras palavras que os bebezinhos costumam balbuciar para chamar o pai) para o ascendente mais distante que conseguimos lembrar, o nosso trisavô.

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Lugares-comuns

O lugar-comum, também chamado de chavão ou clichê, é a "ideia, frase, dito, sem originalidade; banalidade". (Houaiss) São construções ou combinações de palavras que se tornam desgastadas pela repetição excessiva e perdem a força original.

Devem ser evitadas a todo o custo nas redações, pois transmitem ao leitor uma ideia de texto superado, desgastado e sem imaginação.

Veja os tipos mais usuais de lugares-comuns:

1) As frases e locuções. Entre os chavões mais frequentes estão as locuções e combinações invariáveis de palavras (sempre as mesmas, na mesma ordem) que também comprometem o texto. Neste caso se enquadram ainda as frases feitas que, embora originárias da linguagem popular, acabam se repetindo à exaustão, produzindo o mesmo efeito de lugar-comum.

Eis os principais exemplos: fechar com chave de ouro, acertar os ponteiros, agradar a gregos e troianos, alto e bom som, ao apagar das luzes, a sete chaves, a toque de caixa, chegar a um denominador comum, chover no molhado, coroado de êxito, dar com os burros n'água, de mão beijada, depois de um longo e tenebroso inverno, de vento em popa, dispensa apresentações, divisor de águas, em ponto de bala, em sã consciência, faca de dois gumes, fazer das tripas coração, jogar a pá de cal, página virada, parece que foi ontem etc.

2) As duplas. Existem substantivos e adjetivos que andam sempre aos pares, formando lugares-comuns facilmente evitáveis.

Veja alguns deles: agradável surpresa, calor escaldante, calorosa recepção, carreira meteórica, cartada decisiva, corpo escultural, crítica construtiva, ente querido, inflação galopante, lance duvidoso, mera coincidência, obra faraônica, perda irreparável, semblante carregado, singela homenagem etc.

3) As imagens. As pessoas, cidades ou coisas têm nomes. Criar imagens, apelidos ou definições que os substituam só contribuem para a disseminação de mais lugares-comuns. Evite usá-los.

Prefira a palavra correspondente que está entre parênteses: Galinho de Quntino (Zico), cidade maravilhosa (Rio de Janeiro), enlace matrimonial (casamento), tapete verde (gramado), profissional do volante (motorista) etc.

4) As ideias. Não são apenas as palavras, frases, construções ou duplas que se reproduzem ao infinito nos textos, mas também as ideias ou formas de se abrir um texto ou entrar num assunto. A seguir, algumas dessas fórmulas prontas que aparecem com frequência em textos publicados:

- a oposição "sonho versus pesadelo". Exemplos: "O sonho da casa própria virou pesadelo"; "Sonho do carro novo virou pesadelo nos consórcios".

- "não poderia imaginar..." Exemplos: "Quando fez faculdade, Maria não poderia imaginar que..."; "Quando recorreu da sentença, ele não poderia imaginar que..." etc.

- "também é cultura". Exemplos: "Esporte também é cultura"; "Quadrinho também é cultura"; "Assistir TV também é cultura" etc.

Então, para que seu texto se torne mais original, fuja desses lugares-comuns como o diabo foge da cruz.
Ops!
Errar é humano.
Ops de novo!

Ita est!
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AS QUALIDADES DE UM BOM TEXTO

Depois de tudo o que vimos durante 2009 sobre a elaboração de textos, vou reunir aqui algumas qualidades de um bom texto.

1) O TEXTO DEVE SER CRIATIVO

Ao escrevermos um texto, devemos apresentar ideias originais, novas, diferentes. Como? Não é fácil ser criativo, não há uma receita de criatividade. Procure seguir seus instintos. No começo é normal imitarmos alguns estilos que admiramos, mas procure desenvolver o seu estilo, usando sua inventividade, inteligência e talento para criar, inventar e inovar.
Lembre-se de que a página em branco não pode ser melhorada. Assim, faça um rascunho e procure melhorá-lo.

2) O TEXTO DEVE SER CLARO

É muito importante também que se escreva de forma clara. Para alcançar esse objetivo, é recomendável escrever períodos curtos e usar um novo parágrafo cada vez que expressar uma nova ideia.

3) O TEXTO DEVE SER CORRETO

O autor do texto deve escrevê-lo dentro das normas gramaticais, respeitando a morfossintaxe e a regência. É também importante grafar e acentuar corretamente as palavras. Para tanto, é necessário conhecer as regras gramaticais e reler com atenção a redação antes de entregá-la.

4) O TEXTO DEVE SER LÓGICO

O escritor russo Tchekov afirmava que se em um conto aparece um espingarda alguém deve dispará-la antes que o conto termine. Tudo o que aparece deve ter sentido, deve funcionar. Desta forma, o texto deve apresentar uma unidade de composição, isto é, tratar do mesmo tema do princípio ao fim.

Ita est!
Prof. Zanon

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

"DÚVIDA" - Um dos melhores filmes de 2009


Acusar sem provas, tratar indícios como se fossem evidências, desgraçar a vida de uma pessoa baseando-se em meras conjecturas, deixar-se manipular por superiores e depois sofrer dores de consciência...

O filme "Dúvida" trata de tudo isso e mais: trata da intolerância, da desconfiança improvável, do apego às tradições, a rigidez de pessoas condicionadas que vivem no passado e temem as liberdades do futuro.

Meryl Streep interpreta uma freira rígida que dirige uma escola católica conservadora. Ao longo do filme ela começa a desconfiar do padre da paróquia e cria um círculo de acusações que em momento algum do filme podem ser provadas. Tudo fica no ar para o espectador interpretar da forma que quiser.

Sem nenhuma prova ou evidência, exceto sua certeza moral, a irmã Aloysius trava uma batalha de determinação com o padre Flynn, uma batalha que ameaça dividir a Igreja e a escola com consequências devastadoras.

O filme não é feito para emocionar e sim refletir sobre os valores da rigidez, tradições e manias de instituições que dominam a sociedade mantendo-a sobre o domínio do medo, medo de errar, medo de não ser aceito, medo de mudar, medo de fugir, medo de falar o que sentimos, entre outras "moléstias" psíquicas das quais sofre o ser humano devido a ignorância de seus contemporâneos.

A tendência do ser humano é julgar o certo e o errado sem pensar em todos as variáveis que permeiam uma situação. Julgar é mais fácil do que entender, e condenar é mais simples ainda, mesmo que suas conjecturas não sejam verdade.

Neste filme o espectador é a freira mais jovem que desenvolve um conflito interno sobre o que é certo e o que é errado, ou seja, todas as coisas têm uma razão para acontecer, sejam elas certas ou erradas, e cabe a nós irmos fundo na verdade compreendendo os fatores que funcionaram como estopim das situações.

Uma das melhores produções cinematográficas de 2009. Eu recomendo.

Ita est!
Prof. Zanon



"Cair geada" ou "formar geada"?

A geada não cai, embora alguns dicionários usem o termo neste sentido. Ela é produto da condensação das gotas de orvalho nas superfícies onde cai.

Portanto, quando tiver que se referir a esse fenômeno por escrito, prefira as expressões "formar-se geada" ou simplesmente "gear".

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Prof. Zanon

"Mais grande" ou "mais pequeno"?

É certo dizer "mais grande" ou "mais pequeno"?

É certo somente quando nos referimos a duas qualidades de um mesmo ser.

Exemplos:

"Esta casa é mais grande do que confortável".

"O quarto era mais pequeno do que acolhedor".

Fora esses casos, usamos exclusivamente as formas "maior" e "menor".

Exemplos:

"Esta casa é maior do que aquele apartamento".

"O quarto era menor do que a sala".

E pelo amor de Deus, não digam "mais maior" nem "mais menor"; é só "maior" ou "menor".

Ita est!
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Arbitrariedades na Gramática Normativa

De acordo com o dicionário eletrônico Houaiss, arbitrário é aquilo "que não segue regras ou normas; que não tem fundamento lógico; que apenas depende da vontade ou arbítrio daquele que age".

Arbitrário é aquilo que depende apenas da vontade ou arbítrio daquele que age, ou daqueles que mandam, daquele (s) que decidem algo para que outros obedeçam.

Tudo que é comunitário é arbitrário. Ensinos religiosos, estatutos de clubes, regras de condomínio, estatutos de empresas etc. são arbitrários. Quando algo que afetará a vida de muitas pessoas de um grupo precisa ser decidido, geralmente uma pequena minoria, ou uma diretoria representativa tomará as decisões que se tornarão lei para a maioria; ou mesmo que se reúnam todas as pessoas do grupo e decidam juntos (como é o caso dos condomínios residenciais), uma vez convencionado, será imposto aos novos membros que vierem a fazer parte daquele grupo.

A língua é comunitária. Por isso a língua é arbitrária.

De acordo com a Linguística, há uma ausência de relação analógica entre o significante (forma) e o significado (conteúdo) no signo linguístico. Por exemplo, o mesmo animal é chamado de cachorro em português, de dog em inglês, de chien em francês etc.

À guisa de exemplo, vamos analisar a inconsistência do gênero gramatical.

A distinção do gênero nos substantivos não tem fundamentos racionais. O que manda é a tradição fixada pelo uso e pela norma convencionada por uma minoria elitista. Nada justifica que em português as palavras lápis, papel e tinteiro sejam masculinas e caneta, folha e tinta sejam femininas.

A inconsistência do gênero gramatical fica patente quando comparamos a distribuição de gêneros em duas ou mais línguas, ou no âmbito de uma mesma língua histórica na sua diversidade temporal, regional, social e estilística. Por exemplo, para nós, que falamos o português, o sol é masculino, para os alemães, é feminino (die Sonne); a lua é feminino para nós, para eles é masculino (der Mond). Enquanto o português mulher é feminino, em alemão é neutro (das Weib). Sal e leite são masculinos em português e femininos em espanhol: la sal e la leche. Sangue é masculino em português (o sangue) e francês (le sang), mas feminino em espanhol (la sangre).

Ocorrem também mudanças de gênero nos substantivos por vários fatores: a influência da terminação, o contexto léxico em que a palavra funciona, aproximação semântica entre palavras (sinônimos, antônimos) etc. Do português antigo ao contemporâneo , muitos substantivos passaram a ter gêneros diferentes, alguns sem deixar vestígios. Já foram femininos fim, planeta, cometa, mapa, tigre, fantasma, entre muitos outros; já foram usados como masculinos: árvore, tribo, catástrofe, hipérbole, linguagem e linhagem.

Ao falante só resta a submissão. Temos que fazer uso da língua como ela foi convencionada e imposta a nós, sem nos estressarmos com suas arbitrariedades.

Ita est!
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Matérias mais antigas:

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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.