domingo, 28 de fevereiro de 2010

Ortografia

A palavra Ortografia é formada por dois elementos de origem grega (ORTO + GRAFIA), significando ação de escrever direito. Não é muito fácil escrever direito, pois as regras são determinadas arbitrariamente. Leva tempo conhecer todas as regras de ortografia a fim de escrever com o mínimo de erros ortográficos, mas com tempo e esforço direcionado, conseguiremos. Tente memorizar aos poucos, uma regra de cada vez.

Para começarmos, seguem algumas frases com as respectivas regras sobre o uso do "ç":

1) Usa-se ç em palavras derivadas de vocábulos terminados em TO:
intento = intenção
canto = canção
exceto = exceção
junto = junção

2) Usa-se ç em palavras terminadas em TENÇÃO referentes a verbos derivados de TER:
deter = detenção
reter = retenção
conter = contenção
manter = manutenção

3) Usa-se ç em palavras derivadas de vocábulos terminados em TOR:
infrator = infração
trator = tração
redator = redação
setor = seção

4) Usa-se ç em palavras derivadas de vocábulos terminados em TIVO:
introspectivo = introspecção
relativo = relação
ativo = ação
intuitivo – intuição

5) Usa-se ç em palavras derivadas de verbos dos quais se retira a desinência R:
reeducar = reeducação
importar = importação
repartir = repartição
fundir = fundição

6) Usa-se ç após ditongo quando houver som de s:
eleição
traição

Ita est!
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Plural de compostos


Nos compostos em que existe a preposição "de", essa preposição impede que o "s" passe através dela. Potanto, devemos pluralizar até o "de". Após o "de" fica tudo no singular.


Exemplos:

o chapéu-de-cobra > os chapéus-de-cobra



o pé de moleque > os pés de moleque



o pôr do sol > os pores do sol



Ita est!

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domingo, 21 de fevereiro de 2010

A SAUDADE DAS FOLHAS

Sobre o meu banco ancião, junto às árvores tortas,
venho sofrer o outono da alameda.
Há um ranger enervante e bom de folhas mortas
na paisagem finíssima de seda.

E estende-se a meus pés a tristeza de tudo
que fui, que foste, do que sou, do que és...
E as árvores também têm, no chão de veludo,
a saudade das folhas a seus pés...

Guilherme de Almeida





Dicas para interpretação do poema:

1-) O uso dos verbos "venho", "fui" e "sou", e dos possessivos "meu" e "meus" apontam a presença da primeira pessoa verbal. Isto dá ao poema um tom confidencial.

2-) Aos pés das árvores, estendem-se folhas, aos do poeta, a tristeza. Associando-se os dois versos, pode-se dizer que as folhas mortas se identificam aos lamentos do poeta pelo que ficou no passado. Há identidade afetiva entre poeta e natureza.

3-) O poema parece pré-modernista, que tem como característica forte o gosto pelo outono e pelas horas transitórias e melancólicas. Mas na verdade é modernista, por sua linguagem clara e pela simplicidade do tom e do tema, valorizando algo comum e banal: a saudade que todos podemos sentir.

Ita est!
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Ambiguidade, Cacofonia, Eco, Hiato, Colisão

Ambiguidade ocorre quando, por falta de clareza, há duplicidade de sentido da frase. A ambiguidade é um fenômeno muito frequente, mas, na maioria dos casos, os contextos linguístico e situacional indicam qual a interpretação correta; estilisticamente, é indesejável em texto científico ou informativo, mas é muito usada na linguagem poética e no humorismo.

Exemplos:

Maria disse à amiga que seu namorado havia chegado. (O namorado é de Maria ou da amiga?)
O homem falou com o amigo caído no chão. (Quem estava caído no chão? O homem ou o amigo?)

Cacofonia ocorre quando a junção de duas ou mais palavras na frase provoca som feio ou desagradável; união não harmônica de sons diversos.

Exemplos:

Eva e Adão. (éviadão)

Uma mão lava outra. (mamão)

Vi ela na esquina. (viela)

Dei um beijo na boca dela. (cadela)


Eco ocorre quando há palavras na frase com terminações iguais ou semelhantes, provocando dissonância.

Por Exemplo:

A divulgação da promoção não causou comoção na população.

Não dão explicação para a demissão do João.

Hiato ocorre quando há uma sequência de vogais, provocando dissonância.

Exemplos:

Eu a amo.
Ou eu ou a outra ganhará o concurso.

Colisão ocorre quando há repetição de consoantes iguais ou semelhantes, provocando efeito acústico desagradável.

Por Exemplo:

Sua saia sujou.

Nunca comi miolos.

Esse não era o chá que queria.


É sempre bom evitar esses vícios de linguagem, pois desviam a atenção da mensagem do nosso texto ou do nosso discurso.

Ita est!

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Consciência

"Only the subject's individual consciousness can testify for the unwitnessed acts, and there is no act more deprived of external testimony than the act of knowing."

"Somente a consciência individual do agente dá testemunho dos atos sem testemunha, e não há ato mais desprovido de testemunha externa do que o ato de conhecer."

Olavo de Carvalho

domingo, 14 de fevereiro de 2010

"O nome da Rosa"...

"Comentários geram comentários, e explicações dão novos motivos para explicações. [... ] Não ocorre com frequência que um homem de capacidade comum entende muito bem um texto ou uma lei que ele lê até que vá consultar um comentarista ou procure conselheiros, os quais, quando tiverem terminado de lhe explicar, fazem as palavras não significar coisa alguma ou significar o que ele desejar?

(...) Hás de concordar comigo, creio, que não existe coisa alguma em que os homens mais se enganam e desencaminham outros do que na leitura e escrita de livros, [mas] não discutirei se os escritores desencaminham os leitores ou vice-versa: pois parecem ambos dispostos a enganar e ser enganados." (sic)

John Locke, in 'Ensaio Sobre o Entendimento Humano' e 'Memorando enviado a John Freke'

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Como se deve ler o "à"

Quando estamos fazendo uma leitura pública e nos deparamos com um "à" (letra a com indicação de crase), como devemos lê-lo?

Alguns leitores acham bonito, chique até, ler esta letra como se não tivesse ocorrido a crase, ou seja, como se ali estivessem grafadas duas vogais: "Fui a a cidade", "Fui a a Copacabana de minha infância", "Irei a a casa paterna".

A palavra crase significa fusão, e quando a letra "a" está com o acento grave (`) é uma indicação para que o leitor saiba que ali ocorreu uma fusão com a letra "a" (preposição) e a letra "a" (artigo). Se ocorreu uma fusão, significa que os dois "as" se fundiram em um só, e portanto devem ser pronunciados como um só: "Fui à cidade", "Fui à Copacabana de minha infância", "Irei à casa paterna".

Assim dita a gramática normativa: "[...] não se alonga o à, "salvo, muito excepcionalmente, se houver necessidade imperativa, para a inteligência da frase, caso em que o resultante da crase poderá ser pronunciado com certa tonicidade e ênfase" (Normas, 481)." BECHARA, 2009, p. 76

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BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 37ª ed. rev. ampl. e atual. conforme o novo acordo ortográfico. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

As significações "escondidas" no poema

Quando lemos um poema percebemos de imediato sua beleza. Mas é preciso ler o poema várias vezes, e de maneiras diferentes, para descobrirmos suas diversas significações. À guisa de exemplo, vamos analisar o belíssimo poema "Canção Mínima", da poetisa Cecília Meireles.


CANÇÃO MÍNIMA

No Mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.

E no planeta, um jardim;
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro.

entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles



Que significados poderíamos extrair dessas palavras tão belas? Vejamos: Note que o "planeta", mencionado no início do poema, está personificado, como se fosse um ginasta que se equilibra no "Mistério do Sem-Fim". Este estranho lugar onde o "planeta" se equilibra poderia ser talvez a posição geográfica do planeta Terra no sistema solar, dentro do universo infinito e misterioso da astronomia; ou quem sabe os mistérios que ainda persistem neste mundo onde os seres humanos e a natureza buscam um convívio harmônico.

Na segunda estrofe percebemos uma série de elementos naturais numa gradação semelhante à aproximação de uma câmera filmadora. O espaço vai facando cada vez mais próximo e reduzido: planeta > jardim > canteiro > violeta. A gradativa diminuição do espaço, na estrofe do meio, contrasta com o infinito sugerido nas outras duas estrofes. No sexto verso, aparece um elemento indicador de tempo: "o dia inteiro", ou seja, permanentemente, sem cessar. Percebemos então que o infinito espacial coincide com o infinito temporal, pois tanto o tempo como o espaço são "sem-fim".

Na terceira estrofe reaparece o infinito, espaço imaginário "entre o planeta e o Sem-Fim" onde se equilibra "a asa de uma borboleta". A asa da borboleta do verso final sugere diversas significações: fragilidade, colorido, beleza, fertilidade (através do pólen das flores que as borboletas transportam), transformação (metamorfose lagarta > borboleta). Como a borboleta se equlibra entre o planeta e o Sem-Fim, é ela o elemento de ligação entre o espaço graduado (planeta > jardim > canteiro > violeta) e o espaço infinito (sem-fim).

Conclusão

O poema "Canção Mínima" propõe um universo em equilíbrio onde o espaço conhecido do homem (estrofe do meio) está cercado pelo mistério do infinito (primeira e última estrofes). Como anuncia o título, o poema é mínimo: apenas oito versos (oito linhas). Apesar de mínima, a canção consegue propor uma visão de mundo: o ser humano vive em meio a um universo cujos mistérios ele não domina, mas cuja beleza e harmonia ele consegue perceber.

Ita est!
Prof. Zanon

Referência:
GOLDSTEIN, Norma. Análise do Poema. São Paulo: Ática, 1988.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Palíndromos!

Palíndromo é a frase ou palavra que mantém o mesmo sentido quando lida de trás pra frente. A princípio uma lista de palíndromos pode parecer cultura inútil, mas a verdade é que os palíndromos são expressões muito utilizadas na literatura, ampliando as conotações das palavras. Alguns exemplos de palíndromos:

"Ame o poema"

"A torre da derrota"

"Livre do poder vil"



Um famoso palíndromo bidimensional, também conhecido como fórmula Sator, é uma inscrição latina que foi encontrada nas ruínas de Herculano e Pompeia. Este quadro é considerado um palíndromo perfeito, pois é absolutamente simétrico podendo ser lido de quatro maneiras: da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, de cima para baixo e de baixo para cima.




Sua tradução é disputada, tendo as palavras latinas os seguintes significados:

"SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS"

Sator – semeador
Arepo – nome próprio
Tenet – ele segura
Opera – trabalha, esforça, cuida
Rotas – rodas

Três das alternativas propostas são:

- "O semeador Arepo conduz cuidadosamente o arado" (se tomarmos Arepo como como nome próprio),

- “O lavrador diligente conhece a rota do arado";

- "O criador mantém o mundo em sua órbita" (interpretação figurada).

Alguns associam o Quadrado de Sator ao cristianismo, à numerologia e à magia (é provável que Dan Brown seja um destes, que vê mensagem subliminar em tudo), mas pelo bem da sanidade pública, prefiro ressaltar o palíndromo apenas pela sua curiosidade linguística.

Ita est!

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim

Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo?

O leitor que responder “não sei” a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Alias, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão.

Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a língua.

Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma “página de bom vernáculo, exemplar”. Tive vontade de responder: “Mera coincidência” — mas não o fiz para não entristecer o homem.

Espero que uma velhice tranquila – no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios — me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado contra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eu poderia me queixar se o seu marido me descesse a mão?).

Alguém já me escreveu também — que eu sou um escoteiro ao contrário. “Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação — contra a língua”. Mas acho que isso é exagero.

Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinquenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo — e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive essa intenção.

Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a bondade de não me cumprimentar.

Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? Por que fazer do estudo da língua portuguesa uma série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para “pegar” as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri — e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do expediente matando palavras cruzadas da “Última Hora” ou lendo o horóscopo e as histórias em quadrinhos de “O Globo?”.

No fundo o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, mas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros.

Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo do póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente — de Cachoeiro de Itapemirim!


Rubem Braga


Texto extraído do livro "Ai de Ti, Copacabana", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 197.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

AULA DE PORTUGUÊS

Carlos Drummond de Andrade

1) A linguagem
2) na ponta da língua,
3) tão fácil de falar
4) e de entender.

5) A linguagem
6) na superfície estrelada de letras,
7) sabe lá o que ela quer dizer?

8) Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
9) e vai desmatando
10) o amazonas de minha ignorância.
11) Figuras de gramática, esquipáticas,
12) atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

13) Já esqueci a língua em que comia,
14) em que pedia para ir lá fora,
15) em que levava e dava pontapé,
16) a língua, breve língua entrecortada
17) do namoro com a prima.

18) O português são dois; o outro, mistério.


Esse interessantíssimo poema de Drummond aborda o tema da diferença entre a língua falada com tranquilidade pelos alunos e a língua escrita e normatizada ensinada nas escolas. O poeta dá testemunho de sua perturbação diante do "mistério" da língua escrita. Note como fica sugerido o confronto entre o universo solto da vida comum e o mundo do saber representado pela escola.

Verso 6 - Quando ele diz "na superfície estrelada das letras" está sugerindo o mistério das letras, ao mesmo tempo que a valoriza.

Verso 8 - Carlos Góis é autor de uma gramática da língua portuguesa.

Verso 10 - A expressão "amazonas de minha ignorância" é utilizada para exprimir a dimensão exagerada de seu desconhecimento.

Verso 11 - "Esquipáticas" - Esquisitas + antipáticas.

Verso 12 - Observe a sequência formada pelos verbos "atropelar", "aturdir" e sequestrar, que expressam o pânico que o aluno sente diante de tantos mistérios da língua escrita.

Versos 13-17 - As ações enumeradas pelo poeta revelam a facilidade de utilizar a língua como meio de comunicação do dia a dia.

Verso 18 - O verso final comprova a dúvida confessada nos versos 5, 6 e 7.


Ita est!

Prof. Zanon


O que se foi

O que se foi se foi.

Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.
Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-se simplesmente
ser real.
Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.
Então por que me faz
o coração bater tão forte?

Ferreira Gullar

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Minha foto
Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.