terça-feira, 29 de junho de 2010

Máximas sobre "covardia moral"

"Pois Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio". - Bíblia Sagrada (2 Timóteo 1:7)


"O cão late quando seu dono é atacado. Eu seria um covarde se visse a verdade divina ser atacada e continuasse em silêncio, sem dizer nada". - João Calvino


"Não posso suportar a covardia. Recuso-me a fazer do meu Deus e Salvador uma ficção". - C. T. Studd


"Há ocasiões em que o silêncio é ouro, mas há outros em que é pura covardia". - J. Blanchard

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Siglonimização?

Você sabe o que é SIGLONIMIZAÇÃO?

Essa palavra dá nome ao processo de formação de siglas. As siglas são formadas pela combinação das letras iniciais de uma sequência de palavras que constitui um nome. Alguns exemplos:

FGTS - Fundo de Garantia do Tempo de Serviço
SA - Sociedade Anônima
ONU - Organização das Nações Unidas
EUA - Estados Unidos da América
IOF - Imposto sobre Operações Financeiras
CPF - Cadastro de Pessoas Físicas
PIB - Produto Interno Bruto

As siglas incorporam-se de tal modo ao nosso vocabulário que passam a sofrer flexões e a produzir derivados. Quem já não ouviu falar dos
peemedebistas (membros do PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro), ou dos petistas (membros do PT - Partido dos Trabalhadores), ou de campanhas pró-FGTS etc.?

Algumas siglas muito comuns no nosso dia a dia provieram de outras línguas.

Por exemplo:

VIP - Very Important Person (pessoa muito importante);
AIDS - Acquired Immunological Deficiency Syndrome (síndrome da imunodeficiência adquirida). Em Portugal, a sigla equivalente para AIDS é SIDA, abreviação formada do nome português da doença, pois os portugueses não admitem estrangeirismos em seu idioma.

Algumas siglas perderam completamente o status de sigla e passaram a ser conhecidas como verdadeiras palavras. Só mesmo pesquisando sua origem para descobrirmos que se tratam de siglas.

Exemplos:

JIPE - Adaptação do inglês Jeep, que por sua vez originou-se de GP - General Purpose (uso geral);
LASER - Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation (amplificação da luz por emissão estimulada de radiação);
RADAR - Radio Detecting and Ranging (detecção e busca por rádio).

Aposto que você não sabia que estas palavras eram na realidade siglas, ou sabia?


Ita est!
Prof. Zanon

terça-feira, 22 de junho de 2010

O cabo é dos nossos!


Um conto do professor Sandro Zanon

A notícia explodiu como uma granada, repentina e devastadora. Nenhuma árvore da floresta esperava por ela.

Embora seja bastante comum árvores serem derrubadas todos os dias por motivos diversos e para os mais variados fins, há algum tempo reinava uma calmaria na floresta EIGHT OAK. As temidas motoserras não apareciam em EIGHT OAK há pelo menos uns sete anos.

As árvores já não lembravam mais de seus barulhos ensurdecedores, de suas lâminas implacáveis e do forte odor de óleo que anunciavam sua presença de longe.

Não havia diálogo entre as motoserras e as árvores, pois as motoserras não falam a língua das árvores. Quando elas chegavam, as árvores se submetiam quietamente ao inevitável. Eram derrubadas sem dó nem piedade. As motoserras não sentiam remorso também. Faziam o serviço rapidamente e iam embora. Não se importavam se ao derrubar um carvalho centenário causassem efeitos colaterais à floresta, o que geralmente acontecia na maioria dos casos, pois o velho carvalho levava para o chão, junto consigo, inúmeros cipós, trepadeiras, musgos, árvores menores e frágeis; sem falar nos pássaros e outros animaizinhos que ele sustentava em seus fortes galhos.

Depois que as motoserras faziam o seu trabalho, passavam-se décadas até que a floresta voltasse ao seu normal, e no lugar dos grandes carvalhos, arvorezinhas mirradas e sem viço tentavam brotar, mas por mais que se empenhassem, não alcançavam a majestade das que foram derrubadas.

Logo após o impacto da notícia surgiu um lampejo de esperança. No lugar das motoserras, um machado iria entrar em EIGHT OAK para fazer o serviço. Quando o machado entrou na floresta, as árvores se consolaram mutuamente dizendo: "O cabo é dos nossos! Não é possível que se esqueça de onde veio e do que é feito!"

Ledo engano! O pequeno machado, investido de uma força que até então não possuia, deixou-se manejar ferozmente. Orgulhosamente sentia-se como o MJOLNIR nas mãos do Deus do Trovão. O alvo de sua lâmina afiada era um carvalho considerado ainda jovem, com apenas catorze anos de vida, mas com a altura e a circunferência dos majestosos carvalhos americanos. O pequeno machado investiu furiosamente uma, duas, três, dez e muitas vezes dez, mas o jovem carvalho resistiu.

Todos os pássaros que se sentiam seguros em seus galhos voaram de lá, todos os animaizinhos que buscavam proteção nele desapareceram. Até as formigas que sugavam sua seiva e os carunchos que se escondiam em suas cascas grossas foram embora.

Diante da resignação do jovem carvalho as forças que impulsionavam o pequeno machado desistiram, e ele, como não tinha autonomia, afastou-se de sua gênese.

O jovem carvalho ficou terrivelmente mutilado, mas permaneceu de pé. A seiva escorria abundantemente de seu tronco machucado. As outras árvores ficaram inconformadas pela traição do cabo do machado. Como ele pode deixar-se manipular assim, e ser levado a cometer tamanha traição?

Mas o jovem carvalho, depois que suas feridas cicatrizaram, perdoou o pequeno machado. Ele entendeu a sua heteronomia e aprendeu a lição: "Timeo hominem unius libri".

Felix qui potuit rerum cognocere causas!

domingo, 20 de junho de 2010

Como ler os numerais


Uma dúvida muito comum. Você está fazendo uma leitura pública e de repente se depara com a frase: "O capítulo 10 do livro discorre sobre...".

Como devemos ler esse "10"? É
capítulo dez ou capítulo décimo?

Ou então você encontra a frase: "O papa Paulo VI disse que...". Lemos
Paulo seis ou Paulo sexto?

A regra é: sempre que o numeral vier depois do substantivo, emprega-se a forma ordinal até décimo. Daí em diante, usa-se a forma cardinal.

Exemplos:

· Pedro II (segundo)
· Paulo VI (sexto)
· Capítulo X (décimo)
· Luís XIV (catorze)
· Século XXI (vinte e um)

Se o numeral anteceder o substantivo, usa-se a forma ordinal:

· Oitava parte
· Décimo capítulo
· Décimo quarto volume
· Vigésimo primeiro século
· 35.º Distrito (trigésimo quinto)

Ita est!
Prof. Zanon

"Lágrimas e cravos vermelhos"

Nos últimos dias, um inimigo entrou em nosso meio e levou embora duas mentes brilhantes, que nos ajudaram a entender melhor o mundo e o ser humano.

Wilson Bueno, escritor paranaense, morava aqui em Curitiba, e foi assassinado em sua casa. Era considerado um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos.

Bueno foi o criador e editor, durante oito anos, do jornal literário Nicolau, considerado o Melhor Jornal Cultural do Brasil pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), em 1987.

Sua obra mais conhecida, que integra antologias nacionais e internacionais, é "Mar paraguayo", de 1992, escrito em "portunhol", uma mistura de espanhol, português e guarani. Eu gostava especialmente do romance Cristal, lançado em 1995.

O escritor tinha entregue ainda um original, ainda inédito, chamado "Mano, a noite está velha", ainda sem data para publicação.


Wilson Bueno

Outra perda dolorosa para nós, apaixonados por literatura, foi a morte de José de Sousa Saramago, escritor, argumentista, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português.

Saramago foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1998 e com o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário da língua portuguesa. O escritor português foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.

Ensaio Sobre a Cegueira é considerado por muitos como sua obra prima, mas eu gostei especialmente de A caverna (2000), que disseca, através da história de pessoas comuns, o impacto destruidor da nova economia sobre as economias tradicionais e locais, e traça paralelos inclusive com o mito da caverna de Platão e a questão dos simulacros (assunto que me interessa sobremaneira).

José Saramago

Meirelles disse que "o mundo ficou mais burro e mais cego depois da morte de Saramago". Discordo respeitosamente dele. Acho que o mundo ficou menos burro e menos cego depois que Saramago compartilhou conosco suas reflexões sobre a vida e o ser humano.

"Como último inimigo, a morte há de ser reduzida a nada". (l Coríntios 15, 26)

Ita est!
Prof. Zanon


O carro chega a correr 120 km por hora; por ora...

Por ora equivale a "por agora" ou "por enquanto".

Por hora significa "em uma hora", "a cada sessenta minutos".

Desse modo, digo "Por ora, não quero saber disso = Por enquanto, não quero saber disso";

e "O carro chega a correr 120 km por hora = O carro chega a correr 120 km em uma hora"; por ora (por enquanto), pois se der uma envenenada no motor, ele pode correr mais.


Ita est!

Prof. Zanon



domingo, 13 de junho de 2010

Um clássico machadiano: A Sereníssima República

A Sereníssima República é um conto escrito pelo realista Machado de Assis. O tema nuclear do texto envolve a corrupção política e as diferentes distorções de uma teoria que, quando praticada, revela suas falhas. Através de uma metáfora reflexiva, Machado denuncia irregularidades políticas como resultado da apropriação das leis do estado. A Sereníssima República é um clássico de Machado de Assis e também da literatura brasileira. Segue abaixo o texto integral.

sábado, 12 de junho de 2010

A Sereníssima República


(Conferência do cônego Vargas)

Meus senhores,
Antes de comunicar-vos uma descoberta, que reputo de algum lustre para o nosso país, deixai que vos agradeça a prontidão com que acudisses ao meu chamado. Sei que um interesse superior vos trouxe aqui; mas não ignoro também, — e fora ingratidão ignorá-lo, — que um pouco de simpatia pessoal se mistura à vossa legítima curiosidade científica. Oxalá possa eu corresponder a ambas.

Minha descoberta não é recente; data do fim do ano de 1876. Não a divulguei então, — e, a não ser o Globo, interessante diário desta capital, não a divulgaria ainda agora, — por uma razão que achará fácil entrada no vosso espírito. Esta obra de que venho falar-vos, carece de retoques últimos, de verificações e experiências complementares. Mas o Globo noticiou que um sábio inglês descobriu a linguagem fônica dos insetos, e cita o estudo feito com as moscas. Escrevi logo para a Europa e aguardo as respostas com ansiedade. Sendo certo, porém, que pela navegação aérea, invento do padre Bartolomeu, é glorificado o nome estrangeiro, enquanto o do nosso patrício mal se pode dizer lembrado dos seus naturais, determinei evitar a sorte do insigne Voador, vindo a esta tribuna, proclamar alto e bom som, à face do universo, que muito antes daquele sábio, e fora das ilhas britânicas, um modesto naturalista descobriu coisa idêntica, e fez com ela obra superior.

Senhores, vou assombrar-vos, como teria assombrado a Aristóteles, se lhe perguntasse: Credes que se possa dar um regime social às aranhas? Aristóteles responderia negativamente, com vós todos, porque é impossível crer que jamais se chegasse a organizar socialmente esse articulado arisco, solitário, apenas disposto ao trabalho, e dificilmente ao amor. Pois bem, esse impossível fi-lo eu.

Ouço um riso, no meio do sussurro de curiosidade. Senhores, cumpre vencer os preconceitos. A aranha parece-vos inferior, justamente porque não a conheceis. Amais o cão, prezais o gato e a galinha, e não advertis que a aranha não pula nem ladra como o cão, não mia como o gato, não cacareja como a galinha, não zune nem morde como o mosquito, não nos leva o sangue e o sono como a pulga. Todos esses bichos são o modelo acabado da vadiação e do parasitismo. A mesma formiga, tão gabada por certas qualidades boas, dá no nosso açúcar e nas nossas plantações, e funda a sua propriedade roubando a alheia. A aranha, senhores, não nos aflige nem defrauda; apanha as moscas, nossas inimigas, fia, tece, trabalha e morre. Que melhor exemplo de paciência, de ordem, de previsão, de respeito e de humanidade? Quanto aos seus talentos, não há duas opiniões. Desde Plínio até Darwin, os naturalistas do mundo inteiro formam um só coro de admiração em torno desse bichinho, cuja maravilhosa teia a vassoura inconsciente do vosso criado destrói em menos de um minuto. Eu repetiria agora esses juízos, se me sobrasse tempo; a matéria, porém, excede o prazo, sou constrangido a abreviá-la. Tenho-os aqui, não todos, mas quase todos; tenho, entre eles, esta excelente monografia de Büchner, que com tanta subtileza estudou a vida psíquica dos animais. Citando Darwin e Büchner, é claro que me restrinjo à homenagem cabida a dois sábios de primeira ordem, sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o proclamam) as teorias gratuitas e errôneas do materialismo.

Sim, senhores, descobri uma espécie araneida que dispõe do uso da fala; coligi alguns, depois muitos dos novos articulados, e organizei-os socialmente. O primeiro exemplar dessa aranha maravilhosa apareceu-me no dia 15 de dezembro de 1876. Era tão vasta, tão colorida, dorso rubro, com listras azuis, transversais, tão rápida nos movimentos, e às vezes tão alegre, que de todo me cativou a atenção. No dia seguinte vieram mais três, e as quatro tomaram posse de um recanto de minha chácara. Estudei-as longamente; achei-as admiráveis. Nada, porém, se pode comparar ao pasmo que me causou a descoberta do idioma araneida, uma língua, senhores, nada menos que uma língua rica e variada, com a sua estrutura sintáxica, os seus verbos, conjugações, declinações, casos latinos e formas onomatopaicas, uma língua que estou gramaticando para uso das academias, como o fiz sumariamente para meu próprio uso. E fi-lo, notai bem, vencendo dificuldades aspérrimas com uma paciência extraordinária. Vinte vezes desanimei; mas o amor da ciência dava-me forças para arremeter a um trabalho que, hoje declaro, não chegaria a ser feito duas vezes na vida do mesmo homem.

Guardo para outro recinto a descrição técnica do meu arácnide, e a análise da língua. O objeto desta conferência é, como disse, ressalvar os direitos da ciência brasileira, por meio de um protesto em tempo; e, isto feito, dizer-vos a parte em que reputo a minha obra superior à do sábio de Inglaterra. Devo demonstrá-lo, e para este ponto chamo a vossa atenção.

Dentro de um mês tinha comigo vinte aranhas; no mês seguinte cinqüenta e cinco; em março de 1877 contava quatrocentas e noventa. Duas forças serviram principalmente à empresa de as congregar: — o emprego da língua delas, desde que pude discerni-la um pouco, e o sentimento de terror que lhes infundi. A minha estatura, as vestes talares, o uso do mesmo idioma, fizeram-lhes crer que era eu o deus das aranhas, e desde então adoraram-me. E vede o benefício desta ilusão. Como as acompanhasse com muita atenção e miudeza, lançando em um livro as observações que fazia, cuidaram que o livro era o registro dos seus pecados, e fortaleceram-se ainda mais na prática das virtudes. A flauta também foi um grande auxiliar. Como sabeis, ou deveis saber, elas são doidas por música.

Não bastava associá-las; era preciso, dar-lhes um governo idôneo. Hesitei na escolha; muitos dos atuais pareciam-me bons, alguns excelentes, mas todos tinham contra si o existirem. Explico-me. Uma forma vigente de governo ficava exposta a comparações que poderiam amesquinhá-la. Era-me preciso, ou achar uma forma nova, ou restaurar alguma outra abandonada. Naturalmente adotei o segundo alvitre, e nada me pareceu mais acertado do que uma república, à maneira de Veneza, o mesmo molde, e até o mesmo epíteto. Obsoleto, sem nenhuma analogia, em suas feições gerais, com qualquer outro governo vivo, cabia-lhe ainda a vantagem de um mecanismo complicado, — o que era meter à prova as aptidões políticas da jovem sociedade.

Outro motivo determinou a minha escolha. Entre os diferentes modos eleitorais da antiga Veneza, figurava o do saco e bolas, iniciação dos filhos da nobreza no serviço do Estado. Metiam-se as bolas com os nomes dos candidatos no saco, e extraía-se anualmente um certo número, ficando os eleitos desde logo aptos para as carreiras públicas. Este sistema fará rir aos doutores do sufrágio; a mim não. Ele exclui os desvarios da paixão, os desazos da inépcia, o congresso da corrupção e da cobiça. Mas não foi só por isso que o aceitei; tratando-se de um povo tão exímio na fiação de suas teias, o uso do saco eleitoral era de fácil adaptação, quase uma planta indígena.

A proposta foi aceita. Sereníssima República pareceu-lhes um título magnífico, roçagante, expansivo, próprio a engrandecer a obra popular.

Não direi, senhores, que a obra chegou à perfeição, nem que lá chegue tão cedo. Os meus pupilos não são os solários de Campanela ou os utopistas de Morus; formam um povo recente, que não pode trepar de um salto ao cume das nações seculares. Nem o tempo é operário que ceda a outro a lima ou o alvião; ele fará mais e melhor do que as teorias do papel, válidas no papel e mancas na prática. O que posso afirmar-vos é que, não obstante as incertezas da idade, eles caminham, dispondo de algumas virtudes, que presumo essenciais à duração de um Estado. Uma delas, como já disse, é a perseverança, uma longa paciência de Penélope, segundo vou mostrar-vos.

Com efeito, desde que compreenderam que no ato eleitoral estava a base da vida pública, trataram de o exercer com a maior atenção. O fabrico do saco foi uma obra nacional. Era um saco de cinco polegadas de altura e três de largura, tecido com os melhores fios, obra sólida e espessa. Para compô-lo foram aclamadas dez damas principais, que receberam o título de mães da república, além de outros privilégios e foros. Uma obra-prima, podeis crê-lo. O processo eleitoral é simples. As bolas recebem os nomes dos candidatos, que provarem certas condições, e são escritas por um oficial público, denominado "das inscrições". No dia da eleição, as bolas são metidas no saco e tiradas pelo oficial das extrações, até perfazer o número dos elegendos. Isto que era um simples processo inicial na antiga Veneza, serve aqui ao provimento de todos os cargos.

A eleição fez-se a princípio com muita regularidade; mas, logo depois, um dos legisladores declarou que ela fora viciada, por terem entrado no saco duas bolas com o nome do mesmo candidato. A assembléia verificou a exatidão da denúncia, e decretou que o saco, até ali de três polegadas de largura, tivesse agora duas; limitando-se a capacidade do saco, restringia-se o espaço à fraude, era o mesmo que suprimi-la.

Aconteceu, porém, que na eleição seguinte, um candidato deixou de ser inscrito na competente bola, não se sabe se por descuido ou intenção do oficial público. Este declarou que não se lembrava de ter visto o ilustre candidato, mas acrescentou nobremente que não era impossível que ele lhe tivesse dado o nome; neste caso não houve exclusão, mas distração. A assembléia, diante de um fenômeno psicológico inelutável, como é a distração, não pôde castigar o oficial; mas, considerando que a estreiteza do saco podia dar lugar a exclusões odiosas, revogou a lei anterior e restaurou as três polegadas.

Nesse ínterim, senhores, faleceu o primeiro magistrado, e três cidadãos apresentaram-se candidatos ao posto, mas só dois importantes, Hazeroth e Magog, os próprios chefes do partido retilíneo e do partido curvilíneo. Devo explicar-vos estas denominações. Como eles são principalmente geômetras, é a geometria que os divide em política. Uns entendem que a aranha deve fazer as teias com fios retos, é o partido retilíneo; — outros pensam, ao contrário, que as teias devem ser trabalhadas com fios curvos, — é o partido curvilíneo. Há ainda um terceiro partido, misto e central, com este postulado: — as teias devem ser urdidas de fios retos e fios curvos; é o partido reto-curvilíneo; e finalmente, uma quarta divisão política, o partido anti-retocurvilíneo, que fez tábua rasa de todos os princípios litigantes, e propõe o uso de umas teias urdidas de ar, obra transparente e leve, em que não há linhas de espécie alguma. Como a geometria apenas poderia dividi-los, sem chegar a apaixoná-los, adotaram uma simbólica. Para uns, a linha reta exprime os bons sentimentos, a justiça, a probidade, a inteireza, a constância etc., ao passo que os sentimentos ruins ou inferiores, como a bajulação, a fraude, a deslealdade, a perfídia, são perfeitamente curvos. Os adversários respondem que não, que a linha curva é a da virtude e do saber, porque é a expressão da modéstia e da humildade; ao contrário, a ignorância, a presunção, a toleima, a parlapatice, são retas, duramente retas. O terceiro partido, menos anguloso, menos exclusivista, desbastou a exageração de uns e outros, combinou os contrastes, e proclamou a simultaneidade das linhas como a exata cópia do mundo físico e moral. O quarto limita-se a negar tudo.

Nem Hazeroth nem Magog foram eleitos. As suas bolas saíram do saco, é verdade, mas foram inutilizadas, a do primeiro por faltar a primeira letra do nome, a do segundo por lhe faltar a última. O nome restante e triunfante era o de um argentário ambicioso, político obscuro, que subiu logo à poltrona ducal, com espanto geral da república. Mas os vencidos não se contentaram de dormir sobre os louros do vencedor; requereram uma devassa. A devassa mostrou que o oficial das inscrições intencionalmente viciara a ortografia de seus nomes. O oficial confessou o defeito e a intenção; mas explicou-os dizendo que se tratava de uma simples elipse; delito, se o era, puramente literário. Não sendo possível perseguir ninguém por defeitos de ortografia ou figuras de retórica, pareceu acertado rever a lei. Nesse mesmo dia ficou decretado que o saco seria feito de um tecido de malhas, através das quais as bolas pudessem ser lidas pelo público, e, ipso facto, pelos mesmos candidatos, que assim teriam tempo de corrigir as inscrições.

Infelizmente, senhores, o comentário da lei é a eterna malícia. A mesma porta aberta à lealdade serviu à astúcia de um certo Nabiga, que se conchavou com o oficial das extrações, para haver um lugar na assembléia. A vaga era uma, os candidatos três; o oficial extraiu as bolas com os olhos no cúmplice, que só deixou de abanar negativamente a cabeça, quando a bola pegada foi a sua. Não era preciso mais para condenar a idéia das malhas. A assembléia, com exemplar paciência, restaurou o tecido espesso do regime anterior; mas, para evitar outras elipses, decretou a validação das bolas cuja inscrição estivesse incorreta, uma vez que cinco pessoas jurassem ser o nome inscrito o próprio nome do candidato.

Este novo estatuto deu lugar a um caso novo e imprevisto, como ides ver. Tratou-se de eleger um coletor de espórtulas, funcionário encarregado de cobrar as rendas públicas, sob a forma de espórtulas voluntárias. Eram candidatos, entre outros, um certo Caneca e um certo Nebraska. A bola extraída foi a de Nebraska. Estava errada, é certo, por lhe faltar a última letra; mas, cinco testemunhas juraram, nos termos da lei, que o eleito era o próprio e único Nebraska da república. Tudo parecia findo, quando o candidato Caneca requereu provar que a bola extraída não trazia o nome de Nebraska, mas o dele. O juiz de paz deferiu ao peticionário. Veio então um grande filólogo, — talvez o primeiro da república, além de bom metafísico, e não vulgar matemático, — o qual provou a coisa nestes termos:

— Em primeiro lugar, disse ele, deveis notar que não é fortuita a ausência da última letra do nome Nebraska. Por que motivo foi ele inscrito incompletamente? Não se pode dizer que por fadiga ou amor da brevidade, pois só falta a última letra, um simples a. Carência de espaço? Também não; vede: há ainda espaço para duas ou três sílabas. Logo, a falta é intencional, e a intenção não pode ser outra, senão chamar a atenção do leitor para a letra k, última escrita, desamparada, solteira, sem sentido. Ora, por um efeito mental, que nenhuma lei destruiu, a letra reproduz-se no cérebro de dois modos, a forma gráfica e a forma sônica: k e ca. O defeito, pois, no nome escrito, chamando os olhos para a letra final, incrusta desde logo no cérebro, esta primeira sílaba: Ca. Isto posto, o movimento natural do espírito é ler o nome todo; volta-se ao princípio, à inicial ne, do nome Nebrask. — Cané. — Resta a sílaba do meio, bras, cuja redução a esta outra sílaba ca, última do nome Caneca, é a coisa mais demonstrável do mundo. E, todavia, não a demonstrarei, visto faltar-vos o preparo necessário ao entendimento da significação espiritual ou filosófica da sílaba, suas origens e efeitos, fases, modificações, conseqüências lógicas e sintáxicas, dedutivas ou indutivas, simbólicas e outras. Mas, suposta a demonstração, aí fica a última prova, evidente, clara, da minha afirmação primeira pela anexação da sílaba ca às duas Cane, dando este nome Caneca.

A lei emendou-se, senhores, ficando abolida a faculdade da prova testemunhal e interpretativa dos textos, e introduzindo-se uma inovação, o corte simultâneo de meia polegada na altura e outra meia na largura do saco. Esta emenda não evitou um pequeno abuso na eleição dos alcaides, e o saco foi restituído às dimensões primitivas, dando-se-lhe, todavia, a forma triangular. Compreendeis que esta forma trazia consigo, uma conseqüência: ficavam muitas bolas no fundo. Daí a mudança para a forma cilíndrica; mais tarde deu-se-lhe o aspecto de uma ampulheta, cujo inconveniente se reconheceu ser igual ao triângulo, e então adotou-se a forma de um crescente etc. Muitos abusos, descuidos e lacunas tendem a desaparecer, e o restante terá igual destino, não inteiramente, decerto, pois a perfeição não é deste mundo, mas na medida e nos termos do conselho de um dos mais circunspectos cidadãos da minha república, Erasmus, cujo último discurso sinto não poder dar-vos integralmente. Encarregado de notificar a última resolução legislativa às dez damas incumbidas de urdir o saco eleitoral, Erasmus contou-lhes a fábula de Penélope, que fazia e desfazia a famosa teia, à espera do esposo Ulisses.

— Vós sois a Penélope da nossa república, disse ele ao terminar; tendes a mesma castidade, paciência e talentos. Refazei o saco, amigas minhas, refazei o saco, até que Ulisses, cansado de dar às pernas, venha tomar entre nós o lugar que lhe cabe. Ulisses é a Sapiência.


Machado de Assis
"Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é
A dor que já não me dói
A antiga e errônea fé
O ontem que a dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia."


Fernando Pessoa

domingo, 6 de junho de 2010

Máxima de Cervantes

"A liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida."

Miguel de Cervantes

Discurso de Steve Jobs para a turma de formandos de 2005 da Stanford

"Estou honrado por estar aqui com vocês na formatura de uma das melhores universidades do mundo. Verdade seja dita: eu nunca concluí a faculdade, e isso é o mais perto que eu já estive de uma formatura de faculdade!

Hoje, eu quero contar-lhes três histórias sobre minha vida. É isso, nada de especial, só três histórias.

A primeira história é sobre ligar os pontos.

Eu abandonei a faculdade depois do primeiro semestre, mas continuei frequentando informalmente por uns dezoito meses até sair definitivamente.

E por que eu saí?

Tudo começou antes mesmo de eu nascer. Minha mãe biológica era uma jovem não formada que decidiu colocar-me para adoção. Ela decidiu que eu deveria ser adotado por um casal com formação superior. Assim, tudo já estava arranjado para eu ser adotado quando nascesse, por um advogado e sua esposa. Mas quando eu nasci, eles decidiram de última hora que na verdade queriam uma menina.

Então outro casal, que estava na fila de espera, receberam uma ligação, no meio da noite, dizendo-lhes: "nós temos um menino inesperado, vocês o querem?" Eles disseram: "Mas é claro."

Minha mãe biológica descobriu depois que minha mãe adotiva não concluíra a Faculdade e que meu pai adotivo não concluíra o Ensino Médio. Por isso ela se negou a assinar os papéis definitivos para a adoção. Só mudou de ideia alguns meses depois quando meus pais adotivos prometeram que eu seria enviado para uma faculdade quando chegasse a hora.

Esse foi o começo da minha vida. E dezesete anos depois eu fui enviado a uma faculdade. Mas eu havia escolhido uma faculdade que era quase tão cara quanto
Stanford, e todas as economias de meus pais seriam gastas na minha formação. Depois de seis meses eu não conseguia ver sentido nisso. Eu não tinha ideia do que fazer com minha vida e nem como a faculdade poderia me ajudar a descobrir isso. E aqui estava eu, gastando todo o dinheiro que meus pais juntaram a vida toda. Então eu decidi sair e confiar que tudo correria bem. Foi muito assustador na época, mas olhando para trás hoje, posso dizer que foi uma das melhores decisões que eu já tomei na minha vida. No momento que eu saí eu pude parar de frequentar as aulas obrigatórias que não me interessavam e começar a frequentar as que realmente me interessavam.

Mas depois disso minha vida não foi um mar de rosas. Eu não tinha um dormitório, portanto dormia no chão do quarto de uns amigos. Eu retornava garrafas de
Coca-Cola por cinco centavos de dólar para comprar comida e eu andava um pouco mais de onze quilômetros toda noite de domingo para ter uma boa refeição por semana no Templo Hare Krishna... Eu amava isso!

Muitas vezes eu tropecei, por seguir minha curiosidade e intuição, mas esses tropeços se mostravam valiosos no futuro. Deixem-me dar um exemplo.

Reed Collegge oferecia, naquela época, talvez, as melhores aulas de caligrafia de todo o país. Por todo o campus, todo poster, toda capa e todo cartaz era lindamente escrito a mão. Como eu havia desistido do curso e não precisava assistir às aulas normais, decidi assistir as aulas de caligrafia. Nessas aulas aprendi sobre serifa, estilo serifa sans, sobre variar os espaçamento entre diferentes combinações de letras e sobre o que faz uma tipografia ser ótima. Eram momentos lindos, históricos, sutilmente artísticos, de uma maneira que a ciência não compreende. Eu achava tudo fascinante.

Na época, eu não tinha esperanças que isso pudesse ser de alguma maneira útil na minha vida, mas dez anos depois, quando desenvolvíamos o primeiro computador
Macintosh, tudo veio à minha mente novamente, e colocamos tudo no Mac. Foi o primeiro computador com tipografia bonita. Se eu nunca tivesse feito aquele específico curso na faculdade, o Mac nunca teria múltiplos estilos de letras ou espaços proporcionais. E já que o Windows copiou o Mac, talvez nenhum computador pessoal as tivessem.

Se eu nunca tivesse abandonado a faculdade, nunca teria feito o curso de caligrafia, e os computadores pessoais poderiam não ter a ótima tipografia que têm. Claro que era impossível ligar os pontos naquela época, mas era muito claro, dez anos depois, olhando para trás, perceber como uma coisa contribuiu para outra.

Portanto, você não pode ligar os pontos olhando para o futuro, você só pode ligá-los olhando para o passado. Então você tem que confiar que os pontos irão, de alguma maneira, se ligar no futuro. Você tem que confiar em alguma coisa, Deus, Destino, Vida,
Karma, qualquer coisa... porque acreditar que os pontos vão se ligar em algum momento vai te dar confiança para seguir seu coração, mesmo que te leve por um caminho diferente do previsto... e isso fará toda a diferença.

Minha segunda história é sobre amor e perdas. Eu tive sorte, descobri cedo o que amava fazer.
Woz e eu começamos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha vinte anos. Nós trabalhamos duro e em dez anos a Apple passou de nós dois em uma garagem para uma companhia de dois bilhões de dólares com quatro mil empregados. Nós acabávamos de lançar nossa maior criação, o Macintosh, um ano antes, e eu acabara de fazer trinta anos. Então fui demitido.

Como você pode ser demitido de uma empresa que você criou? Bom, conforme a
Apple crescia, nós contratamos alguém que eu acreditava ter muito talento para gerenciar a empresa comigo. Nos primeiros anos as coisas andaram bem, mas então nossas visões começaram a divergir e eventualmente tivemos uma discussão. Foi então que nosso quadro de diretores escolheu ele e aos 30 anos de idade eu estava fora, muito publicamente fora. Tudo no qual eu me foquei durante toda a minha vida adulta foi tirado de mim. Foi devastador.

Por alguns meses eu fiquei sem saber o que fazer. Eu sentia como se tivesse falhado com a geração de empresários antes de mim, como se tivesse derrubado o bastão quando foi passado para mim. Fui me encontrar com
David Packard e Bob Noyce para me desculpar, por ter errado tão feio. Eu era um fracassado público, e até pensei em sair de "Valley". Mas alguma coisa lentamente começou a nascer em mim. Eu continuava amando o que eu fazia. As coisas que aconteceram com a Apple não mudaram isso em nada. Eu havia sido rejeitado mas continuava amando meu trabalho. Então decidi começar de novo.

Eu não podia entender, mas ser demitido da
Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido comigo. O peso de ser vitorioso foi substituído pelo vazio de ser um iniciante outra vez. Sem muita certeza sobre nada, eu me libertei para entrar em um dos períodos mais criativos da minha vida. Durante os próximos cinco anos, criei uma companhia chamada Next, outra companhia chamada Pixar, e me apaixonei por uma mulher incrível que se tornou minha esposa.

A
Pixar criou o primeiro grande filme de animação por computadores, Toy Story, e hoje é o estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. Em uma incrível sucessão de eventos, a Apple comprou a Next e eu voltei à Apple, e a tecnologia desenvolvida na Next é o coração da atual recuperação da Apple, e Lorene e eu temos uma linda família juntos. Eu tenho certeza que nada disso teria acontecido se eu não tivesse sido demitido da Apple. O gosto do remédio foi péssimo, mas o paciente precisava disso.

Algumas vezes a vida pode te atingir na cabeça com um tijolo. Não perca a fé. Me convenci que a única coisa que me fez seguir em frente é que eu amava o que eu fazia. Você tem que achar alguma coisa para amar. Isso é tão verdade para o trabalho quanto é para as pessoas que você ama. Seu trabalho vai preencher boa parte de sua vida, e a única maneira de viver verdadeiramente satisfeito, é fazer o que acredita ser um ótimo trabalho. É amar o que você faz. Se você não achou isso ainda, continue procurando, não desista. Como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar, e como toda grande relação, só tende a melhorar com o passar do tempo. Então continue procurando, não desista!

Minha terceira história, é sobre a morte.

Quando eu tinha 17 anos, eu li uma citação que dizia algo como: "Se você viver todos os dias como se fosse o último, ocasionalmente acertará." Isso me deixou marcado, e desde então, pelos próximos 33 anos, eu olhei no espelho todas as manhãs e me perguntei: "Se hoje fosse o último dia de minha vida, eu iria querer fazer o que estou pretendendo fazer?" E sempre que a resposta foi não por muitos dias consecutivos, eu sabia que precisava mudar algo. Lembrar que se vai morrer em breve é a mais importante ferramenta que já encontrei para fazer grandes escolhas na vida. Porque praticamente tudo, todas as expectativas, todo orgulho, todo medo de falhar, todas essas coisas simplesmente desaparecem quando se enfrenta a morte, deixando apenas o que é realmente importante. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que conheço de evitar a armadilha de se imaginar que você tem algo a perder. Você já está nu, não há razão para não seguir seu coração.

Cerca de um ano atrás fui diagnosticado com câncer. Fiz um exame às 7h30 da manhã que claramente mostrava um tumor no meu pâncreas. Eu nem sabia o que era um pâncreas. Os médicos me disseram que esse tumor era muito provavelmente um tipo de câncer incurável, e eu não deveria esperar viver mais que 3 a 6 meses. Meu médico me disse para ir para casa e colocar meus assuntos em ordem. Isso é uma expressão médica que significa: "Prepare-se para morrer." Isso significa tentar dizer para seus filhos em alguns meses tudo o que você imaginou que teria dez anos para dizer. Isto significa ter certeza que tudo está acertado para ser o mais fácil possível para sua família. Significa dizer adeus.

Eu vivi com esse diagnóstico o dia inteiro, e mais tarde, e mais tarde eu fiz uma biopsia. Os médicos colocaram um endoscópio pela minha garganta, passando pelo meu estômago e chegando até meu intestino, e usando uma agulha, retiraram algumas células do tumor do meu pâncreas. Eu estava sedado, mas minha esposa, que estava lá, disse que quando os médicos viram as células no microscópio, começaram a chorar, porque ficou claro que era uma forma muito rara de câncer pancreático, que era curável com cirurgia. Eu fiz a cirurgia e estou bem agora.

Isso foi o mais próximo que eu já estive de enfrentar a morte, e espero que seja o mais perto que chegue por mais algumas décadas. Passar por isso me deu autoridade para dizer com mais certeza do que quando morte era um conceito útil, mas apenas ilustrativo. Ninguém quer morrer, mesmo as pessoas que querem ir para o Paraíso não querem morrer para isso. E ainda assim, morte é o destino que todos compartilhamos. Ninguém nunca escapou disso. E é assim que deve ser, pois a morte é a maior invenção da vida. É o agente que renova a vida, limpa o espaço do velho para dar lugar ao novo. Neste instante, o novo é você, mas algum dia não muito distante, você vai gradualmente se tornar velho e será substituído. Desculpe ser tão dramático, mas esta é a verdade. Seu tempo é limitado, então não o perca vivendo a vida de outra pessoa. Não seja preso pelo dogma, que é viver em função dos pensamentos de outra pessoa, não deixe o ruído das opiniões de outras pessoas calar sua própria voz interior. E acima de tudo, tenha coragem de seguir seu coração e intuição; de alguma maneira eles já sabem o que você realmente quer se tornar. Todo o resto é secundário.

Quando eu era jovem, havia uma publicação incrível chamada de Catalogue", que foi uma das bíblias da minha geração. Foi criada por um sujeito chamado Stewart
"The Whole EarthBrand, não muito longe daqui, no "Menlo Park", e era trazido à vida por seu toque poético. Isso foi nos anos 60, antes de computadores pessoais e publicações pessoais. Então era todo feito em máquinas de escrever, tesouras e câmeras Polaroid. Era como o Google em papel, cerca de 35 anos antes do Google. Era idealístico, transbordando ferramentas limpas e ótimas noções. Stewart e sua equipe colocaram vários assuntos na "The Whole Earth Catalogue", e então, quando concluiu seu objetivo, colocaram um assunto final. Era o início dos anos 70 e eu tinha a idade de vocês. Na capa do último assunto, havia uma fotografia de uma estrada, no estilo daquelas estradas que você poderia estar à procura de uma carona se fosse um aventureiro. Abaixo, haviam as palavras: "Fique com fome, fique tolo." Foi a despedida deles ao assinar o livro.

Eu sempre quis isso para mim. E agora, com vocês se formando para começar de novo, eu desejo isso a vocês: "Fique com fome, fique tolo."

Muito obrigado a todos!"




Steven Jobs, é um empresário estadunidense co-fundador das empresas de informática Apple Inc., Next e do estúdio Pixar. Criou alta notoriedade em torno de seu nome por levar a cabo uma política industrial que valoriza a inovação e o design de seus produtos.


O vídeo pode ser assistido em: http://www.youtube.com/watch?v=yplX3pYWlPo&feature=related

sábado, 5 de junho de 2010

Pacto antenupcial? ou antinupcial? ou anti-nupcial?

Um cliente meu vai se casar. Foi ao cartório dar entrada na papelada, e foi informado que terá que fazer um "pacto antinupcial". No momento fiquei intrigado: um "pacto antinupcial" para quem quer se casar? Alguma coisa parecia estar errada nesta expressão, mas como eu não tinha certeza, fiquei quietinho, "na minha".

Depois que ele foi embora, fui pesquisar:

PACTO: "ajuste, contrato, convenção entre duas ou mais pessoas"
ANTINUPCIAL: "contrário ao casamento"


Houaiss

Bem que eu suspeitava. O pessoal do cartório deve ter orientado meu cliente a fazer um "pacto antenupcial", que é um "acordo pré-nupcial quanto ao regime de partilha de bens que adotarão no casamento", e não um "pacto antinupcial", que na circunstância em questão, não faria o menor sentido. A diferença é sutil, mas está lá:

- ANTE (com "e") significa ANTES, ANTERIOR.

Exemplos:

ANTEDILUVIANO - Antes do dilúvio;
ANTEPROJETO - Anterior ao projeto, esboço do projeto;
ANTEPASTO - Antes do pasto (ops, sorry), anterior à refeição;
ANTEONTEM - Dia anterior ao de ontem;
ANTENUPCIAL - Anterior ao casamento, pré-nupcial.

- ANTI (com "i") significa CONTRA:

Exemplos:

ANTIJURÍDICO - Contrário ao direito;
ANTIVÍRUS - Contra os vírus;
ANTINUPCIAL - contrário ao casamento.

E a dúvida seguinte: é com hífen ou sem? é junto ou separado?

Em relação a prefixos, o último Acordo Ortográfico determinou que o hífen será empregado nos seguintes casos:

a) Em todas as composições em que o segundo elemento começa por "h": anti-higiênico, co-herdeiro, pré-história, sub-hepático, super-homem, semi-hospitalar etc. (A exceção é "subumano", em que a palavra "humano" se aglutina com o prefixo e perde o "h").

b) O hífen também passa a se usado nas palavras em que o prefixo termina com a mesma vogal com a qual se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, micro-ondas, semi-interno etc.

As palavras que analisamos aqui (antenupcial ou antinupcial) contém, como segundo elemento, uma palavra que começa com a consoante "n". Portanto, é sem hífen e tudo junto, assim como as demais palavras usadas nos exemplos.

Ita est!
Prof. Zanon

sexta-feira, 4 de junho de 2010

ADIVINHAR

De vez enquando aparece por aí a palavra adivinhar escrito sem o "i": ADVINHAR.

Está errado. Não se deve omitir o "i" na palavra adivinhar. Este vocábulo é da mesma família de DIVINO, pois de acordo com a origem do vocábulo, adivinhar é dom divino.

Ita est!
Prof. Zanon

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Sugestão de filme



Um filme excelente está nas locadoras. A Ilha do Medo, com Leonardo DiCaprio e sob a direção de Martin Scorsese.



Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) chega com seu parceiro na Ilha Shutter para investigar o desaparecimento de um paciente. No local, ele descobre que os médicos realizam experiências radicais com os pacientes, envolvendo métodos ilegais e antiéticos.
Teddy tenta buscar mais informações, mas enfrenta a resistência dos médicos em lhe fornecer os arquivos que possam permitir que o caso seja aberto.
Quando um furacão deixa a ilha sem comunicação, diversos prisioneiros conseguem escapar e tornam a situação ainda mais perigosa.



Do começo ao fim Scorsese parece estar jogando pistas falsas para incitar interpretações do espectador. Será um filme de guerra (o hospital parece uma espécie de campo de concentração), um filme policial (estaria Teddy sendo vítima de uma conspiração) ou um filme-delírio (o que afinal é real na Shutter Island)? Até o título nacional, que sugere um suspense sobrenatural, entra involuntariamente nesse jogo de espelhos.

Não deixe de atentar para a última fala do protagonista, que desvenda todo o filme: "O que é melhor? Viver como um monstro, ou morrer como um homem bom?"





Ita est!
Prof. Zanon

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Uma singela homenagem póstuma.

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with the juicy bone.
Silence the pianos and, with muffled drum,
Bring out the coffin. Let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling in the sky the message: “He is dead!”
Put crepe bows around the white necks of the public doves.
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my north, my south, my east and west,
My working week and Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song.
I thought that love would last forever; I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one.
Pack up the moon and dismantle the sun.
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can come to any good.

W. H. Auden



"A good name {is} better than precious ointment; and the day of death than the day of one's birth." - Eclesiastes 7,1 (King James Bible)



"Os ventos que as vezes tiram
algo que amamos, são os
mesmos que trazem algo que
aprendemos a amar...
Por isso não devemos chorar
pelo que nos foi tirado e sim,
aprender a amar o que nos foi
dado.Pois tudo aquilo que é
realmente nosso, nunca se vai
para sempre..."

Bob Marley



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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.