sexta-feira, 30 de julho de 2010

Aos afetos, e lágrimas, derramadas na ausência da dama a quem queria bem.

Ardor em firme coração nascido;
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:

Tu, que um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando cristal, em chamas derretido.

Se és fogo, como passas brandamente,
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai, que andou Amor em ti prudente!

Pois para temperar a tirania,
Como quis que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu parecesse a chama fria.


Gregório de Matos

Esse é um dos poemas mais conhecidos de Gregório de Matos, e pode ser classificado como uma poesia lírica amorosa.

Gregório de Matos expressa um eu-lírico em conflito, dominado por sentimentos antagônicos, e para expressar esse estado de alma contrói o texto em forma de soneto, que é composto por dois quartetos e dois tercetos, nesta ordem, tendo rimas fixas, interpoladas e emparelhadas nos quartetos e variáveis, irregulares ou cruzadas nos tercetos. Os versos são decassílabos. O soneto aborda as contradições do amor romântico.

A antítese e o paradoxo são determinantes para o desenvolvimento lógico e temático do poema. Suas principais estruturas antitéticas e paradoxais, fundamentais para a compreensão de suas características barrocas são:

Antítese – ideia que é o oposto de uma outra ideia: figura retórica que opõem duas ideias ou palavras de sentido contrário, antitético, personalizando a paixão, mas demonstram toda a tensão, principalmente, no segundo quarteto:

Ex.: Tu, que em um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando cristal, em chamas derretido.

Paradoxo – proposição ou opinião contrária ao comum, aparente falta de lógica ou nexo; contradição, bem como a ambiguidade e o dualismo nos versos finais em que o poeta utiliza as figuras de linguagem com engenhosidade e habilidade, retratando o engano entre a realidade e o jogo amoroso.

Ex.: Se é fogo, como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?

Além dessas figuras de linguagem, temos ainda:

Oxímoro – figura de linguagem que harmoniza dois conceitos opostos numa só expressão, formando assim um terceiro conceito que dependerá da interpretação do leitor.

Ex.: neve ardente, chama fria.

Quiasmo – é uma espécie de antítese; também conhecido como antimetábole, que é o cruzamento de dois grupos sintáticos paralelos (dois ou quatro vocábulos), de forma que o grupo de vocábulos do primeiro se repete no segundo em ordem inversa (AB x BA).

Ex.: Quando fogo(A), em cristais(B) aprisionado;
Quando cristal(B), em chamas(A) derretido.

Uma vez descrito esse sentimento conflitante, o poeta passa a investigá-lo racionalmente. Note que a emoção é deixada de lado sob os auspícios da nova constatação: a prudência, que entra em cena para suavizar a tirania do próprio Amor; conforme se nota nos últimos versos do soneto. Mas o poeta continua na linha da oposição para retratar o engano entre a realidade e o jogo amoroso.

Ita est!
Prof. Zanon

A luta do poeta para escrever um poema


O Lutador

"Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entretanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue...
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor

me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono."


(Carlos Drummond de Andrade)

A melhor definição do que é a escrita literária


"Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhes deres:
Trouxeste a chave?"


(Carlos Dummond de Andrade)

Mais uma bela reflexão poética do mestre Quintana

"Haverá,
ainda,
no mundo
coisas tão simples
e tão puras
como a água
bebida na
concha
das mãos?"

(Mário Quintana)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O idiota

"Conta-se que numa cidade do interior um grupo de pessoas se divertia com
o idiota da aldeia, um pobre coitado, de pouca inteligência e que vivia de pequenos biscates e de esmolas.

Todos os dias alguns moradores da cidade chamavam o idiota ao bar onde se reuniam e ofereciam a ele a escolha entre duas notas: uma grande de $200,00 e uma pequena de $1.000,00.

Ele sempre escolhia a nota maior e menos valiosa, o que era motivo de risos
para todos.

Certo dia, um dos membros do grupo chamou-o e perguntou-lhe se ainda não
havia percebido que a moeda maior valia menos.

- "Eu sei, respondeu o não tão tolo assim. Ela vale cinco vezes menos, mas
no dia que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e não vou mais ganhar
os meus $200,00."

Podemos tirar várias conclusões dessa pequena narrativa.

A primeira: Quem parece idiota, nem sempre é.

A segunda: Quais eram os verdadeiros idiotas da história?

A terceira: Se você for ganancioso, acaba estragando sua fonte de renda.

Mas a conclusão mais interessante é:

A percepção de que podemos estar bem, mesmo quando os outros não têm uma
boa opinião a nosso respeito.

Portanto, o que importa não é o que pensam de nós, mas sim, o que
realmente somos.

"O maior prazer de um homem inteligente é bancar o idiota diante de um
idiota que banca o inteligente."

Autor desconhecido

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Dicionário do sudoeste do Paraná


Para quem escuta pela primeira vez um morador do sudoeste do Paraná, é difícil entender certas palavras, principalmente se estiverem fora de contexto. Pensando nisso, algum ilustre desconhecido elaborou este pequeno dicionário. Vamos lá:

Alemoa: loura

Apinchá: jogar

Atorá: cortar

Baita: grande

Bostiá: incomodar

Briquiá: trocar, de mano ou não

Camassada de pau: apanhar

Campiá: procurar

Catrefa: pessoas que não valem nada

Chumaço: conjunto de alguma coisa

Cóça de laço: apanhar, levar uma surra

De vereda: rápido

De revesgueio: de um tal jeito

Fincá: cravar

Fuque: fusca

Garrão: calcanhar

Incebando: enrolando, fazendo cera

Ingrupi: enganar

Inôzá: amarrar

Intertê: fazer passar o tempo com algo

Inticá: provocar

Intuiado: cheio

Invaretado: nervoso

Japona: jaqueta de nylon

Jóssa: coisa

Judiá: mal tratar

Kakedo: pessoa que não vale nada

Lazarento: xingamento

Luitá: brigar

Malinducado: mal educado

Paiêro: fumo de palha

Pânca: modo de se portar, por exemplo: panca de motoqueiro (jeito de

motoqueiro)

Pescociá: olhar para os lados, matar tempo

Pestiado: com alguma doença

Pexada: acidente

Piá pançudo: guri bobo

Podá: ultrapassar, o mesmo que apodá

Pozá: dormir em algum lugar

Pruziá: conversar

Rancho: compra do mês

Relampejando: trovejando

Resbalão: escorregar

Rinso: sabão em pó

Sinalêra: semáforo

Táio: corte

Tchuco: bêbado

Trupicá: tropeçar

Tunda de laço: apanhar

Vortiada: passeio

Ximia: doce de passar no pão


Exemplo de aplicação:

Agora copia e manda essa bobage por e-mail para intertê os teus amigos,

aproveita enquanto teu chefe foi dá uma vortiada...

Não sei como ele não vê que mesmo intuiado

de trabalho você fica incebando o dia inteiro...

Pare de campiá desculpa, fica falando que pestiado e

ainda consegue ingrupi o coitado do chefe...

Mas vai logo, antes que ele volte e

fique invaretado de te ver pescociando...

Pare de se bostiá, home do céu,

não seja malinducado e manda essa jóssa de uma vez para os seus cumpadre!!!

Ita est!
Prof. Zanon

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Acordo Ortográfico - Hífen

Locuções como: à toa (adjetivo e advérbio), dia a dia (substantivo e advérbio), e comum de dois devem ser grafadas sem hífen.

Também não se emprega hífen nas locuções latinas usadas como tais,
não substantivadas ou aportuguesadas: ab ovo, ad hoc, data venia, carpe diem, causa mortis, habeas corpus, ex libris.

Mas, se usarmos um artigo na frente dessas expressões (substantivando-as), então o uso do hífen faz-se necessário:
o ex-libris, o habeas-corpus, a causa-mortis etc.

Em tempo: Cuidado com os livros didáticos. Foram atualizados rápido demais depois do Acordo Ortográfico e contém alguns erros. Autoridade final em questões ortográficas é o Vocabulário Ortográfico de Língua Portuguesa (VOLP), da Academia Brasileira de Letras.



A quinta edição, 2009, contém 381.000 verbetes, as respectivas classificações gramaticais e outras informações conforme descrito no Acordo Ortográfico, e pode ser acessado gratuitamente no site da Academia: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=23

Ita est!
Prof. Zanon

Máximas sobre a educação e os educadores

"Quem abre uma escola fecha uma prisão."
Victor Hugo

"O homem que faz com que as coisas difíceis pareçam fáceis é um educador."
Ralph Waldo Emerson

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Inscrições do Enem prorrogadas para até 16 de julho

O Ministério da Educação (MEC) prorrogou as inscrições para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para até o dia 16 de Julho. O ministro da educação disse que as enchentes no Nordeste foram as responsáveis pela prorrogação.

As inscrições devem ser feitas exclusivamente via Internet.

Desta vez não será aceito o número do CPF dos pais ou responsáveis, mesmo que o estudante seja menor de idade. Os candidatos precisarão informar o seu próprio número de CPF. Quem não tiver o documento pode solicitá-lo em qualquer agência dos Correios, Banco do Brasil ou da Caixa Econômica Federal. No caso dos menores de 16 anos, é preciso que esse pedido seja feito pelos pais ou pelo responsável legal.

As provas estão previstas para os dias 6 e 7 de novembro. O exame terá 180 questões de múltipla escolha e uma redação. No momento da inscrição, o aluno deverá escolher entre o inglês e o espanhol, já que para a edição deste ano teremos a novidade da inclusão de língua estrangeira.

No primeiro dia (sábado, 6 de Novembro), as provas serão de ciências da natureza e humanas, cada uma com 45 questões. No domingo (7 de Novembro), os candidatos serão avaliados em matemática e linguagens, cada uma com 45 questões, e mais a redação.

A taxa de inscrição será de R$ 35,00; com isenção para os estudantes que cursam o 3º ano em escola pública.

Ainda dá tempo de estudar e revisar muita matéria. Então, vamos lá, vestibulandos.

Ita est!
Prof. Zanon

terça-feira, 6 de julho de 2010

Estamos juntos!

Atenção pessoal da Escola Atuação de Curitiba-PR

O professor Sandro Zanon é o mais novo contratado da Escola Atuação. De 19 de julho em diante estaremos juntos, "aprendendo e ensinando novas e velhas lições", nas unidades Santa Quitéria e Boqueirão.

Agradecimentos especiais às professoras Vanessa e Luciana, pela indicação e recomendação.

Um abraço a todos.

This is it!
Prof. Zanon

Matérias mais antigas:

Minha foto
Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.