domingo, 24 de julho de 2011

Uma crônica maravilhosa de Affonso Romano de Santana!

ANTES QUE ELAS CRESÇAM

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente. Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal? Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil.
E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas. Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração. Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto.
Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros. Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.
Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas. Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto. No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos.
Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes. O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

O JOVEM CARANGUEJO


Um jovem caranguejo pensou: "por que é que na minha família todos andam para trás? Quero aprender a andar para a frente, e que a cauda me caia se eu não conseguir."
Começou a exercitar-se às escondidas, entre os seixos do ribeiro natal, e nos primeiros dias a tarefa causou-lhe uma enorme estafa. Chocava contra tudo, machucava a carapaça e atropelava as pernas uma na outra. Mas, a pouco e pouco, as coisas começaram a correr melhor, pois tudo se pode aprender, quando se quer.
Quando se sentia bem seguro de si, apresentou-se à família e disse:
_Vejam isto.
E deu uma magnífica corridinha em frente.
_Meu filho, _ desatou a chorar a mãe _ deram-te a volta ao miolo? Reconsidera, anda como o teu pai e a tua mãe te ensinaram, anda como os teus irmãos, que te querem tanto.
Os seus irmãos, porém não faziam outra coisa senão troçar.
O pai, depois de ter estado a observá-lo severamente por um bocado, disse:
_Basta. Se queres continuar conosco, anda como os outros caranguejos. Se queres fazer as coisas à tua maneira, o ribeiro é grande: vai-te e nunca mais voltes.
O bravo caranguejinho estimava os seus, mas estava demasiado seguro da sua justiça para ter dúvidas: abraçou a mãe, despediu-se do pai e dos irmãos e partiu ao encontro do mundo.
A sua passagem logo despertou a surpresa de um grupo de rãs que, como boas comadres, se haviam reunido para dar dois dedos de conversa em volta de uma folha de nenúfar branco.
_O mundo anda às avessas _ disse uma rã. _ Olhem-me para aquele caranguejo e digam lá se não tenho razão.
_Já não há respeito _ disse uma outra rã.
_Arre! _ disse uma terceira.
Mas o caranguejo seguiu em frente, é mesmo caso para dizê-lo, no seu caminho. A certa altura, ouviu chamar por ele: era um velho caranguejo solitário, de expressão melancólica, que se encontrava encostado a um seixo.
_Bom dia _ disse o jovem caranguejo.
O velho observou-o prolongadamente, depois disse:
_Onde pensas tu que vais chegar com isso? Também eu, quando era jovem, pensava ensinar os caranguejos a andar para frente. E eis o que recebi em troca: vivo completamente só, as pessoas preferiram cortar a língua a dirigir-me a palavra. Presta atenção ao que te digo, enquanto é tempo: resigna-te a fazer como os outros e um dia agradar-te-ás o conselho.
O jovem caranguejo não sabia o que responder e ficou calado. Mas dentro de si pensava: "Eu tenho razão".
E despedindo-se do velho com gentileza, retomou orgulhosamente o seu caminho.
Irá longe? Fará fortuna? Endireitará todas as coisas tortas deste mundo? Não sabemos, porque ele ainda não parou de caminhar com a coragem e a firmeza do primeiro dia. Apenas lhe podemos desejar de todo o coração:
_Boa viagem!
Gianni Rodari


Conto para trabalhar com a 5ª série

Questões para nortear uma interpretação do texto

1- Na sua opinião, por que o caranguejo resolveu andar para a frente? Qual o significado dessa decisão?

2-Você concorda com a afirmação "...tudo se pode aprender, quando se quer"?

3- Quem foi mais intolerante com o filho ao ver a novidade: o pai ou a mãe? Justifique sua resposta.

4- Como o velho caranguejo explica o fato de ter ficado só?

5- Você acredita que é possível consertar todas as coisas deste mundo? Justifique sua resposta.

6- Esse conto é uma parábola da vida real. Que situação real o conto está alegorizando?


Ita est!

Prof. Zanon

domingo, 17 de julho de 2011

“I would prefer not to”,

Bartleby, O escriturário -Uma História de Wall Street é um dos relatos mais estranhos que li nos últimos tempos. A professora Amanda, minha colega na Escola Atuação, emprestou-me o livro e disse: “Você vai adorar!”. Dito e feito. Adorei!

Bartleby possui uma força de atração inexplicável para quem nunca se resignou passivamente.

O conto de Melville contém uma das expressões mais célebres da literatura, depois do nevermore do Corvo, de Edgar Allan Poe. Trata-se da frase repetidamente empregue por Bartleby, o pálido copista, para, aparentemente, eludir as suas obrigações profissionais. Em inglês, no original, I would prefer not to. Uma das traduções mais felizes para o português é: prefiro não fazer.

Bartleby é uma figura excêntrica. Ele não se mostra, de onde a sua luminosidade; não luta pelo seu "Eu", daí o mérito dos seus atos; não possui compaixão pelo seu "Eu", de onde a sua superioridade. Na verdade, como não aspira a nada, ninguém no mundo consegue tocá-lo. E essa intocabilidade incomoda.

Enredo

Um advogado de Wall Street (ao qual, por motivos que adiante se tornarão explícitos, chamaremos advogado-patrão) recém promovido a Master in Chancery do Estado de Nova Iorque, resolveu, dado o inesperado avolumar de trabalho que a promoção lhe trouxe, acrescentar um terceiro aos dois copistas que trabalhavam para ele. O nome deste último é Bartleby e é apresentado ao leitor como sendo um homem "plácido, asseado, inspirando piedade e respeito".

Escrevendo silenciosa e mecanicamente, copiando e recopiando palavras, à luz do sol e à luz da vela, Bartleby é tão-somente um escrivão como tantos outros. Porém, algo de insólito sucede cada vez que Bartleby, as instâncias de qualquer pedido ou ordem do advogado-patrão, faz ressoar a enigmática fórmula: “I would prefer not to”, (prefiro não fazer).

De todos os funcionários, era aquele de quem o advogado teve a menor quantidade de informações e serviços prestados. E de nada adiantaria perguntar a Bartleby qualquer coisa que fosse, ele preferiria não responder. Jamais aparecera um funcionário tão obstinado, tão solitário, tão Bartleby.

Leitura de cunho profundamente filosófico. Recomendo.

Ita est!
Prof. Zanon

"A princípio" ou "Em princípio"?


Essas suas expressões são bem parecidas, mas não são equivalentes.

"Em princípio" significa "em tese", "antes de qualquer análise ou consideração".

Veja algumas frases nas quais esse uso está bem empregado:

- Em princípio, sou favorável à sua participação no evento.
- Em princípio, irei à formatura.

"A princípio" significa "no começo, no início". Observe os exemplos:

- A princípio, o casamento ia bem, mas depois as coisas mudaram.
- A princípio, achei fácil a prova, mas depois, não entendi mais nada.

Ita est!
Prof. Zanon

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Fã, fanático, profano...

De onde surgiu a palavra? Nos dicionários, a palavra é definida assim:

FÃ - s.m. e s.f. Pessoa que tem grande admiração por artistas (de cinema, teatro, televisão) ou figuras populares (campeões esportivos, jogadores de futebol etc.). Admirador. (Dicionário on line de Português)

Etimologicamente, a palavra "fã" é um encurtamento de “fanático”, que veio do Latim fanaticus, “louco, entusiasta, inspirado por algum deus”.

Por que inspirado por algum deus? Porque originalmente o vocábulo latino ter a ver com, ou é relativo a um templo, que em latim é fanum.

Daí surgiu também profano. Quem não atendia a certas exigências religiosas estava “à frente” do templo, ou seja, fora dele: profanum, que originou nosso “profano”.

Ita est!

Prof. Zanon



quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ressurreição - Machado de Assis




Ressurreição foi o primeiro romance escrito por Machado de Assis e publicado em 1872. Foi bem recebida pelo público e pela crítica da época. Machado de Assis ainda estava vivo quando foi lançada sua segunda edição (1905). Nesse romance estão os traços de sua maneira de escrever definitiva: a penetração psicológica, a preocupação da análise, o monólogo interior, o desenvolvimento alinear da intriga e a narrativa complexa.

Ressurreição rompeu com com o nacionalismo literário, com a descrição minuciosa da natureza e dos costumes, com a novela histórica e indianista e com o regionalismo de superfície que dominavam a ficção brasileira durante o Romantismo. Lendo o prefácio do livro já percebemos a busca do autor por um novo caminho. Machado escreveu:

Não quis fazer romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres; com esses simples elementos busquei o interesse do livro.

O esquadrinhamento da alma humana como alvo da narrativa era um tipo de análise psicológica que apenas os realistas europeus vinham realizando. É claro que Machado não acerta a mão já na primeira experiência: a trama banal, cheia de fórmulas românticas se sobressai à investigação íntima dos personagens.

Enredo

“Ressurreição” narra a história de Félix, solteirão de trinta e seis anos que, embora não acredite no amor, acaba apaixonando-se por Lívia, jovem viúva que tem um pequeno filho de cinco anos. A história envolve basicamente o conflito psicológico entre Félix e Lívia: o solteirão descobre-se apaixonado pela viúva, e por isso torna-se inseguro e desconfiado; seus ciúmes acabam tornando o romance inviável. Dentre os personagens secundários, destaca-se Raquel, menina de dezessete anos que se apaixona por Félix, mas cuja pureza leva-a a sacrificar seu amor pelo bem de Lívia.

Há durante todo o livro um contraste entre a pureza e a inocência de Raquel, a ardente paixão de Lívia e a instabilidade emocional de Félix: enquanto as duas mulheres parecem sempre dispostas a arriscarem tudo pelo amor, o solteirão sempre acaba pondo tudo a perder.

Ao fim da obra, Félix desfaz o noivado com Lívia na véspera do casamento, graças a uma carta que recebe que o alertava contra uma possível traição de Lívia; a carta é, na verdade, uma armadilha preparada por um pretendente da viúva; Félix acaba descobrindo a cilada, mas seu gênio desconfiado faz com que, mesmo assim, desista do matrimônio.



À medida que vou lendo, gosto de ir grifando os trechos que se destacam pela beleza poética, pela arte com as palavras, pelo conteúdo semântico e assim por diante. Ao ler Ressurreição, grifei os seguintes trechos:

"[...] falta-me a primeira condição da paz interior: eu não confio na sinceridade dos outros."

"[...] Meu espírito criara um mundo seu, uma sociedade platônica em que a fraternidade era a língua universal, e o amor a lei comum, [...] até que me bateu a hora das decepções funestas."

"Não me caíram as ilusões como folhas secas que um débil sopro desprega e leva, foram-me arrancadas no pleno vigor da vegetação. [...] Meu espírito ficou árido e seco. Invadiu-me então uma cruel misantropia, a principio irritada e violenta, depois melancólica e resignada. Calejou-se-me a alma a pouco e pouco, e o meu coração literalmente morreu."

Lindo, não é? Excelente leitura. Eu recomendo.

Ita est!
Prof. Zanon

terça-feira, 5 de julho de 2011

Com computador, letra cursiva está na berlinda

Em tempos de era digital, o uso da letra manuscrita, sobretudo a cursiva, está ficando praticamente restrito à escola. No mundo do trabalho, dominado pelos computadores, muitos nem se lembram direito como escrever à mão, quanto menos fazer todas as “voltinhas” no caderno de caligrafia. Com exceção de poucos bilhetes ou assinaturas em documentos oficiais, até a própria escrita manual já é rara. Ninguém quer mais escrever no papel com medo de a letra parecer feia ou de não poder mudar de ideia e “deletar”.

Enquanto isso, na sala de aula, as crianças passam anos aprendendo a desenvolver diferentes traçados até chegar, finalmente, à letra cursiva, quase sempre a mais complicada para os alunos. Se o trabalho dos professores costuma ser grande e a aplicação prática é pequena, ainda vale a escola reservar tempo para o ensino da letra cursiva? Conhecer apenas a letra de forma não seria suficiente para ser alfabetizado hoje? O tema é controverso e a resposta não é tão simples.

Para aqueles que defendem a necessidade da escrita cursiva, tecnicamente chamada de amalgamada, a principal justificativa para o ensino é a fluência, a rapidez que essa forma proporciona na hora de escrever, já que não é preciso tirar o lápis ou a caneta do papel a cada letra. Mas qual é a necessidade de ser tão rápido? Para poder tomar notas durante qualquer situação em que a tecnologia não esteja disponível.

Porém, se o uso de computadores, smartphones e tablets se tornar uma realidade nas escolas, ainda assim a letra cursiva teria seu espaço garantido? O especialista em alfabetização João Batista Araujo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, acredita que ainda é cedo para colocar essa questão na ordem do dia das escolas. “Pelo menos por enquanto, mesmo nos países altamente influenciados pela tecnologia, a escrita ainda é muito utilizada nas situações práticas da vida. Seria temerário que as próximas gerações não cheguem à vida adulta com esses instrumentos. Se algum dia a escrita manuscrita for abolida, aí sim a escola não precisa se preocupar mais com isso”, afirma.

A escrita cursiva ainda é uma exigência em algumas provas, alguns vestibulares e concursos públicos. Mas muitos já passaram a aceitar também a letra de forma ou de imprensa, como também é chamada, desde que seja feita a diferenciação entre maiúsculas e minúsculas. E aí é que está o problema. Muitas pessoas saem do ensino fundamental sem saber fazer as duas formas. O professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Geraldo Peçanha de Almeida explica que na educação infantil muitas vezes os educadores passam três anos ensinando apenas a letra bastão maiúscula (ou caixa alta) para facilitar o processo de aprendizado. Depois a criança começa a aprender a letra cursiva e acaba não treinando suficientemente as letras de forma minúsculas. “E não se pode escrever tudo em letra maiúscula, é um erro ortográfico”, lembra. O docente ressalta que se a escola focasse no ensino dos dois tipos não haveria empecilho em escolher esta forma de escrita ao invés da cursiva se a criança se adaptasse melhor. “Se a escola ensinasse a maiúscula e a minúscula não haveria nenhum problema de a criança escrever o resto da vida em letra bastão”, resume.

Dificuldade de aprendizado

O processo de ensino da letra cursiva geralmente começa entre os 6 e 7 anos de idade e exige habilidades relacionadas à coordenação motora fina. Até pegar prática e fazer um traçado legível a criança demora cerca de três anos. Isso significa que, em média, por volta dos 9 anos o estudante terá desenvolvido a forma de escrita que utilizará ou não ao longo da vida – dependendo de como a tecnologia evoluir e a sociedade se adaptar às mudanças.
Não são raros os alunos que têm dificuldade para aprender a letra cursiva. E existem vários motivos associados ao problema. O professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara, Luiz Carlos Cagliari, acredita que a deficiência no aprendizado está relacionada à metodologia de ensino. “Em geral, vejo que crianças problemáticas com a escrita não apresentam o mesmo tipo de problema quando desenham. Então, há algo de errado com o modo como são ensinadas. Adotando várias etapas para se chegar à escrita cursiva fica mais fácil.”
Cagliari sugere o uso de gabaritos para facilitar a escrita, além de um pouco mais de paciência do educador, que pode deixar o aluno usar a escrita maiúscula ou bastão enquanto ele não se sentir à vontade com a forma concatenada. Entretanto, alerta que o maior problema é quando o aluno não sabe ler escrita cursiva, que muitas vezes é opaca aos olhos da criança, pois as letras não são tão separadas e diferenciadas quanto na forma bastão. Geraldo Almeida defende que a letra cursiva seja ensinada mais cedo, ainda na educação infantil, para facilitar o processo. “A partir do momento que a criança reconhece na letra bastão que determinada marca é ‘A’, se ela reconhece esta marca para o som ‘A’, já pode ser introduzida a letra cursiva.” O professor da UFPR lembra que além da coordenação motora fina da ponta dos dedos, que costuma ser bem exercitada nas escolas e acaba sendo também naturalmente mais desenvolvida por causa da familiaridade das novas gerações com o teclado, é preciso trabalhar todo o segmento do braço para possibilitar a movimentação adequada durante a escrita.

De qualquer forma, Almeida acredita que a escola não deve ficar focada apenas na dificuldade da criança porque algumas podem nunca aprender a escrita cursiva, porém isso não significa que não sejam alfabetizadas. Ele diz que insistir nesta forma de escrita prejudica ainda mais o desenvolvimento do aluno. “Não seria o caso de a escola continuar batalhando para a criança fazer a letra cursiva porque esse bloqueio motor vai levá-la a um bloqueio mental também”, afirma. Nesta situação, o professor sugere que a instituição continue o processo de alfabetização desse aluno com letra bastão maiúscula e minúscula.

Cagliari insiste que o problema está mais no lado de quem ensina do que de quem aprende. Ele destaca que muitas escolas sequer passam aos educandos o conhecimento de como segurar o lápis de modo correto. “Alguns alunos começam a escrever como se fossem canhotos, colocando a mão acima da linha de escrita, porém usando a mão direita. Alguns escrevem segurando o lápis como se fosse um bastão e ao escrever não conseguem ver o que estão fazendo. Um pouco de disciplina artística no uso do material de escrita ajuda a evitar problemas.”

Espécie em extinção?

Qual teria sido a reação na época se alguém dissesse que o pergaminho e a caneta-tinteiro iriam desaparecer? Nem sempre as mudanças são vistas com entusiasmo em um primeiro momento. Será que a letra cursiva – quiçá a escrita manuscrita de forma geral – também está próxima de se tornar obsoleta? Os especialistas se dividem entre os mais puristas, que temem a perda deste conhecimento, e os mais vanguardistas, que acreditam que é preciso evoluir com a tecnologia. Porém, todos concordam que no momento atual a escrita ainda é uma necessidade social. “Do homem das cavernas ao homem moderno, precisamos da escrita por uma questão de cidadania”, afirma o professor da UFPR. Entretanto, ele mesmo acredita que esta realidade está com os dias contados e diz que se no mundo do trabalho a escrita manuscrita sobreviver por mais 10 anos, no ensino fundamental não passará de 50 anos, o que significa que os professores precisam desde já começar a debater a questão. “A letra manual não tem mais espaço na sociedade. Porque não temos mais o cronológico (tempo) disponível para ela”, dispara.

Já o pesquisador da Unesp não concorda que a escrita manuscrita, inclusive a cursiva, irá desaparecer das instituições de ensino nem da vida das pessoas na sociedade. Por outro lado, Cagliari admite que a escrita via computador poderá ser mais utilizada do que a caneta ou qualquer outra coisa. “Isso é próprio da evolução da civilização e quem não se adaptar irá ficar para trás, com muitos problemas. Portanto, a escola deveria usar cada vez mais computadores para todas as atividades de escrita, desde a pré-escola”. Mesmo assim, ele defende a importância de possuir as duas habilidades de escrita: manuscrita cursiva e escrita digitalizada, pois acredita que a falta de uma delas “significa uma restrição para a vida de um indivíduo no mundo de hoje”. Além disso, Cagliari diz que é uma vantagem cultural dominar todas as formas. Para o presidente do Instituto Alfa e Beto, a escola precisa ser prudente e esperar a escrita desaparecer primeiro antes de agir. Sobre o uso da forma cursiva ainda nos dias de hoje, declara: “A letra cursiva é mais eficiente: você raramente tira o lápis do papel. Esta é a única razão para dominá-la. Mas é uma razão muito forte. É preciso ter muita prudência para não descartar a sabedoria e a experiência acumulada pela humanidade.”

Com relação às habilidades motoras que escrever com letras concatenadas proporciona, todos são unâmimes em dizer que não existe uma perda de coordenação no desenvolvimento do aluno que não pratica a escrita cursiva. Esta capacidade é aprimorada em diversas outras atividades escolares. Para responder a pergunta sobre se ainda vale a pena reservar tempo em sala de aula para ensinar a letra cursiva, é preciso “ter bola de cristal”. Existem muitos indícios de que o uso da escrita manuscrita está desaparecendo, sobretudo quando se olha para o mundo do trabalho e para o aumento progressivo dos computadores nas escolas. Porém, ninguém sabe qual é o momento certo de abandonar um conhecimento em prol de outros. O mais importante por enquanto é ponderar sobre a questão para ter a capacidade de se adaptar às mudanças que afetam a sociedade e, consequentemente, não podem ser ignoradas pela escola.

Yannik D’Elboux, da Gestão Educacional especial para o Bem Paraná. Disponível em: http://www.bemparana.com.br/index.php?n=184604&t=letra-cursiva-esta-na-berlinda

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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.