domingo, 4 de dezembro de 2011

O que é fluxo de consciência?

Em 1922, o irlandês James Joyce (1882-1941) publica Ulisses, romance que se tornou um marco na literatura moderna.


Joyce usou mais de 800 páginas para descrever apenas um dia na vida da personagem, um homem comum que realiza nesse único dia a saga do herói grego Ulisses. A técnica para representar a subjetividade forjada por Joyce foi batizada de fluxo de consciência e passou a ser amplamente utilizada na literatura. Essa técnica utiliza basicamente os monólogos interiores, fluxos de palavras que procuram imitar a lógica do pensamento em sua liberdade, fragmentação e autonomia em relação ao tempo externo.

Com o uso dessa técnica, podemos captar o ponto de vista de um personagem através do exame profundo de seus processos mentais, com lampejos do consciente e do inconsciente, da realidade e do desejo, as lembranças da personagem e a situação presentemente narrada etc.

Como o pensamento e a consciência não é ordenada, o texto com fluxo de consciência também não o é. Presente e passado, realidade e desejos, anseios e reminiscências, falas e ações se misturam na narrativa num jorro desarticulado, descontínuo, numa sintaxe caótica, apresentando as reações íntimas da personagem fluindo diretamente da consciência, livres e espontâneas.
Uma escritora que usou e abusou dessa técnica foi Virginia Woolf.



Abaixo um trecho de
Mrs. Dalloway, um dos meus livros preferidos:

"Como a humanidade é louca, pensou ela ao atravessar Victoria Street. Porque só Deus sabe porque amamos tanto isto, o concebemos assim , elevando‑o, construindo‑o à nossa volta, derrubando‑o, criando‑o novamente a cada instante, mas até as próprias megeras, as mendigas mais repelentes sentadas às portas (a beberem a sua ruína) fazem o mesmo; não se podia resolver o seu caso, ela tinha a certeza, com leis parlamentares por esta simples razão: porque amam a vida. Nos olhos das pessoas, no movimento, no bulício e nos passos arrastados; no burburinho e na vozearia; os carros, os automóveis, os ónibus, os camiões, homens‑sanduíches aos encontrões, bamboleantes; bandas de música; realejos, no estrondo e no tinido e na estranha melodia de algum aeroplano por cima das nossas cabeças, era o que ela amava, a vida, Londres; este momento de Junho. Porque era em meados de Junho." (Mrs. Dalloway, pp.5-6)



Entre os autores brasileiros cito
Clarice Lispector como a especialista em fluxo de consciência. Leia o excerto de Perto do Coração Selvagem:


[...] Assim, um cão latindo, recortado contra o céu. [...] Uma porta aberta a balançar para lá, para cá, rangendo no silêncio de uma tarde [...] Também um mastro sem bandeira, ereto e mudo, fincado num dia de verão [...] (Perto do coração selvagem, 1980)



Ita est!

Prof. Zanon

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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.