domingo, 26 de fevereiro de 2012

As três experiências

Clarice Lispector


Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. "O amar os outros" é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E, no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha: É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.
Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte, mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Orações Subordinadas Substantivas

Exercícios para o 9º ano

Separe e classifique as orações subordinadas substantivas nos períodos abaixo:

1. "É possível que o leitor me não creia." (Machado de Assis)

2. "Parece que a agulha não disse nada." (Machado de Assis)

3. "Jurou que lhe queria muito." (Machado de Assis)

4. "Veja bem como se comporta." (Josué Montello)

5. "Perguntava-se que amor estranho era aquele." (Machado de Assis)

6. "Duvidei de que pudesse atender-me." (?)

7. "Gostaria de lhe atirar uma flor." (Rachel de Queiroz)

8. "Tenho a impressão de que estou cercado de inimigos." (Graciliano Ramos)

9. "Era fiel a quantos lhe pagassem." (?)

10. "O pior é que era coxa." (Machado de Assis)

11. "Quem sabe de mim sou eu." (Gilberto Gil)

12. "Urgia fundar o jornal." (Machado de Assis)

13. "Tinha ainda um sonho: caminhar com o velho amigo pela trilha secreta." (?)

14. "A jovem, em sua janela, observava-o passar apressado." (?)

15. "Não creio em quem não crê." (?)

16. "Tive ideia de devolver o achado à praia." (Machado de Assis)

17. "Aquela afirmativa, que nunca mais voltaria ao rancho, martelava-lhe a alma." (?)

18. "Você é quem resolve tudo." (?)

19. "A verdadeira felicidade é ser livre." (?)

20. "Um poeta dizia que o menino é pai do homem." (Machado de Assis)

21. "Dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem [...]" (Machado
de Assis)

22. "A cidade oferecia-lhe tudo: oferecia-lhe a paz!" (?)

23. "Vai valer a pena ter amanhecido." (Ivan Lins, Victor Martins)



* Dica do professor Sandro: para reconhecer a oração subordinada substantiva, observe a oração principal e veja o que falta: sujeito, objeto direto, objeto indireto, complemento nominal, predicativo do sujeito. Lembre-se de que a oração apositiva é a única que não se integra a uma estrutura incompleta.


** Não imprimir, copiar no caderno.


Ita est!
Prof. Zanon

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Aportuguesamento de palavras de outras línguas

Quando nosso idioma "empresta" (entre aspas, pois nunca devolve) uma expressão de outra língua, geralmente ocorre um aportuguesamento, para que a nova palavra fique com aparência e sonoridades brasileiras. Quem decide que aparência e sonoridade a prosélita brasileira terá são os mestres da língua, que registram suas decisões no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP).

Mas o povo é teimoso e rebelde, e nem sempre aceita as decisões dos grandes mestres.

As palavras "futebol" e "uísque" foram aportuguesadas e aprovadas pelo povo, que as usa regularmente.

Já as palavras aportuguesadas "estresse", "eslaide", "escâner" e "blogue" que constam na última edição do VOLP não agradou. O povo prefere as formas originais "stress", "slide", "scanner" e "blog".



Quem faz a língua são os falantes!


Ita est!
Prof. Zanon

Plural especial

O plural de substantivos, adjetivos, artigos e pronomes é formado com o acréscimo da letra "s" ao final da palavra, como em "meninos" e "brinquedos", ou com algumas pequenas variações nas terminações:



Mas há uma palavra em que o "s" aparece no meio para mostrar o plural.

Sabe qual é?

É a palavra "qualquer". No plural: "quaisquer".


Ita est!
Prof. Zanon

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Será que é verdade?

Será que é verdade? Até que ponto as informações do texto são confiáveis? 

Aprenda a classificar a informação observando:

1) Fonte da informação. Onde o texto foi publicado? A fonte tem algum tipo de reconhecimento? Pra decidir sobre isso compare, por exemplo, um jornal de grande circulação que submete o que publica à avaliação de muitas pessoas com um site na internet. O que pode ter maior credibilidade.


A fonte defende explicitamente alguma corrente de ideais? As fortes convicções do autor podem ofuscar seu raciocínio.


2) Base da informação. A informação está documentada? A documentação tem reconhecimento de alguma instituição (universidade, fundação etc.)? As informações estão confirmadas por alguma autoridade no assunto (cientista ou especialista de reconhecida competência)?


3) Autor. Quem é o responsável pela informação? Qual é a formação do responsável? Tem autoridade no assunto de que trata? Está ligado a alguma instituição reconhecida? Tem outros livros e pesquisas publicadas? Desconfie de textos de autoria desconhecida. Há muitas outras razões para um escritor não se identificar. Modéstia é a última da fila.


Os critérios acima, obviamente, não são absolutos. Bom senso nunca fez mal a ninguém. 




Ita est!
Prof. Zanon






Texto literário e texto não-literário

A linguagem literária difere da linguagem não-literária nos seguintes aspectos:

A situação da fala:

No texto não-literário ela é instrumento de informação/comunicação. Importa mais o que se diz.No texto literário a situação da fala é um sistema semiótico estético. Importa mais o como se diz.


Compreensão:

O texto não-literário é transparente, tem sentido denotativo. A informação é explícita e objetiva.O texto literário tem sentido conotativo, a informação é apenas sugerida, subjetivamente. Há uma opacidade na mensagem que requer esforço interpretativo por parte do leitor.


Representação:

O texto não-literário representa o real, o verdadeiro.O texto literário, por sua vez, não tem nenhum compromisso com a realidade. O autor tem liberdade, abertura criativa.


Decodificação:

Texto não-literário: única. Texto literário: múltipla


Significação:

O texto não-literário deve ter um significado exato, objetivo. No texto literário há ambiguidade e polissemia.


Finalidade:

O texto não-literário objetiva a transmissão de ideias e conceitos. A finalidade do texto literário emocionar, aflorar sentimentos.


Tipo de atividade:

O texto não-literário é um ato de comunicação/reprodução. O texto literário é um ato de criação/invenção.



Para ilustrar essas diferenças, observe o quadro abaixo:



Agora note as diferenças lendo um texto literário e um não-literário com o mesmo tema:






Ita est!
Prof. Zanon

Matérias mais antigas:

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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.