segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Resposta literariamente velada a um grande amigo!



"Amores fanados não reverdecem, quando a vida caprichou em esmagá-los bem".

Carlos Drummond de Andrade

ABDICAÇÃO

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços

E chama-me teu filho... eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,

Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,

Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,

E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.


Fernando Pessoa, 1913



Edgar Allan Poe
Ita est!
Prof. Zanon

O vício do "mesmo"



É um vício mesmo, pode acreditar. Não são poucas as pessoas que viciaram no "mesmo" como sinônimo de "ele, ela, eles, elas".

Observe como este vício se apresenta:

- O filme retrata o conflito de gerações. O mesmo não é adequado para menores de 14 anos.
- Almir e Sandro acertaram a parceria. A oficialização da mesma será amanhã.

Em períodos assim fica melhor usar os pronomes "ele" e "cujo".

Exemplos:

-  O filme retrata o conflito de gerações. Ele não é adequado para menores de 14 anos.
-  Almir e Sandro acertaram a parceria, cuja oficialização será amanhã.

Mas não precisa ficar ensimesmado (em + si + mesmo) por causa disso. Vá aos poucos abandonando o velho hábito e logo o mesmo será coisa do passado na sua escrita. (Ops!)

Ita est!
Prof. Zanon

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A JESUS CRISTO NOSSO SENHOR


1                    Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
2                    da vossa alta clemência me despido;
3                    porque, quanto mais tenho delinqüido,
4                    vos tenho a perdoar mais empenhado.

5                    Se basta a vos irar tanto pecado,
6                    a abrandar-vos sobeja um só gemido:
7                    que a mesma culpa, que vos há ofendido
8                    vos tem para o perdão lisonjeado.

9                    Se uma ovelha perdida, e já cobrada
10                  glória tal e prazer tão repentino
11                  vos deu, como afirmais na sacra história,

12                  eu sou Senhor, a ovelha desgarrada,
13                  cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
14                  perder na vossa ovelha, a vossa glória.

                                                                  Gregório de Matos

*Leia a análise desse poema que o professor Sandro Zanon escreveu para a revista E-Letras, da Universidade Tuiuti do Paraná, no link: http://www.utp.br/eletras/ea/eletras8/primeiros.asp  

Ita est!
Prof. Zanon

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Veja quando usar HÁ e A

Você sabe quando usar o , do verbo haver, e o A, preposição?

O indica tempo passado e pode ser substituído por FAZ. Repare nos exemplos:

-Ele mora em Curitiba há (faz) dez anos.
- Há (faz) dez dias o aluno aguarda os resultados das provas.
- O diretor assumiu o cargo há (faz) poucos meses.

Agora, veja a diferença no uso do A. Trata-se de uma preposição que exprime, principalmente, duas condições: tempo futuro e distância, como os exemplos abaixo ilustram.

- Daqui a dois meses será inaugurado o prédio da reitoria.
- De hoje a três dias você receberá sua encomenda.
- Estamos a 50 km de São Paulo.

Note bem: em todos esses casos o indica tempo passado e o A indica futuro, tempo que ainda irá passar.

Outro cuidado que devemos ter ao escrever de acordo com a norma padrão é evitar construções assim:

- Há trinta anos atrás comecei a recolher o INSS.

Há... atrás, juntos na mesma sentença é considerado redundância, vício de linguagem pela gramatica normativa.

Podemos corrigir isso assim:

- Há trinta anos comecei a recolher o INSS. (sem o atrás)
- Trinta anos atrás comecei a recolher o INSS. (sem o há)




Ita est!
Prof. Zanon

domingo, 3 de fevereiro de 2013

"Fogão a lenha" ou "Fogão à lenha"

"... a lenha", "... a gás" e "... a óleo" e expressões congêneres são locuções adjetivas. Não há crase nesses casos por não existir artigo. Portanto não recebem acento grave.



- A pizza foi assada no forno a lenha.
- Comprei um forno a gás.
- Tenho um aquecedor a óleo.

Curiosidade: Em Portugal costuma-se dizer forno de lenha. Alguns gramáticos dizem que para nós, brasileiros, uma construção assim poderia gerar polissemia, e seria interpretada como forno feito de lenha. É lógico que o contexto evitaria interpretações equivocadas, mas em briga de gramáticos e linguistas eu prefiro ser expectador. De qualquer modo, a forma preferida pelo uso, aqui no Brasil, é forno a lenha.

Ita est!
Prof. Zanon

Matérias mais antigas:

Minha foto
Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.