sábado, 31 de agosto de 2013

Uma pérola de Clarice!

"Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam."
Clarice Lispector (A Hora da Estrela)


terça-feira, 27 de agosto de 2013

A criança que fui chora na estrada


A criança que fui chora na estrada


A criança que fui chora na estrada. 
Deixei-a ali quando vim ser quem sou; 
Mas hoje, vendo que o que sou é nada, 
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada. 
Já não sei de onde vim nem onde estou. 
De o não saber, minha alma está parada. 

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar, 

Na ausência, ao menos, saberei de mim, 
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar

Em mim um pouco de quando era assim.

Fernando Pessoa

O que me dói não é...



O que me dói não é...
O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


Abdicação



Abdicação

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma

Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Quem é Red John?

Trinta dias de atestado médico! Bah! Como fiquei chateado com isso!

O cirurgião abdominal colocou uma "tela" subcutânea bem atrás do meu umbigo para impedir que uma hérnia umbilical teimosa continuasse a aumentar. Eu o adverti: "Doutor, lembre-se das palavras do mestre Jesus: Não se põe remendo novo em tecido velho." Mas o doutor Álvaro Kaminski entende do assunto. Fez um serviço de primeira. A cicatriz ficou por dentro do umbigo, imperceptível. E a bolinha sumiu.

Atenção alunos que me chamavam de professor Bolinha: pensem em outro apelido!

Pois é: trinta dias de atestado. O que fazer para o tempo passar? Além de ler muito, descobri a série The Mentalist. 

The Mentalist é um seriado policial estadunidense. Ele gira em torno de Patrick Jane (Simon Baker) que tem um talento especial: observar tudo em seus detalhes. Ele é consultor independente da CBI, a agência de investigação da Califórnia. Aceitou este emprego para tentar capturar Red John, um misterioso serial killer que matou sua esposa e filha. Com um enorme poder de dedução e observação, Jane já ajudou a Agência de Investigação da Califórnia a resolver muitos casos de homicídios intrigantes, porém, até o momento (quinta temporada), não conseguiu desmascarar Red John, seu arqui-inimigo. A série foi considerada a melhor estreia de 2008.



O autor prometeu revelar a identidade de Red John na sexta temporada. Nos fóruns da internet especula-se muito sobre quem seria o serial killer. Como estou apaixonado pela série vou dar meu palpite também.

Acredito que Red John é o próprio Patrick Jane.

Serem a mesma pessoa é a única maneira de explicar como Red John consegue saber coisas que apenas Jane sabe. Minha opinião se baseia principalmente no poema de William Blake, The Tyger, que foi recitado por Red John em um episódio da série. 

The Tyger (1794)

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the re of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare sieze the re?
And what shoulder, & what art.
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?
What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?
Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?


O tigre

Tigre, Tigre, viva chama
Que as florestas da noite inflama.
Que olho ou mão imortal podia
Traçar-te a horrível simetria?
Em que abismo ou céu longe ardeu
O fogo dos olhos teus?
Com que asas ousou ele o voo?
Que mão ousou pegar o fogo?
Que arte e braço pôde então
Torcer-te as fibras do coração?
Quando ele já estava batendo,
Que mão e que pés horrendos?
Que cadeia? Que martelo,
Que fornalha teve o teu cérebro?
Que bigorna? Que tenaz
Pegou-lhe os horrores mortais?
Quando os astros alancearam
O céu e em pranto o banharam,
Sorriu ele ao ver seu feito?
Fez-te quem fez o Cordeiro?
Tigre, Tigre, viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou imortal mão ousaria
Traçar-te a horrível simetria?

Tradução de José Paulo Paes

O poema The Tyger está numa coleção de poemas chamada “Idade da experiência”, uma obra que explora os mesmos temas de uma outra coleção, “Idade da Inocência”. Cada poema tem um “irmão gêmeo” na outra coleção. O poema gêmeo de The Tyger é The Lamb. No The Tyger há um verso que diz:

Fez-te quem te fez o Cordeiro? 

O poema sugere que o tigre foi criado pela mesma força que criou o cordeiro, ou seja, mal e bem são dualidades complementares e não antagônicas.

Por isso, estou inclinado a crer que Patrick Jane e Red John são a mesma pessoa, com algum transtorno envolvendo amnésia dissociativa, esquizofrenia ou outro tipo de patologia.

Para uma análise e interpretação do poema The Tyger, de Blake, acesse: 

http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/wp-content/uploads/2009/06/01cordeiro.pdf

A propósito: Mentalista é alguém que usa acuidade mental, hipnose e/ou sugestão. Um mestre manipulador de pensamentos e comportamento.


Ita est!
Prof. Zanon







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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.