segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Questão de Consciência


Já "é" dez horas.

Quando usamos a palavra HORAS ou outras palavras que definem tempo, precisamos nos lembrar que elas variam. Embora a fala exija certo relaxamento quanto a isso, devido a sua dinamicidade, na escrita devemos fazer a devida concordância.

- Já são dez horas.
- Já são três horas.
- Já é uma hora.

Que dizer das horas fracionadas? 1h30; 12h45; 2h45; 16h32?

Nestes casos a concordância se faz com a unidade e não com o número fracionado.

- Já é uma hora e trinta minutos.
- Já é meio-dia e quarenta e cinco minutos.
- Já são duas horas e quarenta e cinco minutos.
- Já são dezesseis horas e trinta e dois minutos.


Ita est!
Prof Zanon

Um terço dos alunos "faltaram" hoje.

Quando se trata de números fracionários, devemos fazer a concordância com o valor expresso.

"Um terço", por exemplo, expressa um valor singular. Portanto, o correto seria: Um terço dos alunos faltou hoje.

Veja outros exemplos:

- Dois terços dos alunos eram imigrantes. Note que "dois terços" expressam plural, portanto, o verbo precisa ir para o plural para fazer a devida concordância: eram.

- Três quartos da população eram pobres.
- Um quinto dos eleitores não compareceu.
- Faltaram três décimos do valor estipulado.

Ita est!
Prof. Zanon

domingo, 28 de dezembro de 2014

Não temos...



Não temos amado, acima de todas as coisas. 
Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. 
Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. 
Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. 
Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas.
Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. 
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo.
Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. 
Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. 
Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. 
Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. 
Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. 
Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. 
Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. 
Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. 
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. 
Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. 
Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. 
Temos chamado de fraqueza a nossa candura. 
Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. 
E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.



Clarice Lispector

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

"Um dos que...; uma das..."

As expressões "um dos..." ou "uma das..." faz a concordância no plural. Observe os exemplos:

- Ele é um dos que pensam assim. Quando invertemos a ordem da frase fica clara a regra: Dos que pensam assim, ele é um.

- O amigo foi uma das pessoas que mais o apoiaram. (Das pessoas que mais o apoiaram, o amigo foi uma.) 

- Não sou dos (ou daqueles) que acham isso.

Ita est!
Prof. Zanon

domingo, 21 de dezembro de 2014

Soneto que ousa colorir amores fanados



Amores tristes, falhados,
Amores meigos e ternos,
Que com pretensão de eternos
Viveram dias contados.

Amores que se julgaram
Perenes em sua história
E já nem mais na memória
Vivem dos que os abrigaram.

Amores prosaicos, tolos,
Quem pôde especiais supô-los,
Amores pobres, de quinta?

Só eu, gorados amores,
Para enfeitá-los de cores
Ainda gasto minha tinta.

Raul Drewnick

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

I Don't Want To Talk About It



I Don't Want To Talk About It

I can tell by your eyes
That you've probably been crying forever
And the stars in the sky don't mean nothing
To you, they're a mirror.


I don't wanna talk about it
How you broke my heart
If I stay here just a little bit longer
If I stay here won't you listen to my heart?
Oh, my heart...


If I stand all alone
Will the shadows hide the colors of my heart?
Blue for the tears, black for the night's fears
The stars in the sky don't mean nothing to you
They're just a mirror.


I don't wanna talk about it,
How you broke my heart.
If I stay here just a little bit longer,
If I stay here, won't you listen to my heart?
Oh, my heart...



Eu não quero conversar sobre isso

Posso dizer, pelos seus olhos
Que você provavelmente esteve sempre chorando
E as estrelas no céu não significam nada
Para você, elas são um espelho

Eu não quero conversar sobre isso
De como você partiu meu coração
Se eu ficar aqui mais um pouco
Se eu ficar aqui você irá ouvir o meu coração?
Meu coração

Se eu permanecer sozinho
As sombras irão "ocultar" as cores do meu coração?
Azul pelas lágrimas, preto pelos medos da noite
As estrelas no céu não significam nada para você
Elas são apenas um espelho

Eu não quero conversar sobre isso
De como você partiu meu coração
Se eu ficar aqui mais um pouco
Se eu ficar aqui você irá ouvir o meu coração?
Meu coração

domingo, 7 de dezembro de 2014

"Vende-se" casas.

Em frases como esta, o verbo concorda com o sujeito:

- Vendem-se terrenos.
- Alugam-se casas.
- Fazem-se consertos.
- Na vida cometem-se injustiças.

Observação: se houver preposição depois do verbo, ele fica invariável. Observe:

- Trata-se dos amigos mais leais.
- Precisa-se de balconistas.
- Recorre-se a todos

Ita est!
Prof. Zanon

"Existe" muitos rumores.

Os verbos existir, bastar, faltar, sobrar e restar são verbos regulares e variam normalmente. Observe os exemplos:

- Existem muitos rumores.
- Bastariam duas pessoas.
- Sobravam ideias, mas faltavam recursos.
- Restavam dois casos complexos.

Ita est!
Prof. Zanon

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

As melhores coisas

Confira se as melhores coisas não são baratas ou grátis:

- Café coado em coador de pano, cheiroso, adoçado com açúcar mascavo e mel, enquanto o Sol levanta na janela.
- Sanduíche de mortadela cortada fininha e pão fresquinho e crocante com guaraná.
- Caminhada no final da tarde com belo poente, seguida de banho de chuveiro com aquela velha toalha.
- Cheiro de florada de repente.
- Apreciar a tempestade se formando, desabando, ventando, serenando, acabando, o céu abrindo de novo.
- Suspirar aliviado depois de grandes problemas que chegaram e como tempestades também se foram.
- Chegar em casa com tudo resolvido num dia cheio, aí sentar na cama e tirar os sapatos, e tirar as meias dos pés e andar descalço pela casa.
- Ligar a televisão e ver que está começando um bom filme.
- Cochilar no sofá e acordar com a pessoa amada te olhando com amor.
- Levantar cedo e trabalhar com gosto e vontade, esquecendo de tudo, até a hora do almoço; aí almoçar com a fome boa que o trabalho dá.
- Encontrar cheio de moedas aquele moedeiro há tempo dado por perdido.
- Tomar um copo de água com muita sede e bastante calma, sentindo como a água não tem gosto, nem cor, nem cheiro e, por isso mesmo é inconfundivelmente e maravilhosamente água!
- Ver abrir a primeira flor da planta que você plantou e já tinha até esquecido.
- Andar sem pressa pela chuva, igual cachorro de rua.
- Abrir a porta depois que toca a campainha e dar de cara com o seu amor.
- Receber uma carta carinhosa e alegre num dia frio e nublado.
- Estar num ponto de ônibus e um conhecido parar oferecendo carona.
- O olhar de afeto e gratidão de um filho.
- O olhar de admiração dos colegas de trabalho.
- Sentir uma dor de repente e depois sentir que ela se vai como veio.
- Esvaziar gavetas se enchendo de emoções diante de velhos papéis.
- Deitar queijo ou passar manteiga em pão quente.
- Dormir com chuva no telhado, acordar com céu azul.
- Verificar como você não mudou revendo fotos antigas.
- Jogar de longe a bolota de papel no cesto de lixo e acertar.
- O silêncio emocionado.
- O barulho de crianças alegres.
- Canto de passarinho.
- Gente cantando no trabalho.
- Cantar no chuveiro.
- Esquecer as preocupações depois de lembrar que se preocupar não adianta, nem resolve.
- Receber elogio por trabalho bem feito.
- Elogiar trabalho bem feito.
- Receber e dar um presente inesperado.
- Olhar com atenção as pequenas coisas.
- Apreciar o nascente ou o poente.
- Tomar chá em silêncio e em paz.
- Achar logo uma vaga no estacionamento cheio.
- Sorrisos e carinhos.
- Frutas e flores.
- Acordar ao lado de quem se ama.
- Receber um abraço apertado que aplaca a saudade sentida.
- A frescura da brisa na pele suada.
- Amar e sentir-se amado.
- Um olhar carinhoso.
- Fazer o bem e sentir-se bem.
- Desejar o bem, mesmo a quem te faz mal.
- Perdoar, esquecer, renascer...


(PELLEGRINI, Domingos. Crônica Brasileira Contemporânea. São Paulo: Moderna, 2005 p. 217-220)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Concordância do verbo FAZER

O verbo FAZER, quando exprime tempo decorrido, é impessoal, ou seja, não varia (não acompanha os demais termos da frase para o plural). Portanto, não devemos dizer: "Fazem" dez dias. O correto é: Faz dez dias. Fez dois meses. Fazia cinco anos.

No caso de FAZER formar locução com um verbo auxiliar, este permanece invariável: Deve fazer dez meses. Pode fazer seis anos.

Ita est!
Prof. Zanon

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Leitura e escrita de números.

Na escrita de números convencionou-se intercalar a conjunção "e" entre as centenas e as dezenas e entre estas e as unidades. Por exemplo, para escrever o numeral 2.234.657 por extenso, devemos proceder assim: dois milhões e duzentos e trinta e quatro mil e seiscentos e cinquenta e sete.

Portanto, na escrita de números por extenso não se põe vírgula entre uma classe e outra.

Ita est!
Prof. Sandro

domingo, 2 de novembro de 2014

Nalgum lugar em que eu nunca estive


 
 
nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além

 de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:

 no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,

 ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

 

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra

 embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar

 me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre

 (tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

 

ou se quiseres me ver fechado, eu e

 minha vida nos fecharemos belamente, de repente,

 assim como o coração desta flor imagina

 a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

 

nada que eu possa perceber neste universo iguala

 o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura

 compele-me com a cor de seus continentes,

 restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

 

(não sei dizer o que há em ti que fecha

 e abre; só uma parte de mim compreende que a

 voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)

 ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

 

( E. E. Cummings, tradução: Augusto de Campos )

domingo, 12 de outubro de 2014

"Aluno" ou "Estudante"?




         Um ensino errado que tem se difundido nos meios universitários, já em âmbito nacional, é sobre a etimologia da palavra aluno. É muito difundida a ideia de que tal palavra significa "não luz", ou "sem luz", pois, segundo etimologia forjada e levianamente inventada, "é formada pelo prefixo a-, que significa negação, e pelo elemento lun-, adulteração de lumen, luminis, do latim, que significa luz".
         Trata-se de erro grosseiro, destituído de senso crítico e de espírito científico por parte dos inventores da tal etimologia, pois a palavra, que já existia em latim muito antes de Cristo (alumnus), significa, dentre outras ideias: criança de peito (isto é, que mama na mãe), lactente, menino; e, daí: aluno, discípulo. E a etimologia é simplesmente a seguinte: alumnus deriva do verbo alere, em latim, que significa: alimentar, nutrir, crescer, desenvolver, animar, fomentar, criar, sustentar, produzir, fortalecer, etc.
         Uma das consequências do erro citado e alastrado (aluno significa não luz, sem luz) é a adoção da palavra estudante, em lugar de aluno, por professores universitários que "aprenderam" essa bobagem e acreditam nela, sem a devida pesquisa na fonte segura, isto é, em dicionários respeitáveis e confiáveis de língua portuguesa e de língua latina. E, acreditando nela, seguem-na e adotam-na em sala de aula e em outros setores das escolas e universidades. Isto mesmo: até nas universidades!
         Após uma palestra na qual corrigi esse equívoco para professores doutorandos, muitos deles comunicaram-nos, assustados e decepcionados, que, nos cursos de mestrado que eles fizeram, em cidades de Minas Gerais e de São Paulo, a bobagem é ensinada e (pasmem!) exigida pelos professores orientadores, mestres e doutores: empregar a palavra estudante, em lugar de aluno, pois esta significa "ausência de luz", por isso é "ofensiva" ao aluno... (eles diriam: ao estudante...). Muitos desses professores são conceituados pedagogos e ministradores de palestras e cursos de treinamento de outros tantos professores.
         Como confiar em palestrantes que constroem ensinamentos ou teorias fundados em erros, em conceitos falsos? Como confiar no que ouvimos e "aprendemos" de professores de elevado conceito em faculdades e universidades renomadas? Qual a segurança que tais universidades inspiram?
         Agora, vejam a bobagem maior. Na própria língua portuguesa, a palavra estudante não é sinônima perfeita da palavra aluno. Tampouco elas possuem equivalência exata. Elas não possuem o mesmo emprego, isto é, não são usadas nas mesmas situações ou estruturas de frase. Um professor diz, por exemplo: "Antonio foi meu aluno, e não meu ‘estudante’". E mais: nós fomos (ou eu fui), com muita honra, alunos do eminente gramático Evanildo Bechara, e não "estudantes" dele. Alguém nos informa satisfeito: "minha filha é sua aluna", e não sua "estudante". Por outro lado, dizemos: Diretório Central dos Estudantes, e não "dos Alunos"; e assim por diante.
         É urgente, pois, resgatar (palavra da moda) a seriedade, a responsabilidade e a confiabilidade que uma escola superior precisa inspirar. Como sede do saber científico, a universidade não pode adotar, ensinar nem divulgar erros, inverdades e conceitos falsos; sob pena de perder o respeito e a credibilidade que lhe são devidos.

 
(Resumido) Luís Mamede, Newton Luís. Disponível em: http://www.revelacaoonline.uniube.br/ombudsman/alunoii.html. Acessado em 17.07.14 às 22h35.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

IDIOTA À BRASILEIRA!


Ele fura fila. Ele estaciona atravessado.
Acha que pertence a uma casta privilegiada. Anda de metrô – mas só no exterior.
Conheça o PIB (Perfeito Idiota Brasileiro). E entenda como ele mantém puxado o freio de mão do nosso país.
 
Ele não faz trabalhos domésticos. Não tem gosto nem respeito por trabalhos manuais. Se puder, atrapalha o trabalho de quem pega no pesado. Trata-se de uma tradição lusitana, ibérica, que vem sendo reproduzida aqui na colônia desde os tempos em que os negros carregavam em barris, nas costas, a toilete dos seus proprietários, e eram chamados de “tigres” – porque os excrementos lhes caíam sobre as costas, formando listras. O Perfeito Idiota Brasileiro, ou PIB, também não ajuda em casa por influência da mamãe, que nunca deixou que ele participasse das tarefas – nem mesmo por ou tirar uma mesa, nem mesmo arrumar a própria cama. Ele atira suas coisas pela casa, no chão, em qualquer lugar, e as deixa lá, pelo caminho. Não é com ele. Ele foi criado irresponsável e inconsequente. É o tipo de cara que pede um copo d’água deitado no sofá. E não faz nenhuma questão de mudar. O PIB é um especialista em não fazer, em fazer de conta, em empurrar com a barriga, em se fazer de morto. Ele sabe que alguém fará por ele. Então ele se desenvolveu um sujeito preguiçoso. Folgado. Que se escora nos outros, não reconhece obrigações e que adora levar vantagem. Esse é o seu esporte predileto – transformar quem o cerca em seus otários particulares.

O tempo do Perfeito Idiota Brasileiro vale mais que o das demais pessoas. É a mãe que fura a fila de carros no colégio dos filhos. É a moça que estaciona em vaga para deficientes ou para idosos no shopping. É o casal que atrasa uma hora num jantar com os amigos. A lei e as regras só valem para os outros. O PIB não aceita restrições. Para ele, só privilégios e prerrogativas. Um direito divino – porque ele é melhor que todos os outros. É um adepto do vale tudo social, do cada um por si e do seja o que Deus quiser. Só tem olhos para o próprio umbigo e os únicos interesses válidos são os seus.

O PIB é o parâmetro de tudo. Quanto mais alguém for diferente dele, mais errado esse alguém estará. Ele tem preconceito contra pretos, pardos, pobres, nordestinos, baixos, gordos, gente do interior, gente que mora longe. E ele é sexista para caramba. Mesma lógica: quem não é da sua tribo, do seu quintal, é torto. E às vezes até quem é da tribo entra na moenda dos seus pré-julgamentos e da sua maledicência. A discriminação também é um jeito de você se tornar externo, e oposto, a um padrão que reconhece em si, mas de que não gosta. É quando o narigudo se insurge contra narizes grandes. O PIB adora isso.

O PIB anda de metrô. Em Paris. Ou em Manhattan. Até em Buenos Aires ele encara. Aqui, nem a pau. Melhor uma hora de trânsito e R$ 25 de estacionamento do que 15 minutos com a galera no vagão. É que o Perfeito Idiota tem um medo bizarro de parecer pobre. E o modo mais direto de não parecer pobre é evitar ambientes em que ele possa ser confundido com um despossuído qualquer. Daí a fobia do PIB por qualquer forma de transporte coletivo.

Outro modo de nunca parecer pobre é pagar caro. O PIB adora pagar caro. Faz questão. Não apenas porque, para ele, caro é sinônimo de bom. Mas, principalmente, porque caro é sinônimo de “cheguei lá” e “eu posso”. O sujeito acha que reclamar dos preços, ou discuti-los, ou pechinchar, ou buscar ofertas, é coisa de pobre. E exibe marcas como penduricalhos numa árvore de natal. É assim que se mostra para os outros. Se pudesse, deixaria as etiquetas presas ao que veste e carrega. O PIB compra para se afirmar. Essa é a sua religião. E ele não se importa em ficar no vermelho – preocupação com ter as contas em dia, afinal é coisa de pobre.

O PIB é cleptomaníaco. Sua obsessão por ter, e sua mania de locupletação material, lhe fazem roubar roupão de hotel e garrafinha de bebida do avião e amostra grátis de perfume em loja de departamento. Ele pega qualquer produto que esteja sendo ofertado numa degustação no supermercado. Mesmo que não goste daquilo. O PIB gosta de pagar caro, mas ama uma boca-livre.

E o PIB detesta ler. Então este texto é inútil, já que dificilmente chegará às mãos de um Perfeito Idiota Brasileiro legítimo, certo? Errado. Qualquer um de nós corre o risco de se comportar assim. O Perfeito Idiota é muito mais um software do que um hardware, muito mais um sistema ético do que um determinado grupo de pessoas.

Um sistema ético que, infelizmente, virou a cara do Brasil. Ele está na atitude da magistrada que bloqueou, no bairro do Humaitá, no Rio, um trecho de calçada em frente à sua casa, para poder manobrar o carro. Ele está no uso descarado dos acostamentos nas estradas. E está, principalmente, na luz amarela do semáforo. No Brasil, ela é um sinal para avançar, que ainda dá tempo – enquanto no Japão, por exemplo, é um sinal para parar, que não dá mais tempo. Nada traduz melhor nossa sanha por avançar sobre o outro, sobre o espaço do outro, sobre o tempo do outro. Parar no amarelo significaria oferecer a sua contribuição individual em nome da coletividade. E isso o PIB prefere morrer antes de fazer.

Na verdade, basta um teste simples para identificar outras atitudes que definem o PIB: liste as coisas que você teria que fazer se saísse do Brasil hoje para morar em Berlim ou em Toronto ou em Sidney. Lavar a própria roupa, arrumar a própria casa. Usar o transporte público. Respeitar a faixa de pedestres, tanto a pé quanto atrás de um volante. Esperar a sua vez. Compreender que as leis são feitas para todos, inclusive para você. Aceitar que todos os cidadãos têm os mesmos direitos e os mesmo deveres – não há cidadãos de primeira classe e excluídos. Não oferecer mimos que possam ser confundidos com propina. Não manter um caixa dois que lhe permita burlar o fisco. Entender que a coisa pública é de todos – e não uma terra de ninguém à sua disposição para fincar o garfo. Ser honesto, ser justo, não atrasar mais do que gostaria que atrasassem com você. Se algum desses códigos sociais lhe parecer alienígena em algum momento, cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus do PIB. Reaja, porque enquanto não erradicarmos esse mal nunca vamos ser uma sociedade para valer.
 

Adriano Silva (Jornalista) Fonte: Revista SUPERINTERESSANTE – Edição 335 – Julho/2014 – Pgs. 24-25. Edição impressa.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Dever ou deveres?

O aluno não fez o dever de geografia ou... O aluno não fez os deveres de geografia?



Bons dicionários registram diferenças semânticas entre esses dois vocábulos:

s.m.: DEVER = OBRIGAÇÃO
s. m. no plural: DEVERES = TAREFAS (Usado sempre no plural)

Portanto, o recomendado pela gramática normativa é:

O aluno não fez os deveres de geografia.
Não fiz os deveres de matemática.
O professor deixou deveres de casa para amanhã?

Já o vocábulo DEVER deve ser usado nos seguintes contextos:

É dever de todo cidadão respeitar as leis.
O dever dos pais é proteger os filhos.
Disponibilizar educação de qualidade é dever do estado.

Por que a maioria dos dicionários não registra essa sutil diferença? Porque a diferença é muito sutil, (rsrsrsrsrs) e aí, como acontece em muitos outros casos, os falantes não dão muita importância para a diferença e acabam unificando os dois sentidos no vocábulo que caiu no gosto da maioria.

Uma dica prática para clarear a distinção:

Deveres (tarefas) se fazem.
Dever (obrigação) se cumpre.




Fonte: Pegadinhas da Língua Portuguesa. São Paulo: Case Editorial, p. 24.
 
 
Ita Est.
Prof. Zanon
 


Muito oportuno!

 

ORLANDELI. Educação. In: PASQUALE e ULISSES. Gramática da Língua Portuguesa. São Paulo: Scipione, 2008, p. 202.

sábado, 23 de agosto de 2014

Mudanças radicais na ortografia da Língua Portuguesa conforme noticiadas não procedem.




Alguns veículos de comunicação têm noticiado uma nova mudança radical na ortografia da língua portuguesa, mudança que pretende abolir, entre outras coisas, o “ch”, o “ss” e o “ç”. Mas, por meio de nota oficial, o senador Cyro Miranda (PSDB-GO), presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, afirma que essas informações não procedem. Foi apenas um mal-entendido.

Segundo Miranda, a comissão aprovou, no dia 1.º de outubro de 2013, a criação de um Grupo de Trabalho destinado a propor a unificação ortográfica da língua portuguesa, conforme acordo já firmado em 1990. Esse Acordo deveria ter entrado em vigor em 1º de janeiro de 2013, mas o início da vigência foi adiado para janeiro de 2016, por decreto da presidente Dilma Rousseff.  

A proposta de abolição do “ç”, “ch” e “ss” foi cogitada pelo professor Ernani Pimentel, mas trata-se de uma ideia que deverá ser discutida e amadurecida antes de ser levada ao conhecimento do senado federal.

Para maiores esclarecimentos, queiram ler:




Ita est!
Prof. Zanon

À vista ou A vista?

Observe as placas abaixo:





 
 
A expressão A VISTA aparece em todos esses cartazes, mesmo em propagandas de grifes famosas e anúncio de filmes com o acento grave, indicador de crase. Mas essa expressão não admite o acento grave indicador de crase simplesmente porque não ocorre crase nesse caso.
 
Na expressão A VISTA não pode haver crase uma vez que esse A é meramente uma preposição. Não existe o artigo A para fundir com a preposição A.
 
Basta comparar com a expressão A PRAZO. Note que aparece apenas a preposição A. Se a expressão exigisse um artigo, neste caso apareceria o artigo masculino O, e a expressão ficaria assim: AO PRAZO. Mas não existe o artigo, apenas a preposição; e o mesmo ocorre com a expressão análoga A VISTA. Logo, devemos grafá-la sem o acento grave.
 
Comprou os calçados a vista.
10% de desconto para pagamento a vista.
Só vendemos a vista.
Não vendemos a prazo, somente a vista.
 
Ita est!
Prof. Zanon  

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

VEM ou VENHA pra Caixa você também?

Quem não se lembra do famoso jingle:

 

O jingle grudou como chiclete, mas poucos perceberam o equívoco no uso do subjuntivo. O certo é VENHA. A 3ª pessoa (você) deriva do presente do subjuntivo: "que você venha", "venha você". A 2ª pessoa (tu) deriva do presente do indicativo com a supressão do "S" (tu vens - vem tu).

A gramática normativa não permite a mistura de tratamentos, 2ª e 3ª; tu e você.

Então, o jingle pode ser corrigido de duas maneiras. Ou usamos a 3ª pessoa:

"VENHA PARA CAIXA VOCÊ TAMBÉM";

ou usamos a 2ª pessoa:

"VEM PARA CAIXA TU TAMBÉM".

De qualquer forma, muitos atenderam ao apelo da propaganda:



Ita est!
Prof. Zanon

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Perguntas para Deus!

Ao trabalhar o gênero textual ENTREVISTA com meus alunos do 7º ano B, que têm entre 11 e 12 anos de idade, propus que eles fizessem uma entrevista com Deus. Cada aluno poderia fazer três perguntas para Deus. As perguntas elaboradas por eles foram:



1 - Existe mesmo céu e inferno?
2 - O Senhor atende as preces do mundo inteiro? Se sim, como consegue fazer isso?
3 - O Senhor tem os mesmos hábitos que os humanos? Por exemplo: come, dorme, vai ao banheiro etc.?
4 - Se o Senhor é tão poderoso porque existe tanta desigualdade no mundo?
5 - Por que o Senhor inventou (criou) o ser-humano?
6 - O que as pessoas podem fazer para serem pessoas melhores?
7 - Como saber exatamente o que é certo e o que é errado?
8 - Como ajudar as pessoas sem prejudicar outras?
9 - Um dia o mundo vai acabar? Se sim, poderia dizer quando?
10 - Por que o Senhor não tira o pecado do mundo?
11 - Se o Senhor nos ama tanto ao ponto de sacrificar o seu filho, por que permite que as coisas más continuem acontecendo?
12 - As pessoas que não acreditam no Senhor mas praticam o bem: vão para o céu ou para o inferno?
13 - Por quanto tempo nós ficaremos na Terra?
14 - Qual é o fim da raça humana?
15 - Foi difícil sacrificar a vida de seu filho por nós?
16 - O Senhor realmente gosta de ser nosso criador?
17 - Qual é a sensação de cuidar do Universo inteiro?
18 - Por que nem todos podem ter uma família maravilhosa?
19 - Por que nem todos são felizes?
20 - De onde o senhor veio?
21 - Se o Senhor está no coração das pessoas, porque muita gente segue o mau caminho?
22 - Se o Senhor criou o bem, quem criou o mal?
23 - Se o Senhor nos criou à sua semelhança, por que existem pessoas do mal?
24 - De onde viemos?
25 - Como o Senhor criou o mundo?
26 - Existe reencarnação?
27 - Por que Senhor deixa as pessoas morrerem? Por que não as cura de suas doenças?
28 - Até aonde vai a inteligência humana?
29 - É verdade que São Pedro controla o tempo?
30 - Até aonde irá a tecnologia?
31 - Por que o Senhor deixa as pessoas passarem fome no mundo?
32 - Somos nós que fazemos o nosso destino ou é o Senhor que o controla?
33 - De onde veio esse apelido Deus? Seu nome não era Javé?




domingo, 15 de junho de 2014

Falácias - O que são? Como reconhecê-las?


Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho na capacidade de provar eficazmente o que se alega.

Argumentos que se destinam à persuasão podem parecer convincentes para grande parte do público apesar de conterem falácias, mas não deixam de ser falsos por causa disso.

Reconhecer as falácias é por vezes difícil!

Os argumentos falaciosos podem ter validade emocional, íntima, psicológica, mas não validade lógica.

É importante conhecer os tipos de falácia para evitar armadilhas lógicas na própria argumentação e para analisar a argumentação alheia.

É importante observar que o simples fato de alguém cometer uma falácia não invalida toda a sua argumentação.

Ninguém pode dizer:

"Li um livro de Rousseau, mas ele cometeu uma falácia, então todo o seu pensamento deve estar errado".

A falácia invalida imediatamente o argumento no qual ela ocorre, o que significa que só esse argumento específico será descartado da argumentação, mas pode haver outros argumentos que tenham sucesso.

Por exemplo, se alguém diz:

"O fogo é quente e sei disso por dois motivos”:

1. ele é vermelho;

2. Medi sua temperatura com um “termômetro".

A premissa 1 deve ser descartada, pois é falaciosa, mas a argumentação não está de todo destruída, em virtude da premissa 2.



Tipologia das falácias:


1)- Falácia do Acidente:

Quando se considera essencial o que é apenas acidental.

Ex.: “A maior parte dos políticos são corruptos. Então a política é corrupta.”

2)- Falácia Inversão do acidente:

Tomar uma exceção como regra.

Ex.: Se deixarmos os doentes terminais usarem heroína, devemos deixar todos usá-la.

3)- Falácia da Afirmação do consequente:

Essa falácia ocorre quando se tenta construir um argumento condicional que não está nem do modus ponens (afirmação do antecedente) nem do modus tollens (negação do consequente). A sua forma categórica é:

Se A, então B.
B, então A.

Ex.: Se há carros, então há poluição. Há poluição. Logo, há carros.

Carros é uma causa necessária para poluição, não a única causa.

4)- Falácia da Negação do antecedente:

Essa falácia ocorre quando se tenta construir um argumento condicional que não está nem do modus ponens (afirmação do antecedente) nem do modus tollens (negação do consequente). A sua forma categórica é:

Se A, então B.

Não A    
   
Então não B.

Ex.: Se há carros, então há poluição. Não há carros. Logo, não há poluição.

Carros, como já foi provado, são uma causa necessária para poluição, não a única causa.

5)- Falácia da Anfibologia ou ambiguidade:

Ocorre quando as premissas usadas no argumento são ambíguas devido à má elaboração sintática.

Ex.:
1.    Venceu o Brasil a Argentina.
2.    Ele levou o pai ao médico em seu carro.

Quem venceu? Carro de quem?

6)- Falácia do Apelo à autoridade anônima:

Fazer afirmações recorrendo a autoridades sem citar a fonte.

Ex.: “Os peritos” dizem que a melhor maneira de prevenir uma guerra nuclear é estar preparado para ela.

Que peritos?

7)- Falácia do Apelo à emoção:

Recorrer à emoção para validar o argumento.

Ex.: Apelo ao júri para que contemple a condição do réu: Um homem pobre e sofrido que agora passa pelo transtorno de ser julgado em tribunal.

8)- Falácia do Apelo à novidade:

Argumentar que o novo é sempre melhor.

Ex.: Na filosofia, Sócrates já está ultrapassado. É melhor Sartre, pois é mais recente.

9)- Falácia do Apelo à vaidade:

Provocar a vaidade do oponente para vencê-lo.

Ex.: Não acredito que uma pessoa culta como você acredita nisto...

10)- Falácia do Apelo ao preconceito:

Associar valores morais a uma pessoa ou coisa para convencer o adversário.

Ex.: Uma pessoa religiosa como você não é capaz de argumentar racionalmente comigo.

A pessoa e não o argumento é estigmatizada, e o argumento em si não é refutado.

11)- Falácia do Apelo ao ridículo:

Ridicularizar um argumento como forma de derrubá-lo.

Ex.: Se as teorias da evolução e Criação fossem verdadeiras, significaria que o seu tataravô seria um gorila, e os jarros de barro nossos parentes...

12)- Falácia do Apelo à antiguidade ou tradição:

Afirmar que algo é verdadeiro ou bom porque é antigo ou "sempre foi assim".

Ex.: Se o meu avô diz que Garrincha foi melhor que Pelé, e que a Maçonaria é coisa totalmente boa, deve ser verdade.

13)- Falácia do Apelo à força:

Utilização de algum tipo de privilégio, força, poder ou ameaça para impor a conclusão.

Ex.: Acredite no que eu digo, e não se esqueça de quem é que paga o seu salário, portanto, saiba com quem está falando...

14)- Falácia do Apelo à consequência:

Considerar uma premissa verdadeira ou falsa conforme sua consequência desejada.

Exemplos:

1.    Se Deus existe, então temos direito à vida eterna. Cobiçamos a vida eterna. Então Deus existe, e nem tudo é permitido.

2.    Se Deus não existe, não precisamos temer punições no pós-vida. Não cobiçamos penas no pós-vida. Então, Deus não existe, portanto, tudo é permitido.

Nestes dois exemplos a premissa é válida apenas porque a conclusão nos agrada de forma pessoal.

15)- Falácia do Apelo à riqueza:

Essa falácia é a de acreditar que dinheiro é fator de estar correto. Aqueles mais ricos são os que provavelmente estão certos.

Ex.: O Barão é um homem vivido e conhece como as coisas funcionam. Se ele diz que é bom, há de ser.

16)- Falácia do Ataque ao argumentador:

Em vez de o argumentador provar a falsidade do enunciado, ele ataca a pessoa que fez o enunciado.

Ex.: Se foi um burguês quem disse isso, certamente é engodo.

17)- Falácia do Apelo à ignorância:

Tentar provar algo a partir da ignorância quanto à sua validade.

Ex.: Ninguém conseguiu provar que Deus não existe, logo ele existe.

18)- Falácia do Argumentum ad lapidem:

Desqualificar uma afirmação como absurda, mas sem provas.

Ex.: João, ministro da educação, é acusado de corrupção e defende-se dizendo: 'Esta acusação é um disparate, e intriga infunda da oposição’

Baseado em quê?

19)- Falácia do Apelo à pobreza – (Oposto ao ad Crumenam):

Essa é a falácia de assumir que, apenas porque alguém é mais pobre, então é mais virtuoso e verdadeiro.

Ex.: Joãozinho é pobre e deve ter sofrido muito na vida. Se ele diz que isso é uma inverdade, eu acredito.

20) Falácia do Apelo ao medo:

Apelar ao medo para validar o argumento.

Ex.: Vote no candidato tal, pois se o candidato adversário vencer vai trazer a ditadura e todas as mazelas de volta.

21)- Falácia do Apelo à misericórdia:

Consiste no recurso à piedade ou a sentimentos relacionados, tais como solidariedade e compaixão, para que a conclusão seja aceita, embora a piedade não esteja relacionada com o assunto ou com a conclusão do argumento. Do argumento ad misericordiam deriva oargumentum ad infantium.

Exemplo:

"Faça isso pelas crianças". 

A emoção é usada para persuadir as pessoas a apoiar (ou intimidá-las a rejeitar) um argumento com base na emoção, mais do que em evidências ou razões.

22)- Falácia da Repetição nauseante:

É a aplicação da repetição constante e a crença incorreta de que, quanto mais se diz algo, mais correto está.

Ex.: Se Joãozinho diz tanto que sua ex-namorada é uma mentirosa, então ela é.

23)- Falácia do Apelo ao povo ou à maioria:

É a tentativa de ganhar a causa por apelar a uma grande quantidade de pessoas.

Ex.: A maioria o elegeu, portanto, é porque ele (a) é incorruptível.

24)- Falácia do Apelo à temperança:

Recorrer ao meio-termo sem razão.

Ex.: Não temos relógio, mas alguns estão dizendo que são dez horas e outros dizem que são seis horas, então é mais acertado supor que são oito horas.

25)- Falácia do Apelo à autoridade ou Magister dixit (Meu mestre disse):

Argumentação baseada no apelo a alguma autoridade reconhecida para comprovar a premissa.

Ex.: Se Aristóteles disse isto, então é verdade incontestável.

26)- Falácia do Argumentum verbosium (prova por verbosidade):

Tentativa de esmagar os envolvidos pelo discurso prolixo, apresentando um enorme volume de material. Superficialmente, o argumento parece plausível e bem pesquisado, mas é tão trabalhoso desembaraçar e verificar cada fato comprobatório que pode acabar por ser aceite sem ser contestado.

27)- Falácia da Bola de neve:

Elaborar uma sucessão de premissas e conclusões que conduzem ao absurdo.

Ex.: Se aprovarmos leis contra as armas automáticas, não demorará muito até aprovarmos leis contra todas as armas e então começaremos a restringir todos os nossos direitos. Acabaremos por viver num estado totalitário. Portanto não devemos banir as armas automáticas.

28)- Falácia do Bulverismo:

Argumentar partindo do pressuposto de que o oponente já está comprovadamente errado.

Exemplos:

1.    Você está dizendo que a Bíblia é correta? Nem vou discutir com você, parei. Sabemos que a ciência comprovadamente explica tudo corretamente e sem falhas, a bíblia não,

2.    Se você não acredita que a Bíblia é infalível, já perdeu o argumento, pois é óbvio que ela é.

Nos dois exemplos acima,é mero egocentrismo ideológico.

29)- Falácia da Causa complexa:

Supervalorizar uma única causa quando há várias, ou um sistema de causas.

Exemplos:

1.O acidente não teria ocorrido se não fosse a má localização do arbusto.

2.Ao longo da história da humanidade,houveram muitas guerras por causa de religião, portanto, se não houvessem religiões, não haveria guerras e o mundo viveria em Paz.

Houve muitas outras causas envolvidas no acidente e nas guerras.

30)- Falácia da Causa diminuta:

Apontar uma causa irrelevante.

Ex.: Fumar causa a poluição do ar em Edmonton.

Ora,a causa maior é a poluição industrial e dos automóveis e não de cigarros.

31)- Falácia do Complexo do pombo enxadrista:

Proclamar vitória, dando a entender que venceu a discussão, sem ter conseguido realmente apresentar bons argumentos que refutassem o adversário.

32)- Falácia da Conclusão irrelevante:

Obter uma conclusão com que nem todos concordam.

Ex.: A lei deve estipular um sistema de cotas nas eleições para que as mulheres possam ocupar mais cargos políticos. Os cargos são dominados por homens e não fazer algo para mudar essa situação é inaceitável. Necessitamos de uma sociedade mais igualitária.

33)- Falácia da Definição circular:

Definir um termo usando o próprio termo que está sendo definido.

Ex.: A Bíblia é a Palavra de Deus porque ela diz que é.

34)- Falácia da Definição contraditória:

Definir algo com termos que se contradizem.

Ex.: O ditador que diz: Para serem livres, submetam-se a mim.

35)- Falácia da Definição muito ampla:

Ex.: Uma maçã é um objeto vermelho e redondo.O planeta Marte também é vermelho e redondo, portando, ambos são muito semelhantes.

36)- Falácia da Definição muito restrita:

Ex.: Uma maçã é um objeto vermelho e redondo.Há maçãs que não são vermelhas,portanto, a maçãs não são semelhantes.

37)- Falácia da Definição obscura:

Definir algo em termos imprecisos ou incompreensíveis.

Ex.: Vida é a borboleta sublime que bate suas asas dentro de nós.

38)- Falácia do Argumento das lacunas:

Responder a questões sem solução com explicações sobrenaturais, e ou, que não podem ser comprovadas.

Exemplos:

1.Os passageiros do avião sobreviveram porque Deus interveio no acidente.

2.Se Deus é bom é permite o mal e o sofrimento, então, ou Ele é mal, ou não existe.

39)- Falácia do Dicto simpliciter (regra geral):

Ocorre quando uma regra geral é aplicada a um caso particular onde a regra não deveria ser aplicada.

Ex.: Se você matou alguém, deve ir para a cadeia.

Não se aplica a certos casos, quando há legítima defesa, ou não houve intenção de matar.

40)- Falácia da Generalização apressada (falsa indução):

É o oposto do Dicto simpliciter. Ocorre quando uma regra específica é atribuída ao caso genérico - (Do particular para o Universal):

Ex.: Minha namorada me traiu. Logo, as mulheres tendem à traição.

41)- Falácia da Distorção de fatos:

Mascarar os verdadeiros fatos.

Ex.: O segredo da minha beleza é tomar um copo de água todas as manhãs.

É pura omissão de informação.

42)- Falácia do Egocentrismo ideológico:

Realizar um argumento de forma parcial e tendenciosa.

Ex.: O comunismo é o ideal, pois Trotsky disse que...

43)- Falácia da Ênfase:

Acentuar uma palavra para sugerir o contrário.

Ex.: Hoje o capitão estava sóbrio (sugerindo embriaguês).

44)- Falácia do Equívoco:

Usar uma afirmação com significado diferente do que seria apropriado ao contexto.

Ex.: Os assassinos de crianças são desumanos. Portanto,humanos não matam crianças.

Joga-se com os significados das palavras, neste caso: humanos.

45)- Falácia do Estilo sem substância:

Validar um argumento por sua beleza estética ou pela elegância do argumentador.

Ex.: Hitler sabe dirigir as massas. Ele deve ter razão no que fala.

46)- Falácia da Evidência anedótica:

Refere-se a uma evidência informal na forma de anedota (conto, episódio, derivado do grego anékdota, significando 'coisas não publicadas'), ou de "ouvir falar". A evidência anedótica é chamada de testemunho.

Ex.: “Há provas abundantes de que os Extras Terrestres existem. Na semana passada, li sobre uma pessoa que teve um contato de primeiro grau com um deles, e vi pelas suas palavras e expressões que seu testemunho era verdadeiro.”

47)- Falácia da Explicação incompleta:

Ex.: As pessoas tornam-se esquizofrênicas porque as diferentes partes dos seus cérebros funcionam separadas.

Baseado em que ?

48)- Falácia da Explicação superficial:

Usar classificações para tirar conclusões.

Ex.: A minha gata Elisa gosta de atum porque toda gata gosta de Atum.

49)- Falácia da Expulsão do Grupo (falácia do escocês):

Fazer uma afirmação sobre uma característica de um grupo e, quando confrontado com um exemplo contrário, afirmar que este exemplo não pertence realmente ao grupo.

Ex.:

- Nenhum escocês coloca açúcar em seu mingau.
- Ora, eu tenho um amigo escocês que faz isso.
- Ah, sim, mas nenhum escocês de verdade coloca.

50)- Falácia da divisão (tomar a parte pelo todo):

Oposto da falácia de composição. Supõe que uma propriedade do todo é aplicada a cada parte.

Ex.: Você deve ser rico, pois estuda em um colégio de ricos.

A pessoa pode simplesmente ter conseguido uma bolsa de estudos.

51)- Falácia da Falácia da pressuposição negativa:

Consiste na inclusão de uma pressuposição que não foi previamente esclarecida como verdadeira, ou seja, na falta de uma premissa.

Ex.: Você já parou de bater na sua esposa?

É uma pergunta maliciosa.

52)- Falácia do espantalho Proselitista:

Consiste em criar ideias reprováveis ou fracas, atribuindo-as à posição oposta.

Exemplos:

1.    Deveríamos abolir todas as religiões do mundo. Só assim haveria paz verdadeira.

2.    Meu adversário, por ser de um partido de direita não é confiável, pois  todos que são da direita são a favor do Liberalismo, privatização, do Capitalismo Selvagem, e não tem escrúpulos, pois para eles os fins justificam os meios.

O outro é convertido num monstro, um espantalho, para angariar as simpatias dos demais eleitores em seu favor.

53)- Falácia genética:

Consiste em aprovar ou desaprovar algo baseando-se unicamente em sua origem.

Ex.: Você gosta de chocolate porque seu antepassado do século XVIII também gostava.
Aponta-se a causa remota como o fator de validade presente.

54)- Falácia nomotética:

Consiste na crença de que uma questão pode ser resolvida simplesmente dando-lhe um novo nome, quando na realidade, a questão permanece sem solução.

55)- Falácia non causae ut causae (falácia da falsa proclamação de vitória ou tratar como prova o que não é prova):

Consiste na declaração de vitória, servindo-se de respostas fracas ou incompletamente respondidas pelo adversário, quando efetivamente os argumentos próprios não provaram logicamente a posição. É semelhante à do pombo enxadrista.

56)- Falácias tipo "A" baseado em "B" (outro tipo de conclusão sofismática):

Ocorrem dois fatos. São colocados como similares por serem derivados ou similares a um terceiro fato.

Ex.:
1.    O islamismo é baseado na fé.
2.    O cristianismo é baseado na fé.
3.    Logo, o islamismo é similar ao cristianismo.

É uma falsa aplicação do princípio do silogismo.

57)- Falácia da Falsa causa:

Afirma que, apenas porque dois eventos ocorreram juntos, eles estão relacionados.

Ex: Nota-se uma maior frequência de erros de português em sala de aula desde o início das redes sociais e o uso do internetês. O advento das redes sociais vem degenerando o uso do português correto.

Falta mostrar com fatos e dados uma pesquisa que o comprove.


58)- Falácia da Falsa dicotomia (bifurcação):

Também conhecida como falácia do branco e preto ou do falso dilema. Ocorre quando alguém apresenta uma situação com apenas duas alternativas, quando de fato outras alternativas existem ou podem existir.

Ex.: Se você não é de Esquerda, e não acredita em Deus,então não presta,e não é confiável politicamente.

Política e religião não define caráter

59)- Falácia da Ignoratio elenchi (conclusão sofismática) ou falácia da conclusão irrelevante:

Consiste em utilizar argumentos que podem ser válidos para chegar a uma conclusão que não tem relação alguma com os argumentos utilizados.

Ex.: Os astronautas do Projeto Apollo eram bem preparados, todos eram excelentes aviadores e tinham boa formação acadêmica e intelectual, além de apresentarem boas condições físicas. Logo, foi um processo natural os EUA ganharem a corrida espacial contra a União Soviética, pois o povo americano é superior ao povo russo.

As premissas são verdadeiras, porém, a conclusão é discutível.

60)- Falácia da Invenção de fatos:

Consiste em mentir ou formular informações imprecisas.
Ex.: Segundo os Ocidentais, a causa da gripe é o consumo do arroz vindo do Oriente.

61)- Falácia da Inversão de causa e efeito:

Considerar um efeito como uma causa.
Ex.: A propagação da  A I D S  foi provocada pela educação sexual.

62)- Falácia do Inversão do ônus da prova:

Quando o argumentador transfere ao seu opositor a responsabilidade de comprovar o argumento contrário, eximindo-se de provar a base do seu argumento(É sair pela tangente).

Lembrando que o ônus da prova inicial cabe sempre a quem faz a afirmação primeira (Tanto afirmando como Negando), pois ninguém pode afirmar ou negar que é inocente ou culpado, sem que prove sua afirmação.

Exemplos:

1.Deus existe, porque  ninguém consegue provar que Ele não existe.

No caso 1 acima, o ônus da prova recairá sobre quem fez primeiramente a afirmação de que Deus existe.

2.Deus não existe,porque ninguém consegue provar que Ele existe.

No caso 2 acima, o ônus da prova recairá sobre quem fez primeiramente a afirmação de que Deus não existe.

Ausência de evidência não significa evidência de ausência, no entanto, o ônus da prova permanece atrelado a quem afirma primeiramente e categoricamente que Deus existe ou não.

63)- Falácia da Pergunta indutiva:

Insinuação por meio de pergunta.

Ex.: Apoias a liberdade e o direito de andar armado?

São duas perguntas numa só.

64)- Falácia do Plurium interrogationum:

Ocorre quando se exige uma resposta simples a uma questão complexa.

Ex.: O que faremos com esse criminoso? Matar ou prender?
É um falso dilema.

65)- Falácia simplista do Depois disso, por causa disso:

Consiste em dizer que, pelo simples fato de um evento ter ocorrido logo após o outro, eles têm uma relação de causa e efeito. Porém,correlação não implica causalidade.

Ex.: O Japão rendeu-se logo após a utilização das bombas atômicas por parte dos EUA. Portanto, a paz foi alcançada devido à utilização das armas nucleares.

66) Falácia do Red Herring:

Falácia cometida quando material irrelevante é introduzido no assunto discutido para desviar a atenção e chegar a uma conclusão diferente.

Ex.: Será que o palhaço é o assassino? No ano passado, um palhaço matou uma criança.

67)- Falácia da Redução ao absurdo:

Consiste em averiguar uma hipótese, chegando a um resultado absurdo, para depois tentar invalidar essa hipótese.É um jogo de raciocínios para tentar fazer o primeiro contraditório.

Exemplos:
1.Você deveria respeitar a crença de C porque todas as crenças são de igual validade e não podem ser negadas.

2.Eu recuso que todas as crenças sejam de igual validade. De acordo com sua declaração, essa minha crença é válida, como todas as outras crenças. Contudo, sua afirmação também contradiz e invalida a minha, sendo exatamente o oposto dela.

O outro caiu em contradição.

68)- Falácia da Redução ao nazismo:

Invalidar um argumento pela comparação com Hitler ou o nazismo.

Ex.: Hitler acreditava em Deus, então os religiosos não devem ser boas pessoas.

69)- Falácia da Terceira causa:

Ignorar a existência de uma terceira causa não levada em conta nas premissas.
Ex.: Estamos vivendo uma fase de elevado desemprego, que é provocado por um baixo consumo.

Há uma causa tanto para o desemprego como para o baixo consumo.


Pôster: Disponível em: http://herdeirodeaecio.blogspot.com.br/2012/10/falacias.html. Acessado em 15.06.14 às 17h34.
Texto: Disponível em: http://berakash.blogspot.com.br/2012/01/falacias-e-tipos-de-argumentos-mais_21.html. Acessado em 15.06.14 às 17h55.

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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.