domingo, 16 de fevereiro de 2014

Liberdade, ainda que tardia!





Quero dos Deuses só que me não Lembrem

Ricardo Reis



Quero dos deuses só que me não lembrem.  
Serei livre sem dita nem desdita,  
Como o vento que é a vida 
Do ar que não é nada.  
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,  
Cada um com seu modo, nos oprimem.  
A quem deuses concedem  Nada, tem liberdade.







Quem nos Ama não Menos nos Limita
Ricardo Reis




Não só quem nos odeia ou nos inveja  
Nos limita e oprime; quem nos ama  
Não menos nos limita.  
Que os deuses me concedam que, 
despido de afetos, tenha a fria liberdade  
Dos píncaros sem nada.  
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada  
É livre; quem não tem, e não deseja,   
Homem, é igual aos deuses.









Há momentos infelizes em que a solidão e o silêncio se tornam meios de liberdade.



Paul Valéry







Estou esperando!



Perdi o irrelevante, conquistei o fundamental.



Um erro!



Prosa poética de Guimarães Rosa





Quando escrevo...
“Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens.”

Todo caminho...
“Todo caminho da gente é resvaloso. Mas também, cair não prejudica demais A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!... O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, Sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, E ainda mais alegre no meio da tristeza...”

Qualquer amor...
“Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente - o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

Olhar para trás...
“Olhar para trás após uma longa caminhada pode fazer perder a noção da distância que percorremos, mas se nos detivermos em nossa imagem, quando a iniciamos e ao término, certamente nos lembraremos o quanto nos custou chegar até o ponto final, e hoje temos a impressão de que tudo começou ontem. Não somos os mesmos, mas sabemos mais uns dos outros. E é por esse motivo que dizer adeus se torna complicado! Digamos então que nada se perderá. Pelo menos dentro da gente...”

Sempre sei...
“Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só - a inteira - cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber?”

Este mundo é muito misturado...
“Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? Este mundo é muito misturado.”

Como não ter Deus?...
“Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possí¬vel, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar, é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo.”

Estou só...
“Eu estou só.
O gato está só.
As árvores estão sós.
Mas não o só da solidão: o só da solistência.”

Consciência cósmica...

“Já não é preciso de rir. Os dedos longos do medo largaram minha fronte. E as vagas do sofrimento me arrastaram para o centro remoinho da grande força, que agora flui, feroz, dentro e fora de mim... Já não tenho medo de escalar os cimos onde o ar limpo e fino pesa para fora, e nem de deixar escorrer a força dos meus músculos, e deitar-me na lama, o pensamento opiado... Deixo que o inevitável dance, ao meu redor, a dança das espadas de todos os momentos. E deveria rir, se me restasse o riso, das tormentas que pouparam as furnas da minha alma, dos desastres que erraram o alvo de meu corpo...”

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Motivo

de Cecília Meireles


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.





Canção de Outono

de Cecília Meireles






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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.