segunda-feira, 21 de abril de 2014

Canteiros, Fagner.

          Raimundo Fagner musicou belíssimos poemas. Para quem é apaixonado por literatura, ler poemas e depois ouvi-los melodiados por um músico talentoso amplia consideravelmente o prazer poético. Sempre soube que a música Canteiros, de Fagner; era baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles. Recentemente, um colega professor me disse que havia corrido na justiça uma ação movida pelas herdeiras de Meireles contra Fagner por plágio do poema Marcha. Surpreso, fui pesquisar o assunto. Encontrei no próprio website oficial de Fagner uma explicação detalhada do caso. Como a informação é fidedigna e de interesse para pesquisadores sérios, resolvi divulgá-la na íntegra. Copiei integralmente o texto, ipsis literis, tal qual se encontra em:



O CASO CECÍLIA MEIRELES

          Como sabemos, a história toda começou em 1973, com Raimundo Fagner gravando no elepê de estréia para a Philips a música Canteiros, até então creditada como sendo de sua autoria. Com poucas unidades vendidas, o disco de início não logrou nenhum sucesso comercial e foi tirado das prateleiras pouco tempo depois de lançado. Só que o estouro da música Revelação despertou a curiosidade de alguns radialistas que foram procurar as canções antigas e esquecidas de Raimundo Fagner. Encontraram Canteiros, começaram a tocar a música e descobriram ali um grande sucesso adormecido. Mas antes da música acontecer nacionalmente, ele já tinha dividido a parceria da letra com Cecília Meireles e inclusive divulgando-a em release de show, em 1977. No mesmo ano musicou o poema Epigrama No. 9, registrado no disco ''ORÓS''. E, novamente, em 1978, musicou Motivo, utilizando para fins comerciais alguns versos do poema na parte interna e na capa do elepê intitulado de ''EU CANTO''.
          No dia seis de novembro de 1979, Raimundo Fagner admitiu, ao ser interrogado no dia pelo Juiz Jaime Boente, na 16a. Vara Criminal, que ''sem tirar a beleza dos versos, procurou fazer uma adaptação à música'', reconhecendo o uso indevido do poema Marcha, de Cecília Meireles, na composição Canteiros, registrada na primeira edição do elepê ''MANERA FRU FRU, MANERA''. Para o Juiz Jaime Boente, Raimundo Fagner violou a lei de número 5.988/73 que regula os direitos autorais e com a agravante de plágio, nos artigos 184 e 185 do Código Penal. Eis, a título de curiosidade e comparação com a letra cantada por Raimundo Fagner, o poema ''Marcha'', original de Cecília Meireles:

''Quando penso no teu rosto, fecho os olhos de saudade
Tenho visto muita coisa, menos a felicidade
Soltam-se meus dedos tristes
dos sonhos claros que invento
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento

Gosto da minha palavra pelo sabor que me deste
Mesmo quando é linda, amarga
Como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo que tenho
entre o sol e o vento.
Meu vestido, minha música,
meu sonho, meu alimento.'' 

         Enquanto o processo das filhas de Cecília Meireles contra Raimundo Fagner corria na Justiça, o ano de 1979, ainda trouxe algumas ''boas surpresas'' para o cantor. Primeira: o elepê ''MANERA FRU FRU, MANERA'' foi relançado com Cavalo Ferro, do primeiro compacto duplo lançado em 1972, no lugar da faixa Canteiros. Segunda: apareceram suspeitas de que um outro poema musicado por Raimundo Fagner e registrado também no primeiro elepê não era de sua autoria. Em Sina (3a. faixa do lado ''B''), aparecem como autores da música Raimundo Fagner e Ricardo Bezerra. Mas na verdade, os quatro primeiros e os oito últimos versos da canção, pertencem ao poema ''O Vaquêro'', do poeta popular cearense Patativa do Assaré, e publicado pela Editora Vozes em 1977, no livro ''Cante Lá Que Eu Canto Cá''. Também a título de curiosidade e comparação com a letra cantada por Raimundo Fagner, eis o poema original de Patativa do Assaré, ''O Vaquêro'':

''Eu venho dêrne menino,
Dêrne munto pequenino,
Cumprindo o belo destino
Que me deu Nosso Senhô.
Eu nasci pra sê vaquêro,
Sou mais feliz brasilêro,
Eu não invejo dinhêro,
Nem diproma de dotô.

(...)

Tenho na vida um tesôro
Que vale mais de que ôro:
O meu liforme de coro,
Pernêra, chapéu, gibão.
Sou vaquêro destemido,
Dos fazendêro querido,
O meu grito é conhecido
Nos campo do meu sertão.

(...)

O dote de sê Vaquêro,
Resolvido marruêro,
Querido dos fazendêro
Do sertão do Ceará.
Não perciso maió gozo
Sou sertanejo ditoso,
O meu aboio sodoso
Faz quem tem amô chorá."


          Em 31 de agosto de 1983, o jornal ''O Globo'', do Rio de Janeiro, edição do dia 31 de agosto de 1983, destacou em letras garrafais: ''Caso Fagner: filhas de Cecília Meireles ganham na Justica''. O título da matéria referia-se a longa novela envolvendo as herdeiras da poetisa Cecília Meireles - Maria Fernanda Meireles Correa Dias, Maria Elvira Strang e Maria Matilde Correa Dias e o cantor Raimundo Fagner acusado de apropriação indébita e plágio de alguns versos do poema ''Marcha''. O processo contra Fagner se arrastava na Justiça desde novembro de 1979, quando o cantor realmente admitiu ter mexido nos versos do poema de Cecília Meireles adaptando-o para a concepção da música Canteiros. Em 1981, as herdeiras conseguiram condenar as gravadoras Polygram, Polystar, Polifar, as Edições Saturno e o cantor a pagar uma multa de Cr$ 101 mil cruzeiros por violação de direitos autorais. A CBS também foi acionada pela inclusão da música Motivo, no elepê ''QUEM VIVER CHORARÁ'', de 78. A gravadora CBS entrou em acordo e pagou a indenização, mas a Polygram não aceitou o mesmo e as herdeiras transferiram a ação contra a gravadora e das Varas Criminais para as Varas Cíveis. Mesmo depois de condenada, a gravadora Polygram decidiu recorrer ao Supremo Tribunal Federal alegando que a decisão judicial ''feria preceitos constitucionais''. Em cálculos aproximados, as herdeiras divulgaram que o valor da indenização ficaria entre Cr$ 60 e Cr$ 80 milhões de cruzeiros. A novela envolvendo o cantor Raimundo Fagner e a música Canteiros somente terminou em 1999, quando a gravadora Sony Music fez um acordo com as herdeiras da poetisa Cecília Meireles para a regravação da música, o que aconteceu em janeiro de 2000, em Fortaleza, no primeiro registro ao vivo das músicas do compositor cearense. O disco ''RAIMUNDO FAGNER - AO VIVO'', com Canteiros, foi lançado em fevereiro de 2000. Quanto a Sina, em 1997, a cantora Simone Guimarães creditou aos compositores Raimundo Fagner, Ricardo Bezerra e Patativa do Assaré a autoria da música em sua regravação no disco ''CIRANDEIRO''.

FAGNER, Raimundo. Disponível em: http://www.raimundofagner.com.br/cecilia_meireles.htm. Acessado em: 21 de abril de 2014, às 22h47.


Abaixo, a música Canteiros, de Raimundo Fagner. Garimpado no Youtube.




Um final de semana maravilhoso, como uma linda pintura!




Flores, 2012

Maria Leonor Appe (Brasil, 1933)


óleo sobre tela, 70 x 70 cm

sábado, 5 de abril de 2014

Fora de si?

Fora de si

Eu fico louco
eu fico fora de si
eu fica assim
eu fica fora de mim

Eu fico um pouco
depois eu saio daqui
eu vai embora
eu fico fora de si

Eu fico oco
eu fica bem assim
eu fico sem ninguém em mim
Arnaldo Antunes





De saída, quer dizer, já a partir do título, a letra é afrontosa.

Eu fico fora de mim
ou
eu fico fora de si?

Nós nos enganamos
ou
nós se enganamos?

No padrão culto da língua, devemos falar "eu fico fora de mim" e "nós nos enganamos". Mas ninguém vai negar que as construções "fora de si" e "nós se enganamos" são ultracomuns na língua popular. Por que será que o autor não respeitou a correspondência entre os pronomes (eu/me, mim)?

Vejamos os primeiros versos da composição:

"Eu fico louco
eu fico fora de si
eu fica assim
eu fica fora de mim".

Vamos analisar cada um dos versos. Você encontrou algo estranho no primeiro verso? Nada estranho, não é mesmo? Não há nenhum problema com "eu fico louco", a concordância verbal está bonitinha e a nominal, ao que supomos, também. Quer dizer, pela flexão no masculino do adjetivo, imaginamos que o eu da canção é um homem. Até aí, tudo bem.

E o segundo verso? Este retoma o título. Por que a frase saiu dos trilhos da norma culta? Se você ler direitinho o primeiro verso, vai começar a entender por quê: o sujeito está ficando louco, está ficando com parafusos a menos. Realmente, a julgar pelo rumo que vai tomando essa letra, ele se desmiola cada vez mais. Ora, esse desarranjo mental tem como conseqüência um desarranjo sintático. É como se os termos nas frases ficassem girando em falso, sem ligação entre si. Desreguladas, as frases ficam como que sem pé nem cabeça, ou com pé e cabeça trocados.

Vejamos o terceiro e o quarto versos. O que aconteceu? O pronome eu pede obviamente o verbo flexionado na primeira pessoa do singular (fico). Mas o compositor não levou em conta essa concordância e colocou o verbo na terceira pessoa do singular:"eu fica assim". Parece até gringo falando a nossa língua, não é? Na linha seguinte, o fora de si é corrigido para fora de mim, mas o certo continua errado aqui. Assim, em "eu fica fora de mim" temos um movimento de afirmação e de transgressão da própria integridade (mental e sintática). No entanto mesmo a correção sintática pode indicar transgressão. Em "eu (...) fora de mim", a norma gramatical, respeitada, indica desvio psíquico, o que é confirmado pelo conjunto da frase: "eu fica fora de mim".

A letra opera mínimas variações em torno dessa célula: "ficar fora de si".

Arnaldo Antunes pinçou do dia a dia um desvio gramatical e o tomaram ao pé da letra como se tivessem entrevisto nele potencialidade expressiva. E não é que tinha mesmo? Quem vai negar que "eu fico fora si" é forma perfeitamente casada ao conteúdo? Ou, repetindo o que dissemos acima, que o desarranjo sintático aqui imita o desarranjo mental? Quem vai negar isso, não é mesmo? Eu é que não.

Vamos ver agora o resto da música:


"Eu fico um pouco
depois eu saio daqui
eu vai embora
eu fico fora de si

Eu fico oco
eu fica bem assim
eu fico sem ninguém em mim".

"Eu fico um pouco/depois eu saio daqui". Como assim? A que se refere "daqui"? Então o letrista diz:"eu vai embora/ eu fico fora de si". Ora, "daqui" é o "eu", para fora do qual ele sai e no qual ele fica só "um pouco". O advérbio "fora" significa exteriormente, na parte externa, ou lugar diferente do da residência habitual ("dormir fora"), entre outras acepções que matizam o sentido original de lugar exterior. Bem, esse advérbio, aplicado à pessoa, ao eu, transmite a este características de lugar. É como se "fico fora de si" pudesse ser lido também como "dormi fora", como se "fico um pouco (em mim)" parodiasse "fico um pouco em casa".

Constrói-se, desse modo, uma afinidade entre o estar em si e o estar em casa. Note-se ainda que o verso "eu fico fora de si" retorna na passagem citada, logo depois de "eu vai embora". O ir embora de si, formalizado pelo desvio de concordância, é ficar fora de si. O eu sai de si mesmo e deixa a casa vazia, "sem ninguém em mim". Mas esse "mim" não é o eu. Calma! Não vá ter um torcicolo mental!... Você não vai apanhar de jeito nenhum esse cara. Quando você estiver indo, ele estará voltando. Ele deu só pistas falsas. Ele deixa uma luzinha acesa, e você acha que ele está em casa; ele começa a acertar o passo gramatical, e você já acha que ele achou a saída do labirinto. Não se iluda: a casa está vazia e o seu dono está errando por aí ("errando" no sentido de cometer erros e de vaguear, de andar a esmo).


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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.