domingo, 27 de setembro de 2015

Dedico esta poesia à mulher da minha vida: Elisabete, minha esposa.


                                            
                                               Architectura



Um dia, Ela
desenhará em chãos longínquos a casa só nossa,
que eu farei com estas mãos.


Os tijolos, eu os amassarei com os meus pés.


Às telhas —
hei de aprontar o barro mais macio,
e as formas serão por mim,
uma a uma, completadas;


Ela as alisará longamente —
seus dedos molhados de um profundo silêncio:
só os pássaros.


Fortaleza, manhã de 19.11.1998


Garimpado na internet. Disponível em: http://www.jornaldepoesia.jor.br/feito19.html. Acessado em 27.09.2015 às 16h34.

A Implosão da Mentira (ou o episódio do Riocentro-fragmentos) Fragmento 1.

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia

pela ditadura.

Affonso Romano de Sant'Anna

A Implosão da Mentira - (ou o episódio do Riocentro-fragmentos) Fragmento 2.

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho.Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente.Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre.Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre.E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.

E assim cada qual
mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira

-diária/mente.

Affonso Romano de Sant'Anna

terça-feira, 1 de setembro de 2015

A vírgula nas Orações Subordinadas Adjetivas

Nas orações adjetivas, a presença ou a ausência das vírgulas determina o sentido que se pretende dar à frase. Suponha, por exemplo, que, em uma eleição, vários candidatos estejam disputando a prefeitura de uma cidade e, a respeito da campanha eleitoral, dois jornais publiquem o seguinte:

Jornal A: Os candidatos que fizeram propaganda irregular foram multados pela Justiça Eleitoral.

Jornal B: Os candidatos, que fizeram propaganda irregular, foram multados pela Justiça Eleitoral.

O jornal A usa uma oração subordinada adjetiva restritiva (observe a ausência de vírgulas) e, assim, informa aos leitores que nem todos os candidatos fizeram propaganda irregular; apenas alguns deles é que fizeram e somente esses foram multados.

O jornal B traz uma notícia diferente, pois, ao empregar uma oração subordinada adjetiva explicativa (observe a presença das vírgulas) informa que todos os candidatos fizeram propaganda irregular e todos eles foram multados.

Há casos, no entanto, em que a relação de sentido estabelecida entre o substantivo (ou o pronome) e a oração adjetiva torna obrigatória a presença das vírgulas. Veja, por exemplo, este período:

O Brasil, que se localiza na América do Sul, tem dimensões continentais.

Nesse caso, como não existe outro Brasil localizado em outro lugar geográfico, a oração só pode mesmo ser adjetiva explicativa e precisa, portanto, ficar entre vírgulas. A ausência das vírgulas seria, em casos como esse, um grave erro de pontuação, pois distorceria o sentido da frase.

Ita est!
Prof. Zanon

Adaptado de: FERREIRA, Mauro. Aprender e Praticar Gramática.São Paulo: FTD, 2007. p. 430.

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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.