quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Bife a Cavalo: com ou sem acento grave, indicador de crase?

Na expressão "Bife a Cavalo" não ocorre crase, ou seja, não há uma fusão do A da preposição com o A do artigo feminino.
Por que não?
Porque não ocorre crase antes de palavras masculinas. Cavalo é palavra masculina. Nós dizemos "o cavalo" e não "a cavalo".

Mas não está subentendida a palavra "moda", como em: bife à (moda) milanesa?

Não. Bife a cavalo é uma forma reduzida de bife com ovo a cavalo, ou seja, o ovo vem montado sobre o bife.



Ita est!
Prof. Zanon  

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Espinho de peixe ou espinha de peixe?

Peixe tem espinha, e não "espinho".

As espinhas são ossos finos e pontiagudos que compõem o esqueleto de certos peixes. 


Os espinhos são estruturas pontiagudas encontradas em algumas plantas (limoeiros e laranjeiras, por exemplo), geralmente no caule e servem para proteger a planta de predadores. 


Espinhos também designam as estruturas pontiagudas no corpo de alguns animais (porco-espinho e ouriço, por exemplo), cuja função também é de proteção contra predadores. 




Portanto, prefira registrar assim:

- Não gosto de peixe com espinhas.
- Engasgou-se com a espinha do peixe.
- Sardinha tem muitas espinhas. 
- O ouriço tem muitos espinhos. 
- Furei meu dedo no espinho de um limoeiro.

Curiosidade: Rosa (ou roseira) não tem espinhos nem espinhas. Tem acúleos. 



Mas não vamos criar caso com os poetas, escritores e filósofos que já afirmaram: 

- "Temer os espinhos é não querer a rosa".
- "Há pessoas que olham para uma roseira e reclamam dos espinhos; e há pessoas que olham para um espinheiro e agradecem pelas rosas".

Ita est!
Prof. Zanon

Essa, esta

Encontrei esta frase num jornal de bairro: 

O ministro se muda "essa" semana.

Para designar o tempo no qual se está (ou objeto próximo de quem fala) devemos usar o pronome "este". Portanto, o correto seria: O ministro se muda esta semana.

Igualmente: esta noite (a noite em que se está), este dia (o dia de hoje), este mês (o mês em que estamos), este jornal (o jornal que estou lendo), esta escola (a escola na qual estudo ou trabalho).

Ita est!
Prof. Zanon

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Isto é uma Bíblia de estudo!









What is a poet?



“What is a poet? An unhappy person who conceals profoundanguish in his [or her] heart but whose lips are so formed that as sighs and cries pass through them they sound like beautiful music.”



"When we say to the poet or singer-song writer, "Sing to us," what we're really saying is "May your poem or song help us put our suffering into words that might connect us to life again. That we might be able to begin the hard work of mourning and no longer live as dead people in desperate despair. Words that might help us face our loss with others who could share in our burden and no longer live alone in the brokenness of pain and darkness."


 - Soren Kierkegaard

domingo, 5 de junho de 2016

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia


Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.



Gregório de Matos

domingo, 24 de abril de 2016

"É melhor ser-se um "pequeno homem"".

CAFÉ COM LEITE
Antônio Maria

 
É preciso amar, sabe? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso e confortável, de noite, pede um cais. A mulher a quem se chega, exausto e, com a força do cansaço, dá-se o espiritualíssimo amor do corpo.

Como deve ser triste a vida dos homens que têm mulheres de tarde, em apartamentos de chaves emprestadas, nos lençóis dos outros!  Como é possível deixar que a pele da amada toque os lençóis dos outros! Quem assim procede (o tom é bíblico e verdadeiro) divide a mulher com quem empresta as chaves.

Para os chamados “grandes homens”, a mulher é sempre uma aventura. De tarde, sempre. Aquela mulher, que chega se desculpando; e se despe, desculpando-se; e se crispa, ao ser tocada, e cerra os olhos, com toda força, com todo desgosto, enquanto dura o compromisso. É melhor ser-se um “pequeno homem”.

Amor não tem nada a ver com essas coisas. Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes, com a satisfação do dever cumprido.


No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo ascetismo da ioga... tudo é menor. O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Dicas quanto ao uso do hífen

O uso correto do hífen depende de memorizarmos muitas regrinhas. Convém memorizá-las aos poucos. Que tal começarmos com duas bem simples?

Quando a palavra começa com um prefixo, geralmente um radical grego ou latino, a regra é clara:

1º) LETRAS IGUAIS SE SEPARAM:

- Micro-ondas, anti-inflamatório, supra-auricular, arqui-inimigo, contra-ataque, micro-organismo etc.


2º) LETRAS DIFERENTES SE ATRAEM:

- Autoescola, extraoficial, semicírculo, autoestima, infravermelho, neonatal etc.


Ita est!
Prof. Zanon

domingo, 20 de março de 2016

Leituras "na faixa"

Descobri um site que disponibiliza um grande número de livros para serem baixados ou lidos on line. São livros de boa qualidade em vários formatos: ePUB, mobi, PDF etc. O endereço é:




O Le Livros foi criado e é mantido por um grupo de estudantes residentes em Portugal com o objetivo de democratizar o acesso à leitura gratuita. O projeto não tem quaisquer fins lucrativos e eles não aceitam ajuda financeira. Aceitam, porém, doações de ePUB's ou mobi's originais comprados pelos leitores.

Trata-se de uma bela iniciativa que merece ser apoiada.

Ita est!
Prof. Zanon






domingo, 31 de janeiro de 2016

"Afim de" ou "A fim de"?

Quando for equivalente a "para" é "a fim de" (com três palavras separadas).

Chegue cedo, a fim de não perder o início da aula.
O patrão lhe deu férias a fim de que fizesse a viagem.

Quando estiver acompanhada do verbo "estar" a expressão equivale, na linguagem coloquial, a "ter vontade de".

Estava a fim de desistir de tudo.
Estava a fim de casar.

Em uma palavra só, "afim" significa semelhante.

Eles têm objetivos afins.
O português é uma língua afim do espanhol.

Ita est!
Prof. Zanon

Há ou A?

"Há" indica passado e pode ser substituído por "faz".

Eles estão casados há 12 anos. (Eles estão casados faz 12 anos)

"A" exprime distância ou tempo futuro e não pode ser substituído por faz.

Chegaremos a São Paulo daqui a 2 horas.


Outros exemplos:
- Partiu há dois dias e voltará daqui a uma semana. (Partiu faz dois dias e voltará daqui a uma semana)
- A polícia estava a 20 metros dos bandidos.
- Eles saíram há cerca de duas horas.


Quando se usa o "há" não há necessidade de acrescentar o "atrás", já que o "há" indica passado. 

Portanto, escreva: "Eu me formei há 7 anos"; ou; "Eu me formei 7 anos atrás". Evite juntar os dois: "Eu me formei há 7 anos atrás."




Ita est!
Prof. Zanon

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Os cegos e o elefante


         Há muitos anos vivia na Índia um rei sábio e muito culto. Já havia lido todos os livros de seu reino. Seus conhecimentos eram numerosos como os grãos de areia do Rio Ganges. Muitos súditos e ministros, para agradar o rei, também se aplicaram aos estudos e às leituras dos velhos livros. Mas viviam disputando entre si quem era o mais conhecedor, inteligente e sábio. Cada um se arvorava em ser o dono da verdade e menosprezava os demais.   O rei se entristecia com essa rivalidade intelectual. Resolveu, então, dar-lhes uma lição.
         Chamou-os todos para que presenciassem uma cena no palácio. Bem no centro da grande sala do trono estavam alguns belos elefantes. O rei ordenou que os soldados deixassem entrar um grupo de cegos de nascença.   Obedecendo às ordens reais, os soldados conduziram os cegos para os elefantes e, guiando-lhes as mãos, mostraram-lhes os animais.
         Um dos cegos agarrou a perna de um elefante; o outro segurou a cauda; outro tocou a barriga; outro, as costas; outro apalpou as orelhas; outro, a presa; outro, a tromba.   O rei pediu que cada um examinasse bem, com as mãos, a parte que lhe cabia. Em seguida, mandou-os vir à sua presença e perguntou-lhes:   – Com que se parece um elefante?  
         Começou uma discussão acalorada entre os cegos.   Aquele que agarrou a perna respondeu: – O elefante é como uma coluna roliça e pesada.  
         – Errado! – interferiu o cego que segurou a cauda. – O elefante é tal qual uma vassoura de cabo maleável.  
         – Absurdo! – gritou aquele que tocou a barriga. – É uma parede curva e tem a pele semelhante a um tambor.  
         – Vocês não perceberam nada – desdenhou o cego que tocou as costas. – O elefante parece-se com uma mesa abaulada e muito alta.  
         – Nada disso! – resmungou o que tinha apalpado as orelhas. – É como uma bandeira arredondada e muito grossa que não para de tremular.  
         – Pois eu não concordo com nenhum de vocês – falou alto o cego que examinara a presa. – Ele é comprido, grosso e pontiagudo, forte e rígido como os chifres.  
         – Lamento dizer que todos vocês estão errados – disse com prepotência o que tinha segurado a tromba. – O elefante é como a serpente, mas flutua no ar.  
         O rei se divertiu com as respostas e, virando-se para seus súditos e ministros, disse-lhes:   – Viram? Cada um deles disse a sua verdade. E nenhuma delas responde corretamente a minha pergunta. Mas se juntarmos todas as respostas poderemos conhecer a grande verdade. Assim são vocês: cada um tem a sua parcela de verdade. Se souberem ouvir e compreender o outro e se observarem o mundo de diferentes ângulos, chegarão ao conhecimento e à sabedoria.

Conto do budismo chinês. Extraído de DOMINGUES, Joelza Ester. História em Documento. Imagem e texto. São Paulo: FTD, 2012.


Disponível em: http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/um-conto-para-a-primeira-aula-de-historia/ - Blog: Ensinar História - Joelza Ester Domingues. Acessado em: 22.01.2016 às 9h38.

domingo, 17 de janeiro de 2016

A GAIVOTA


         Era uma gaivota que se cansara de voar. Sem rumo, havia permanecido voando em meio a tempestades e tornados, numa região da Terra em que não há norte ou sul, nem leste ou oeste. Perdera-se, e agora se esforçava para não cair no mar, onde sua morte seria certa.
         Exausta, pousou em uma ilha, a única parcela de terra que encontrara em seu voo desesperado. Um nevoeiro cobria a região inteira.
         A ilha estava deserta de pessoas. Apenas galinhas, árvores, pedras. Uma casa abandonada, com um curral ao lado, mostrava que outrora houve vida ali.
         Apesar da aparência desolada, aquela ilha parecia convidativa: água, alimento, abrigo. E mais: as galinhas que a habitavam lhe ofereceram uma amizade genuína, proclamada em cacarejos alegres como expressão de sua grande fraternidade.
         Na ilha, há poucos anos atrás, as galinhas haviam trucidado a única raposa a bicadas. Alimentaram-se de seu sangue e de sua carne por semanas a fio, muito embora isso lhes fosse abjeto. Agora, proclamavam sua ilha como o paraíso das galinhas.
         A gaivota acreditou na irmandade das galinhas. Decidiu ali permanecer, andar com as galinhas e se tornar uma delas. Ciscava o chão em busca de alimento, e não mais voava. Tornou-se mesmo um exemplo de galinha a ser seguido, pois ciscava com técnica e cuidado.
         A ilha se tornou seu refúgio: nada mais de ventos, nada mais de pescas, nada mais de bandos de gaivotas, nada mais de alturas.
Mas ela era diferente das galinhas: seus pés eram mais frágeis, e sangravam; seu bico, do mesmo modo, feria-se facilmente. Sua voz, diferente, de modo que se calava. Mas o pior não era a dor física ou o silêncio: as galinhas a hostilizavam por sua capacidade de voar.
         Os voadores eram considerados uns loucos, desafiadores da natureza física que mantinha todos os corpos no solo. Voar era um desrespeito à gravidade, e as gaivotas eram, portanto, o suprassumo da iniquidade, por sua natural impermanência no solo. Tudo isso ela suportou, até um dia em que uma lufada de vento a levantou da terra. A gaivota, um tanto desajeitada pela falta de prática, apenas abriu suas asas e foi levada ao alto, para espanto das galinhas. (Uma delas tentou fazer o mesmo e esborrachou-se poucos metros adiante de onde tentou alçar voo. Mas não admitiu que queria voar. Disse que foi a violência do vento...)
         A gaivota aterrissou suavemente num monte próximo, pouco acima de onde as galinhas ciscavam, quase sem querer. Logo, as galinhas anciãs começaram a cacarejar contra a gaivota, denunciando-a como uma aberração contra a santa lei da gravidade, um exemplo de como as coisas se tornam perigosas quando se abrem asas, ou quando se possui asas grandes. O clamor se intensificou quando outras galinhas se juntaram ao cacarejo coletivo. Por fim, o barulho se tornou insuportável.
         Mas o cacarejo silenciou quando a gaivota, já cansada de tanto barulho inútil, abriu suas asas e pairou sobre o pasto das galinhas. Majestosamente leve, a gaivota circulou o pasto, observando os estreitos limites daquela prisão sem gaiola. “Como pude” – pensou – “permanecer tanto tempo aqui, tão diminuído, tão hostilizado? A aparência de segurança deste galinheiro é uma ilusão!”
         Ao observar suas anteriores irmãs, que se tornaram agora furiosas acusadoras, a gaivota pensou: “Eu não tenho como ajudá-las. São somente galinhas, que posso fazer? Permanecerão em seus estreitos limites até sua morte, imaginando-se livres. Para quê desiludi-las?”
         De modo que, depois de circular o galinheiro por alguns minutos, a gaivota decidiu romper o nevoeiro que permanecia sobre a ilha já por mil anos. Ao sair, olhou o horizonte e viu o Sol, numa exuberante aurora. A gaivota pensou:
         - Eis um novo dia...

         Enquanto isso, as galinhas cacarejavam a segurança e o conforto de sua ilha.

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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.