domingo, 31 de janeiro de 2016

"Afim de" ou "A fim de"?

Quando for equivalente a "para" é "a fim de" (com três palavras separadas).

Chegue cedo, a fim de não perder o início da aula.
O patrão lhe deu férias a fim de que fizesse a viagem.

Quando estiver acompanhada do verbo "estar" a expressão equivale, na linguagem coloquial, a "ter vontade de".

Estava a fim de desistir de tudo.
Estava a fim de casar.

Em uma palavra só, "afim" significa semelhante.

Eles têm objetivos afins.
O português é uma língua afim do espanhol.

Ita est!
Prof. Zanon

Há ou A?

"Há" indica passado e pode ser substituído por "faz".

Eles estão casados há 12 anos. (Eles estão casados faz 12 anos)

"A" exprime distância ou tempo futuro e não pode ser substituído por faz.

Chegaremos a São Paulo daqui a 2 horas.


Outros exemplos:
- Partiu há dois dias e voltará daqui a uma semana. (Partiu faz dois dias e voltará daqui a uma semana)
- A polícia estava a 20 metros dos bandidos.
- Eles saíram há cerca de duas horas.


Quando se usa o "há" não há necessidade de acrescentar o "atrás", já que o "há" indica passado. 

Portanto, escreva: "Eu me formei há 7 anos"; ou; "Eu me formei 7 anos atrás". Evite juntar os dois: "Eu me formei há 7 anos atrás."




Ita est!
Prof. Zanon

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Os cegos e o elefante


         Há muitos anos vivia na Índia um rei sábio e muito culto. Já havia lido todos os livros de seu reino. Seus conhecimentos eram numerosos como os grãos de areia do Rio Ganges. Muitos súditos e ministros, para agradar o rei, também se aplicaram aos estudos e às leituras dos velhos livros. Mas viviam disputando entre si quem era o mais conhecedor, inteligente e sábio. Cada um se arvorava em ser o dono da verdade e menosprezava os demais.   O rei se entristecia com essa rivalidade intelectual. Resolveu, então, dar-lhes uma lição.
         Chamou-os todos para que presenciassem uma cena no palácio. Bem no centro da grande sala do trono estavam alguns belos elefantes. O rei ordenou que os soldados deixassem entrar um grupo de cegos de nascença.   Obedecendo às ordens reais, os soldados conduziram os cegos para os elefantes e, guiando-lhes as mãos, mostraram-lhes os animais.
         Um dos cegos agarrou a perna de um elefante; o outro segurou a cauda; outro tocou a barriga; outro, as costas; outro apalpou as orelhas; outro, a presa; outro, a tromba.   O rei pediu que cada um examinasse bem, com as mãos, a parte que lhe cabia. Em seguida, mandou-os vir à sua presença e perguntou-lhes:   – Com que se parece um elefante?  
         Começou uma discussão acalorada entre os cegos.   Aquele que agarrou a perna respondeu: – O elefante é como uma coluna roliça e pesada.  
         – Errado! – interferiu o cego que segurou a cauda. – O elefante é tal qual uma vassoura de cabo maleável.  
         – Absurdo! – gritou aquele que tocou a barriga. – É uma parede curva e tem a pele semelhante a um tambor.  
         – Vocês não perceberam nada – desdenhou o cego que tocou as costas. – O elefante parece-se com uma mesa abaulada e muito alta.  
         – Nada disso! – resmungou o que tinha apalpado as orelhas. – É como uma bandeira arredondada e muito grossa que não para de tremular.  
         – Pois eu não concordo com nenhum de vocês – falou alto o cego que examinara a presa. – Ele é comprido, grosso e pontiagudo, forte e rígido como os chifres.  
         – Lamento dizer que todos vocês estão errados – disse com prepotência o que tinha segurado a tromba. – O elefante é como a serpente, mas flutua no ar.  
         O rei se divertiu com as respostas e, virando-se para seus súditos e ministros, disse-lhes:   – Viram? Cada um deles disse a sua verdade. E nenhuma delas responde corretamente a minha pergunta. Mas se juntarmos todas as respostas poderemos conhecer a grande verdade. Assim são vocês: cada um tem a sua parcela de verdade. Se souberem ouvir e compreender o outro e se observarem o mundo de diferentes ângulos, chegarão ao conhecimento e à sabedoria.

Conto do budismo chinês. Extraído de DOMINGUES, Joelza Ester. História em Documento. Imagem e texto. São Paulo: FTD, 2012.


Disponível em: http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/um-conto-para-a-primeira-aula-de-historia/ - Blog: Ensinar História - Joelza Ester Domingues. Acessado em: 22.01.2016 às 9h38.

domingo, 17 de janeiro de 2016

A GAIVOTA


         Era uma gaivota que se cansara de voar. Sem rumo, havia permanecido voando em meio a tempestades e tornados, numa região da Terra em que não há norte ou sul, nem leste ou oeste. Perdera-se, e agora se esforçava para não cair no mar, onde sua morte seria certa.
         Exausta, pousou em uma ilha, a única parcela de terra que encontrara em seu voo desesperado. Um nevoeiro cobria a região inteira.
         A ilha estava deserta de pessoas. Apenas galinhas, árvores, pedras. Uma casa abandonada, com um curral ao lado, mostrava que outrora houve vida ali.
         Apesar da aparência desolada, aquela ilha parecia convidativa: água, alimento, abrigo. E mais: as galinhas que a habitavam lhe ofereceram uma amizade genuína, proclamada em cacarejos alegres como expressão de sua grande fraternidade.
         Na ilha, há poucos anos atrás, as galinhas haviam trucidado a única raposa a bicadas. Alimentaram-se de seu sangue e de sua carne por semanas a fio, muito embora isso lhes fosse abjeto. Agora, proclamavam sua ilha como o paraíso das galinhas.
         A gaivota acreditou na irmandade das galinhas. Decidiu ali permanecer, andar com as galinhas e se tornar uma delas. Ciscava o chão em busca de alimento, e não mais voava. Tornou-se mesmo um exemplo de galinha a ser seguido, pois ciscava com técnica e cuidado.
         A ilha se tornou seu refúgio: nada mais de ventos, nada mais de pescas, nada mais de bandos de gaivotas, nada mais de alturas.
Mas ela era diferente das galinhas: seus pés eram mais frágeis, e sangravam; seu bico, do mesmo modo, feria-se facilmente. Sua voz, diferente, de modo que se calava. Mas o pior não era a dor física ou o silêncio: as galinhas a hostilizavam por sua capacidade de voar.
         Os voadores eram considerados uns loucos, desafiadores da natureza física que mantinha todos os corpos no solo. Voar era um desrespeito à gravidade, e as gaivotas eram, portanto, o suprassumo da iniquidade, por sua natural impermanência no solo. Tudo isso ela suportou, até um dia em que uma lufada de vento a levantou da terra. A gaivota, um tanto desajeitada pela falta de prática, apenas abriu suas asas e foi levada ao alto, para espanto das galinhas. (Uma delas tentou fazer o mesmo e esborrachou-se poucos metros adiante de onde tentou alçar voo. Mas não admitiu que queria voar. Disse que foi a violência do vento...)
         A gaivota aterrissou suavemente num monte próximo, pouco acima de onde as galinhas ciscavam, quase sem querer. Logo, as galinhas anciãs começaram a cacarejar contra a gaivota, denunciando-a como uma aberração contra a santa lei da gravidade, um exemplo de como as coisas se tornam perigosas quando se abrem asas, ou quando se possui asas grandes. O clamor se intensificou quando outras galinhas se juntaram ao cacarejo coletivo. Por fim, o barulho se tornou insuportável.
         Mas o cacarejo silenciou quando a gaivota, já cansada de tanto barulho inútil, abriu suas asas e pairou sobre o pasto das galinhas. Majestosamente leve, a gaivota circulou o pasto, observando os estreitos limites daquela prisão sem gaiola. “Como pude” – pensou – “permanecer tanto tempo aqui, tão diminuído, tão hostilizado? A aparência de segurança deste galinheiro é uma ilusão!”
         Ao observar suas anteriores irmãs, que se tornaram agora furiosas acusadoras, a gaivota pensou: “Eu não tenho como ajudá-las. São somente galinhas, que posso fazer? Permanecerão em seus estreitos limites até sua morte, imaginando-se livres. Para quê desiludi-las?”
         De modo que, depois de circular o galinheiro por alguns minutos, a gaivota decidiu romper o nevoeiro que permanecia sobre a ilha já por mil anos. Ao sair, olhou o horizonte e viu o Sol, numa exuberante aurora. A gaivota pensou:
         - Eis um novo dia...

         Enquanto isso, as galinhas cacarejavam a segurança e o conforto de sua ilha.

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Sou um professor apaixonado pela educação, pela literatura, pela língua portuguesa e pela arte de escrever. Como tantos educadores, um idealista. Fascina-me a incomensurável capacidade de transformação do ser humano. Por que me ufano da minha profissão? Porque sei que quando leciono, não estou apenas passando conteúdos, mas também destruindo mitos, dogmas e raciocínios falaciosos que cerceiam a liberdade humana.